Uma peça de argila com apenas alguns centímetros guardou uma cena feita há cerca de 12 mil anos. A figura de argila mostra uma mulher e um ganso em interação e é apontada pelos pesquisadores como a mais antiga estatueta conhecida a representar diretamente uma relação entre humano e animal no Levante.
O que mostra a figura de argila de 12 mil anos?
A peça foi encontrada em Nahal Ein Gev II, assentamento ligado à cultura natufiana no norte de Israel. Com apenas 3,7 centímetros de altura, ela representa uma figura feminina inclinada e um ganso colocado sobre suas costas.
A pesquisa classifica o objeto como a mais antiga estatueta conhecida a mostrar uma interação entre humano e animal. Também seria a representação naturalista feminina mais antiga conhecida no sudoeste da Ásia, dois pontos que tornam a pequena peça importante para estudar a origem de novas formas de arte.

Como os pesquisadores descobriram que a peça foi produzida?
Análises tecnológicas e químicas indicam que a argila era local e foi preparada antes da modelagem. A estatueta secou e depois foi aquecida a pelo menos 400 °C. Resíduos mostram ainda que pigmento mineral vermelho foi aplicado sobre partes da superfície.
O trabalho publicado pela Hebrew University of Jerusalem também registra uma impressão digital preservada. A análise sugere que ela pode ter sido deixada por um adulto jovem de sexo não determinado ou por uma mulher adulta, sem permitir identificar individualmente quem criou a peça.
Por que a mulher e o ganso chamam tanta atenção?
A cena não parece representar uma caçada. O ganso é mostrado vivo e em contato direto com a mulher, levando os autores a propor uma interação imaginada ou mitológica. Essa leitura é compatível com crenças animistas, mas continua sendo uma interpretação arqueológica, não uma legenda deixada pelos próprios criadores.
Os detalhes de volume também importam. Incisões, posição das formas e uso de luz e sombra criam uma cena que muda conforme o ângulo. Marcas de uso indicam que a peça foi manipulada depois de pronta, o que sugere que não ficou apenas parada como decoração.
A seguir listamos quatro detalhes da estatueta que ajudam a entender por que ela é tão incomum:
- Composição: a mulher e o ganso formam uma única cena tridimensional.
- Material: a argila parece ter sido obtida perto do próprio assentamento.
- Aquecimento: a peça chegou a pelo menos 400 °C depois de secar.
- Pigmento: resíduos vermelhos mostram que a superfície recebeu cor após o aquecimento.

Leia também: Pedra de 6 toneladas no centro de Stonehenge veio da Escócia e percorreu pelo menos 700 km há cerca de 5.000 anos
O que a peça revela sobre comunidades antes da agricultura?
Os natufianos já formavam comunidades mais sedentárias antes da agricultura plenamente desenvolvida. Nesse contexto, a estatueta mostra que experimentações simbólicas com argila, narrativa e imagem já existiam no fim do Epipaleolítico, antes de várias mudanças que se tornariam mais comuns no Neolítico.
A peça apareceu no preenchimento de uma estrutura semicircular com sepultamentos e depósitos interpretados como cerimoniais. Esse contexto reforça a possibilidade de um uso especial, mas não permite saber exatamente qual ritual, história ou crença estava ligada à mulher e ao ganso.
A seguir listamos três aspectos do contexto que ligam a pequena peça às mudanças culturais daquele período:
| Aspecto | O que foi encontrado | O que sugere |
|---|---|---|
| Assentamento | Aldeia natufiana tardia | Vida mais sedentária |
| Estrutura | Espaço semicircular com sepultamentos | Contexto possivelmente cerimonial |
| Arte | Modelagem, pigmento e perspectiva | Expressão simbólica complexa |
É correto chamar essa cena de uma das primeiras entre humanos e animais?
A formulação precisa exige um limite. A pesquisa fala da mais antiga estatueta conhecida com interação humano-animal, não da primeira imagem de qualquer tipo. Pinturas e gravuras paleolíticas com figuras humanas e animais já eram conhecidas em outros lugares, principalmente na Europa.
Mesmo com essa diferença, o objeto continua raro: reúne narrativa, modelagem e interação entre espécies em uma peça tridimensional de cerca de 12 mil anos. É essa combinação que faz a figura de argila ampliar o que se sabia sobre expressão simbólica pouco antes da expansão das sociedades neolíticas.
Sua história pode virar reportagem
Conte por texto ou áudio — nomes e endereços viram fictícios antes de qualquer publicação.




