Radiografia do crime

Centro-Oeste de Minas e Alto Paranaíba sofrem pressão de facções e drogas

Da Rota Caipira do tráfico no Centro-Oeste mineiro ao avanço de quadrilhas no Alto Paranaíba, o perfil da criminalidade em cidades acima de 50 mil habitantes

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A pressão das estruturas do tráfico e do crime organizado em meio ao corredor de escoamento de entorpecentes para o restante do país a partir do Mato Grosso do Sul e de São Paulo, conhecido como “Rota Caipira”, é um dos fatores que têm feito da Região Centro-Oeste de Minas um alvo para operações de criminosos, manutenção de bases de distribuição, logística e laboratórios. Ao mesmo tempo, grandes centros concentradores de mão de obra e atividades industriais irradiam ações de quadrilhas para cidades menores.


Já no Alto Paranaíba, a conjugação de mão de obra crescente, falta de estruturas urbanas, alta no consumo de drogas e na presença de facções está entre os principais componentes dos crimes violentos, abrindo espaço para o assédio do crime organizado. Essas realidades distintas com impacto na segurança dos cidadãos são reveladas em reportagem do Estado de Minas que estabelece um raio x dos crimes violentos nos grandes centros urbanos das diferentes regiões mineiras.

A origem

Os índices da reportagem foram gerados a partir de levantamento com recortes regionais, feito pela equipe do Estado de Minas com consultoria de analistas de segurança pública. Foram usados dados de 2024 da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) sobre crimes, correlacionados com a demografia dos 72 municípios mineiros com mais de 50 mil habitantes, conforme o censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


Cortadas pela chamada “Rota Caipira”, somatório de corredores viários como a BR-262 que escoam drogas de origem andina e paraguaia para o Brasil, além de assistir ao crescimento desordenado e necessidade de incremento policial, as grandes cidades da Região Centro-Oeste de Minas enfrentam fortes índices de criminalidade. A extorsão e o homicídio despontaram como componentes importantes da violência nesses centros urbanos em 2024, acima da média das 72 cidades com mais de 50 mil habitantes do estado.

A estrutura que serve ao tráfico e suas formas de exercício de poder em áreas pobres e desestruturadas por meio da violência estão entre as explicações para a ampliação da criminalidade, segundo avaliação de especialistas em segurança pública ouvidos pelo EM.


No Centro-Oeste mineiro, as chantagens para benefício financeiro, por exemplo, apresentaram um índice de 7% dentro da criminalidade violenta, contra 3,3% do verificado na média dos maiores centros do estado. Na região, essa modalidade representa destaque negativo para Campo Belo (13,9%) e Lagoa da Prata (13,2%). Os registros de homicídios representam 9%, índice que entre os maiores municípios do estado fica em 6,8%. Bom Despacho registrou 20% nesse indicador e Campo Belo, mais uma vez entre os piores, chegou a 18,6%.


Destaques negativos e dinâmica da violência

A cidade de Bom Despacho, com uma população de 51.737 residentes, se destacou negativamente por apresentar taxa de 17,3 vítimas de homicídio por grupo de 100 mil pessoas. Já Nova Serrana, um forte polo da indústria, especialmente calçadista, com 105.552 habitantes, teve índice de 222,6 crimes violentos por 100 mil. Bom Despacho ocupa a 24ª pior posição no ranking de mortes por assassinato no estado e Nova Serrana, a 8ª posição entre os crimes classificados como violentos. Os demais municípios da região na lista são Itaúna, Campo Belo, Divinópolis, Formiga e Lagoa da Prata.


“A dinâmica da criminalidade do Centro-Oeste de Minas tem mais a ver com o Alto Paranaíba do que propriamente com a Região Metropolitana de Belo Horizonte. O crescimento populacional em áreas desestruturadas e a carência de policiamento têm sido fatores muito presentes em Lagoa da Prata e Campo Belo, por exemplo”, analisa o coronel Carlos Júnior, especialista em inteligência de Estado e segurança pública, que contatou comandantes e chefes das forças de segurança da ativa e inativos dos municípios da região para conhecer melhor a realidade na área.


“Já a crescente disputa do tráfico e de quadrilhas variadas, como de roubos de cargas orbitando Nova Serrana, tem desestabilizado cidades que antes eram controladas, como Bom Despacho, influenciando crimes que não eram próprios de lá, como um alto índice de homicídios, e exigindo assim mais das forças policiais que não tinham esse desafio”, prossegue o especialista.


Avaliando os sete maiores municípios do Centro-Oeste em conjunto, observa-se uma taxa agregada de crimes violentos de 126,2 por grupo de 100 mil pessoas, enquanto a taxa de vítimas de homicídio para o grupo alcança 12 por 100 mil habitantes. Embora altos, os índices são menores do que os registrados na média do estado.


