Como o Caso Varginha influenciou a ufologia brasileira
O que começou como um avistamento em Minas Gerais tornou-se um marco histórico que profissionalizou e internacionalizou a ufologia brasileira
compartilhe
SIGA
Antes de 1996 já existiam relatos de avistamentos e contatos com seres extraterrestres no Brasil. O primeiro relato ufológico oficial no Brasil data de 1952, na Barra da Tijuca (RJ), com fotos de um Objeto Voador Não Identificado (OVNI). Desde então, os relatos continuaram. Mas, com o Caso Varginha, a ufologia brasileira cresceu e se profissionalizou, mudando para sempre as pesquisas sobre vida fora da Terra em todo o mundo.
Apesar do primeiro relato ufológico oficial do Brasil datar de 1952, o caso mais famoso e considerado o pioneiro em abdução no mundo é de 1957. Na ocasião, o fazendeiro Antônio Villas-Boas, de São Francisco de Sales, no Triângulo Mineiro, alegou ter sido abduzido por extraterrestres e forçado a ter relações sexuais com uma alienígena.
Leia Mais
Na década de 1960, o governo brasileiro criou o SIOANI (Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados), ligado ao Ministério da Aeronáutica, demonstrando que o tema era tratado com seriedade institucional. Hoje, o Arquivo Nacional reúne quase mil registros oficiais, incluindo relatos de pilotos civis e militares, controladores de voo e documentos internos das Forças Armadas.
Casos como a Operação Prato, conduzida pela Força Aérea Brasileira no Pará em 1977 para investigar luzes que supostamente atacavam moradores ribeirinhos, já haviam colocado o Brasil no mapa da ufologia mundial. Ainda assim, nenhum episódio foi tão impactante, duradouro e controverso quanto o Caso ET de Varginha.
Em janeiro de 1996, a rotina da cidade de Varginha, no sul de Minas, foi quebrada por uma sequência de acontecimentos que rapidamente extrapolou os limites regionais. Três jovens — Liliane, Valquíria e Kátia — relataram ter visto uma criatura de aparência incomum: baixa estatura, pele escura e oleosa, olhos vermelhos salientes e três protuberâncias na cabeça.
O relato, por si só, poderia ter sido arquivado como mais um caso isolado. No entanto, ele foi seguido por uma movimentação atípica de militares, veículos do Exército, do Corpo de Bombeiros e supostas operações de resgate. Surgiram ainda denúncias envolvendo hospitais, o zoológico da cidade e a morte do soldado Marco Eli Chereze, apontada por ufólogos como consequência de contato biológico com a criatura.
Rapidamente, Varginha se tornou o centro de uma histeria coletiva nacional, amplificada pela cobertura da imprensa. Depois dos relatos de avistamento, o programa “Fantástico”, da TV Globo, exibiu em 1996 uma reportagem que mostrou uma verdadeira onda de avistamentos em Minas Gerais e em outras regiões do país, com luzes coloridas, objetos estacionários e registros em vídeo analisados por especialistas. Mais recentemente, as Forças Aéreas divulgaram o vídeo de um OVNI avistado em Varginha, em 1996.
Projeção internacional
Para pesquisadores como Marco Antonio Petit, coeditor da Revista UFO e membro fundador da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU), Varginha representa o auge da chamada ufologia militar brasileira. O caso passou a ser comparado diretamente ao Incidente de Roswell, um avistamento de um OVNI ocorrido nos Estados Unidos em 1947, e ganhou o apelido de “Roswell brasileiro”.
A comparação não se deve apenas à suposta queda ou presença de um objeto, mas à complexidade do enredo, ao envolvimento de instituições militares e à suspeita de acobertamento oficial. Em Roswell, as autoridades chegaram a confirmar que tinham encontrado um “disco voador”, mas, depois negaram. Por aqui, os avistamentos sempre foram desmentidos pelas autoridades.
Com isso, a partir de Varginha, o Brasil deixou de ser apenas um país com registros curiosos e passou a integrar o núcleo duro das discussões ufológicas globais.
