Carreta perde controle e destrói barracos no Anel Rodoviário, em BH
Acidente aconteceu de madrugada deste domingo na Vila da Luz; Região Nordeste da capital. Por sorte, não houve feridos
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Uma carreta carregada com refrigerantes perdeu o controle e atingiu três barracos às margens do Anel Rodoviário, na Vila da Luz, Bairro Jardim Vitória, Região Nordeste de Belo Horizonte (MG). As residências ficaram destruídas com o impacto da batida, registrada na madrugada deste domingo (4/1).
De acordo com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), não houve vítimas. O acidente ocorreu por volta de 1h40, no sentido Vitória, quando o veículo atingiu os barracos e provocou derramamento de óleo na pista.
Equipes da Guarda Civil Municipal atuaram no local e a carreta já foi retirada da via. Relatos de motoristas em grupos de caminhoneiros indicam que o trânsito chegou a ficar lento entre as avenidas Antônio Carlos e Cristiano Machado. Durante a ocorrência, populares chegaram a saquear parte da carga.
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Morador de uma das casas atingidas, Wanderson Soares Leitão, de 37 anos e rejuntador, contou ao Estado de Minas que estava sozinho no imóvel no momento do acidente. A esposa estava viajando com o filho para o interior de Minas e, segundo ele, poderia ter morrido caso estivesse em casa, já que os escombros caíram sobre um cômodo onde o filho de 14 anos costuma dormir.
"Ouvi um barulho e vi muita fumaça branca subindo, pensei que era alguém fazendo brincadeira. Caiu telha em cima de mim, cortou a sola do pé e joelho. No lado que eu estava dormindo não caiu a parede, só do outro", afirma.
Imagens gravadas no local mostram um cenário de destruição. Wanderson sofreu apenas escoriações leves. Pela manhã, vizinhos e familiares tentavam recuperar o que sobrou entre os escombros, como roupas, comidas e utensílios domésticos, em meio à chuva.
“A empresa tem que arcar com os prejuízos. Perdi tudo, não tenho nada, nada, nada. Não tenho nem para onde ir”, desabafou. Outra moradora, bastante abalada, não conseguiu falar sobre o ocorrido. Belo Horizonte está marcado por muita chuva neste domingo, no entanto, não se sabe se chovia no momento da batida e as causas do acidente.
Acidentes constantes
O Anel Rodoviário de BH registra grande número de acidentes envolvendo caminhões no trecho. O atropelamento de um pedestre, ainda não identificado, e uma colisão entre duas motos deixaram o trânsito lento no Anel Rodoviário em 11 de agosto do ano passado. O atropelamento aconteceu na altura da Vila da Luz, no Bairro Jardim Vitória, na Região Nordeste, no sentido Rio de Janeiro, por volta das 7h30.
Em julho de 2022, uma carreta perdeu o controle e tombou sobre casas às margens do Anel, no mesmo local. O acidente deixou quatro vítimas com ferimentos leves, mas pelo menos dez casas foram atingidas. De acordo com o motorista da carreta, o pneu do veículo estourou e, por isso, ele perdeu o controle da direção.
No mesmo ano, uma carreta carregada de feno tombou na madrugada de 1 de dezembro de 2022. Por pouco, o veículo não atingiu as casas de moradores que vivem às margens da via expressa.
O motorista, de 42 anos, ficou ferido e precisou ser socorrido pelo Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu). Parte da carga se espalhou na pista e a cabine da carreta ficou danificada. O veículo virou em cima de um poste de iluminação, o que impediu que atingisse as casas à margem da rodovia, como já aconteceu em outros acidentes.
Vila da Luz
Foi assinado, em 7 de novembro do ano passado, um acordo que formaliza a cessão de uma área pública para reassentar aproximadamente 2.000 famílias que serão removidas das margens da BR-381 devido às obras de duplicação da rodovia.
Agora, a assinatura de um acordo entre o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e o Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6), promete enfim, definir o destino das famílias que há anos vivem no improviso às margens da rodovia.
Mas, depois de décadas ouvindo promessas de que seriam retirados dali, a notícia chega à comunidade em uma mistura de alívio e desconfiança. Há quem veja a assinatura do documento como o início de uma nova vida longe do perigo e quem prefira conter o entusiasmo, afinal, já perderam a conta das vezes em que disseram que o reassentamento “agora vai”. “Vai mudar, não mudar. Há muito tempo que a gente escuta essa conversa”, resume Elizete Grande dos Santos, de 63 anos.