Os bairros onde mais homicídios ocorreram foram o Santanense (Itaúna), com 4,4% dos registros, Industrial José Silva de Almeida (Nova Serrana), com 2,9%, e Jardim América (Campo Belo), com 2,9%. Matou-se mais nas ruas, avenidas e demais vias de acesso públicas (64,6%), no interior das casas (19%) e em penitenciárias (5,1%).


Assassinato a tiros e falta de respostas

As mortes na Região Centro-Oeste foram causadas principalmente por armas de fogo (59,3%). Foi o tipo de crime que vitimou o engenheiro Leandro Pereira, de 31 anos, morto a tiros enquanto trabalhava em uma obra no Centro de Divinópolis, em plena luz do dia, em um ataque que segue sem esclarecimento por parte da polícia. A família acompanha o caso por meio de um advogado, mas as informações seguem sob sigilo e sem avanços, ao menos divulgados publicamente.


Lidiane Pereira, irmã do engenheiro assassinado, destaca que a dor da perda e a ausência de respostas ainda marcam a rotina da família, que segue buscando entender os motivos por trás do crime. Com histórico de vida tranquilo, Leandro não tinha envolvimento com drogas, dívidas ou passagens pela polícia. Era considerado um profissional honesto e dedicado, com boa reputação entre colegas e amigos.


Por isso, os familiares não descartam que ele, umas das vítimas do aumento da criminalidade na região, tenha sido morto por engano. Ainda não há conclusão sobre a motivação do crime, nem identificação do autor. “O fato é que a criminalidade alcançou nossa família naquela manhã. No Centro da cidade. Sem ninguém impedir. E não gastou nem 40 segundos”, relembra Lidiane.


Embora homicídios a tiros, como o que vitimou Leandro, predominem na região, os crimes no período avaliado foram praticados também com armas brancas (24,4%), por enforcamento (4,7%) e por uso de veículo (1,2%). Os assassinatos que tiveram motivação previamente identificada ocorreram depois de brigas e atritos (25%), por motivos passionais (21,9%), por envolvimento com drogas e tráfico (18,8%), relacionados a ações de gangues e facções criminosas (9,4%) ou por vingança (9,4%).


Impunidade e mais insegurança

Vítimas e assassinos não tinham relacionamento em 52% dos crimes apurados, eram amigos ou conhecidos em 28%, cônjuges ou companheiros em 16% e namorados em 4%. “O que assusta é o recrudescimento da violência no interior, em locais de grande desenvolvimento agroindustrial e que eram seguros, como Bom Despacho, ao ponto de terem índices que impactam mais a população do que Itaúna e Nova Serrana, por exemplo. Preocupante saber que mais da metade dos crimes não são solucionados, e em mais de 80% não se sabe relação da vítima com o autor da morte. Idades predominantes são de jovens entre 20 e 24 anos. Periferias isoladas e áreas rurais se transformaram em palcos de crimes, bem como as estradas vicinais”, afirma o coronel Carlos Júnior.


A Sejusp informa que sua metodologia corrente para municípios entre 50 mil e 100 mil habitantes considera a contagem absoluta de ocorrências. Diante disso, na pesquisa do EM, Lagoa da Prata (51 mil habitantes), Bom Despacho (51 mil), Campo Belo (52 mil), Formiga (68 mil) e Itaúna (97 mil) se encontram nessa faixa. Em termos de vítimas de homicídios, Itaúna, com 16 assassinatos, superou Nova Serrana (105 mil habitantes), que registrou 14 mortes. Bom Despacho e Campo Belo têm praticamente metade da população de Nova Serrana, mas com 9 e 8 homicídios respectivamente, apresentam um nível de mortalidade levemente inferior ao da grande cidade industrial.


Os tipos de crimes

Para a Sejusp, a categoria de crimes violentos consiste em extorsão mediante sequestro e nos atos tentados e consumados de estupro, extorsão, homicídio (considerando o evento criminal, não o número de vítimas), roubo, sequestro e cárcere privado. Importante notar, entretanto, que os roubos perfazem 64,1% do total de crimes violentos registrados nos municípios com mais de 50 mil habitantes em Minas, tratando-se da modalidade criminosa que mais influencia a taxa de violência nessas localidades.

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Apesar do grande impacto dos homicídios, o roubo também lidera a lista dos crimes violentos mais numerosos nos sete municípios da Região Centro-Oeste, com 52,5%, abaixo, portanto, da média estadual. É seguido da tentativa de assassinato (13,6%), do estupro de vulnerável (9,9%), do homicídio (7,2%) e do estupro (4,9%). (Colaborou Amanda Quintiliano)

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