Diferentemente de muitos relatos baseados apenas em observações de luzes no céu, o Caso Varginha abriu múltiplas frentes de investigação: civil, militar e médica. O episódio motivou a criação do chamado Grupo dos Sete, formado por ufólogos como Claudeir Covo, Vitório Pacaccini e Marco Antonio Petit., que conseguiram depoimentos de civis e militares.
Segundo Edison Boaventura Jr., ufólogo e autor do livro “ETs de Varginha: montando o quebra-cabeça”, o caso se tornou uma verdadeira escola de investigação ufológica. "O Claudeir Covo criou o grupo dos sete e eu sou um integrante... Tivemos acesso irrestrito aos depoimentos de militares e de civis. E ficamos na pesquisa até os dias atuais. Eu continuo pesquisando o Caso Varginha. Já escrevi o livro 1, 'Montando o Quebra-Cabeça', e estou escrevendo o volume 2”, contou.
Um dos pilares da importância de Varginha para a ufologia brasileira está na resiliência das testemunhas. As três jovens que relataram o encontro com a criatura mantiveram suas versões por quase 30 anos, sem ganhos financeiros e enfrentando preconceito social.
Esse fator confere ao caso uma credibilidade humana rara, segundo ufólogos. "Eu venci todos os preconceitos. Então, não digo que eu não queria ter vivido isso; eu digo que eu venci isso. Mas, se fosse lá atrás, passar por tudo de novo, eu não queria”, afirmou Liliane Silva em documentário da TV Globo.
A versão oficial
Em resposta à pressão pública, o Exército instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM), que concluiu oficialmente que o suposto “ET” seria, na verdade, um homem com transtornos mentais. Esse foi o único posicionamento oficial das autoridades sobre o caso. No entanto, o documento só veio a público há poucos anos, depois de 2010.
Para os defensores da hipótese extraterrestre, o IPM não respondeu a pontos-chave, como a movimentação militar incomum, o desaparecimento de registros audiovisuais e os relatos de impactos biológicos.
Mesmo com a divulgação do IPM, os ufólogos afirmam que os militares continuam a omitir documentos e informações. Com isso, os pesquisadores começaram a pressionar o Estado por transparência nas informações. Para pesquisadores como Marco Antonio Petit, o caso representa um ponto de não retorno na relação entre governo, Forças Armadas e sociedade civil.
“Varginha é um divisor de águas. A partir dali, o assunto não pôde mais ser tratado apenas como folclore ou delírio coletivo”, afirma Petit.
Segundo ele, o episódio escancarou um padrão histórico de sigilo militar no Brasil, já observado em casos anteriores, como Trindade e a Operação Prato, mas nunca com tamanha repercussão pública. “Essa área da ufologia militar sempre me acompanhou desde o início. Mas, em relação a Varginha, o nível de conhecimento do público vai subindo. Vai chegar um ponto que tanto faz o Exército continuar a negar ou não”, avalia.
A pressão gerada pelo caso ajudou a pavimentar o caminho para que o tema dos OVNIs — hoje oficialmente chamados de Fenômenos Anômalos Não Identificados (UAPs) — chegasse ao Congresso Nacional. Uma audiência pública foi realizada na Câmara dos Deputados em 2025, para tratar o assunto de forma mais institucional, algo impensável antes de 1996.
“É importante porque isso traz novamente uma discussão maior sobre essa história. A audiência pública faz com que o tema volte ao centro do debate político”, explica o especialista.
Para os ufólogos, no entanto, a falta desses documentos é a questão central para acabar com o mistério. “O que falta para desvendar o caso, na verdade, é a revelação de documentos, e principalmente de vídeos, que nós sabemos que existem, mas que ainda estão sob o manto do sigilo”, afirma Petit.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Ele também destaca que o impacto institucional de Varginha não se limita ao passado, com novos desdobramentos mesmo depois de três décadas. “Cada vez mais testemunhas, inclusive militares, estão começando a falar. Pessoas que ficaram em silêncio por décadas agora se sentem mais seguras para contar o que viram”, diz.