Hoje aposentada, ela luta contra dores nas pernas e na coluna e se equilibra para descer o barranco cimentado que leva à rua. “Já caí várias vezes. Quando chove, é um perigo. Quero sair daqui, sim. Muito tempo que eu quero, mas tenho minhas dúvidas se vai acontecer mesmo”, diz.
O novo termo de compromisso, encerra uma disputa iniciada em 2013, quando a PBH e o Dnit firmaram o primeiro acordo para remover famílias que viviam em áreas de risco ou na faixa de domínio da rodovia. À época, foram repassados R$ 5,3 milhões pela Caixa Econômica Federal para a compra de terrenos e a construção de moradias populares.
Os planos previam erguer 630 unidades habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida em uma área entre os bairros São Gabriel e Belmonte, na Região Norte da capital. Foram adquiridos 47 lotes, mas as casas nunca saíram do papel. Com o passar dos anos, os terrenos foram ocupados irregularmente, dando origem a um novo bairro, hoje com cerca de 12 mil moradores, pequenas construções, comércios e serviços, conforme descobriu a reportagem do Estado de Minas.
Enquanto isso, a duplicação da BR-381, prometida há décadas, continuava emperrada. Mas, para que isso aconteça, Elizete e quase duas mil pessoas têm que ser indenizadas e removidas de imóveis erguidos à beira da estrada. Em 2023, o governo federal decidiu alterar o edital de concessão da estrada e retirar do cronograma o trecho de entrada e saída de Belo Horizonte, considerado de alta complexidade técnica e jurídica, o que afastava o interesse da iniciativa privada.
A mudança destravou o processo de privatização do restante da via, entre Caeté e Governador Valadares, após três tentativas de leilão fracassadas. O trecho mais próximo da capital, agora, ficou sob responsabilidade da União, que também terá de bancar as indenizações e reassentamentos. Pelo novo acordo, as famílias deverão ser transferidas para o Bairro Capitão Eduardo, em um terreno de 2,2 milhões de metros quadrados, que será incluído no programa Minha Casa, Minha Vida.
Perigos recorrentes
Hoje, cerca de 500 famílias vivem em casas improvisadas erguidas na comunidade Vila da Luz, onde o som dos caminhões se mistura às conversas nas portas e aos gritos das crianças que, muitas vezes, precisam dividir o asfalto com o tráfego pesado. Elizete mora ali há mais de duas décadas, tempo suficiente para ver o lugar crescer, virar “favelão”, como ela mesma diz, e acumular histórias trágicas. “Já vi muita gente morrer atropelada aqui. Foi anteontem mesmo, um lá embaixo e outro cá em cima. Quando o carro para, é porque teve acidente”, relata, sem disfarçar o cansaço.
Ela mesma perdeu um filho e uma nora atropelados na rodovia. Por isso, diz que não se apega à esperança de que, desta vez, a promessa será cumprida. “Disseram que já estavam mexendo com meus papéis. Eu não quero apartamento, não, por causa das escadas, mas quero ir. Tá bom demais sair daqui, bom demais pra ser verdade”, disse, resignada.
Por trás das paredes dos barracos às margens das rodovias, histórias de uma vida de luta por condições melhores de moradia. Quem precisou viver ao lado de vias bem movimentadas conta que espera uma opção melhor e mais segura para morar. Rosilene Rosa, 40 anos, atravessa a pista com o filho Davi, de 7, de mãos dadas, desviando dos carros. Faz isso todos os dias para levá-lo à escola. “A gente tem medo, mas é o único jeito”, diz, ajeitando a mochila do menino antes de esperar um intervalo no fluxo intenso de carros e caminhões.
Ela nasceu e cresceu na comunidade. Saiu, morou de aluguel por alguns anos, mas acabou voltando. “Foi a única casa que eu consegui comprar. Aqui é meu, mas o quintal da gente é a BR”, conta, rindo com resignação. Os filhos, Maria Eduarda, de 10, e Larissa, de 8, estudam em escolas próximas, e Rosilene nunca os deixa atravessar sozinhos. “Eles só vão aonde eu for. Não tem liberdade. Eu tenho medo de deixar eles brincarem. Um passo errado e pronto”, diz.
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Mesmo cercada de riscos, Rosilene fala com um sorriso sobre a mudança que se aproxima. “Se for casa, prédio, tanto faz. O que vale é sair daqui. Quero um lugar com quintal, pros meninos poderem brincar. Aqui o quintal é a estrada.” “Eu moro aqui desde pequena. Já falaram que iam tirar a gente mil vezes, mas agora parece que vai mesmo”, diz, ajeitando a mochila do menino.