Ensaios, músicas e baterias afinadas anunciam a aproximação do Carnaval em Belo Horizonte. O agito passa a tomar conta de cada esquina da cidade, contagiando os foliões, que muitas vezes, nem imaginam as dificuldades de “botar um bloco na rua”. Com os preparativos para a festa momesca, começa a corrida contra o tempo para conseguir o apoio financeiro necessário para que a folia aconteça. Sob a insegurança de não sair, blocos grandes e famosos buscam patrocínio, e até apelam para financiamento coletivo. Representantes da categoria apontam incentivo “tímido”.

Um dos principais coletivos de BH, o Abalô-Caxi, conhecido pelo protagonismo LGBTQIAPN+, lançou uma campanha de arrecadação para garantir a realização do desfile de 2026. A meta é arrecadar R$ 50 mil, necessários para viabilizar a estrutura do cortejo. A ação vai funcionar em forma de financiamento coletivo. “Não é a primeira vez que o bloco recorre a esse modelo. Em 2018 também utilizamos este recurso para viabilizar o desfile. O carnaval de BH cresceu e o maior desafio é ter uma estrutura que acompanhe esse crescimento”, disse o coordenador de comunicação do grupo, Cadu Passos. 

Segundo ele, a realização do desfile demanda custos com estrutura, som, segurança, logística, cenografia do trio, profissionais da cultura, ensaios, figurinos e ações de acessibilidade, o que exige logística e verba. Passos também mencionou que o Abalô-Caxi não conseguiu o auxílio financeiro pelo edital da Prefeitura de BH, por não contemplar todas as solicitações do processo seletivo. “Estamos em diálogo com algumas marcas para viabilizar o patrocínio e estamos esperançosos neste processo. No ano passado, por exemplo, o bloco contou com o patrocínio da Ambev”, contou Cadu.

O coordenador também destacou que o grupo acredita na força e mobilização da cidade para que o desfile aconteça. “No último desfile foram mais de 60 mil pessoas, e sabemos que muitas pessoas acreditam no trabalho que desenvolvemos, de levar o protagonismo LGBTQIAPN+ para as ruas”, afirmou. A arrecadação vai funcionar de forma online, por meio da plataforma Evoé. “Esse é um momento que convidamos nossos apoiadores e foliões a contribuírem para realizarmos mais um ano de desfile com performance”, convocou.

Entre as modalidades de apoio estão a contribuição livre, com valor definido pelo apoiador; contribuição de R$ 20 a R$ 80, que incluem recompensas como boné oficial do bloco, camisa do Abalô-Caxi, ou ambos; e doações de R$ 250 a R$ 700, que incluem registros fotográficos do cortejo, kits de impressos e itens oficiais. Além disso, também é possível contribuir com valores a partir de R$ 2 mil, destinado a apoiadores que desejam construir uma colaboração maior com o bloco, com contato direto com a organização.

Sem apoio público e patrocínio das empresas até o momento, o coletivo decidiu que, caso a meta não seja alcançada, o desfile vai acontecer “na marra”. “O Abalô-Caxi conta com os recursos viabilizados pela lojinha do bloco, com itens personalizados como camisetas, bonés, adesivos e outros acessórios carnavalescos. Os blocos de rua de BH nasceram do ‘faça você mesmo’. Está no nosso DNA fazer com o que tem, e esse ano não será diferente”, garantiu Cadu. Até o momento, apenas 9% da meta foi atingida.

Carnaval profissionalizado

A presidente da Liga Belorizontina de Blocos de Rua, Polly Paixão, aponta para um incentivo tímido na capital mineira. “O Carnaval de BH é bem expressivo nacionalmente falando. Mas, percebemos uma timidez no patrocínio. O carnaval está profissionalizado, ou seja, as coisas estão cada vez mais caras. O trio elétrico hoje custa R$ 50 mil, no mínimo. Fica difícil um bloco fazer um junta-junta para levantar esse valor”, alegou. Segundo ela, isso representa risco à folia da cidade, já que há muitas desistências no processo.

Polly também afirma que o edital da Belotur é expressivo, mas não o suficiente para arcar com todos os custos. “Isso é uma situação muito atrasada, em virtude do carnaval que temos hoje, e do que podemos oferecer em termos de visibilidade. A galera fica aí fazendo rifa, financiamento coletivo para tentar sair. A cidade está acostumada com patrocínio para crescer, então tem que ter cada dia mais patrocínio”, defendeu. A presidente ainda argumentou que o investimento também ajuda na descentralização da festa.

Desistências

Questionada sobre os blocos desistentes, Polly Paixão afirmou ao Estado de Minas, que ainda não há um número definido. “Sempre há uma desistência em torno de 15% dos blocos. Não sabemos o resultado deste ano, mas acredito que será maior que o ano passado, porque as coisas ficam mais caras e o dinheiro escasso”, disse.

Ela também informou que os blocos ainda estão correndo atrás e com esperança de conseguir apoio. Entre eles, a presidente destaca o Funk You e o Batuque Coletivo que estão sem patrocínio e com situação indefinida, e o Bartucada que sairá pela primeira vez com apoio da Ambev. Em média, 20% dos desfiles pré-cadastrados acabam desistindo, conforme informado pela PBH. Em 2024, foram 536 inscritos, mas apenas 418 desfiles. Já em 2023, do total de 493 cadastros, todos foram realizados. Para a folia deste ano, foram 612 inscrições.

O que diz a PBH

Para a festa de 2026, a prefeitura está investindo R$3,21 milhões em auxílio financeiro, contemplando 105 blocos de rua. Na edição anterior, o valor destinado foi de R$1,762 milhão. De acordo com o Executivo, os recursos podem ser utilizados para a contratação de músicos, dançarinos, carregadores, assessores, produtores, técnicos de som, motoristas, seguranças, equipes de apoio, brigadistas, produção, mini trio, UTI móvel, entre outras despesas previstas no regulamento. 

“Somado ao Edital de Auxílio Financeiro, a PBH disponibiliza toda a estrutura do poder público municipal, com ações nas áreas de limpeza urbana, segurança, saúde e mobilidade. Cada bloco também conta com a instalação de banheiros químicos e gradis personalizados, organizados ao longo do percurso de desfile”, informou em nota.

Distribuição do recurso:

Categoria A: R$ 41,5 mil ( 50 blocos contemplados)

Categoria B: R$ 24,1 mil ( 35 blocos contemplados)

Categoria C: R$ 14,6 mil (20 blocos contemplados)

Ensaios de blocos nesta quarta-feira (14/1)

Bloco Bartucada
Horário: 19h
Local: Mercado de Origem - Rua Adriano Chaves e Matos, 447, Olhos D'Água

Bloco Fofoca Carimbó
Horário: 19h
Local: Sede do Grupo Aruanda - Rua Espírito Santo, 757, Centro

Blocão do Cachorrão
Horário: 19h
Local: Rua Mercúrio, 31, Bom Retiro

Bloco Alceu Dispor
Horário: 19h
Local: Praça 15 de junho, Lagoinha

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Bloco Quando Come se Lambuza
Horário: 20h
Local: Quadra da Escola de Samba Cidade Jardim – Rua do Mercado, 150, Conjunto Santa Maria

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