'Não era sensualização, era diversão', diz ex-Menudo sobre grupo
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FOLHAPRESS - O porto-riquenho Johnny Lozada tem 57 anos e é uma pessoa divertida, carismática. Isso ajudou muito em sua carreira de sucesso mundial como cantor, ator de filmes e novelas, apresentador e comentarista de TV.
Curioso é ouvir dele que sua entrada no mundo do entretenimento foi casual, inesperada. Lozada tinha 12 anos quando uma amiga, numa festa, disse ao empresário do grupo Menudo, Edgardo Díaz, que ele cantava bem. E ele ri ao desmentir a garota.
"Ele perguntou se eu sabia cantar. E eu nunca tinha cantado. Acabei entrando no lugar de um dos irmãos Melendez, da formação original. Então, para mim, foi tranquilo. Anos depois, candidatos disputaram 25 audições para tentar ser um Menudo. Era uma grande pressão, nunca passei por isso."
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Essa história e outras passagens cômicas podem ser conferidas em "Não Se Reprima", série documental do Canal Brasil de quatro episódios. Ela revê a febre Menudo no Brasil nos anos 1980, quando o quinteto vocal de Porto Rico fez visitas ao país com índices crescentes de histeria, em shows diante de dezenas de milhares de pré-adolescentes enlouquecidas.
O Menudo, criado em 1977, manteve-se ativo até os anos 1990, com alguns projetos de reencontro até 2009, e teve 36 formações diferentes. Começou como um grupo infantil, e então seu criador descobriu uma fórmula singular: ao completar 16 anos, cada integrante era substituído por um novato. O resultado no palco: cinco garotos em rodízio que cantavam e dançavam coreografias sensuais.
"Não era traumático para quem saía", afirma Lozada, que ficou no Menudo entre 1980 e 1984. "Você vive aquilo por quatro, cinco anos. É uma vida para quem é tão jovem. Era mais complicada para quem ficava. Quando entrava alguém novo, o processo de adaptação às vezes era difícil."
O grupo veio pela primeira vez ao Brasil em 1984, em viagem promocional com aparições em rádio e TV, entre elas a antológica estreia na televisão brasileira, no Programa do Gugu, com eles entrando no palco em bicicletas. Histeria dentro e fora dos estúdios do SBT.
No ano seguinte, a primeira turnê começou em março, e a febre Menudo já estava disseminada. No estádio do Morumbi, em São Paulo, os garotos cantaram e dançaram diante de 150 mil fãs. No total, foram 2 milhões de espectadores nos estádios.
A série, dirigida por Rafael Terpins, tem uma coleta de depoimentos extensa. Entre os entrevistados, historiadoras como Mary Del Piore e Joana Salem Vasconcelos ajudam a inserir o furacão Menudo no momento político do país.
Os garotos chegam ao Brasil quando José Sarney assumiu a presidência, no fim da ditadura. A psicóloga Marina Bronstein fala sobre a sensualização do fenômeno, numa época em que as mulheres ganhavam espaço na sociedade, incluindo as mais jovens.
Menudo
Por ser o Menudo um fenômeno para meninas, flagradas em desmaios e reações histéricas, é curioso ver na plateia de 1985 um grupo de meninos. Um deles diz: "Menudo não é sobre sexo, é sobre juventude". E eles gritam "não se reprima!", título da canção mais popular no Brasil, cuja letra se encaixa nesse debate sobre sensualização.
Lozada diz que os integrantes estavam afastados dessa questão. "Muita gente pensa que, pela fama do Menudo, havia ali sexo, drogas e rock'n'roll. Veja, éramos meninos. Meninos!", afirma, acrescentando que às vezes sua mãe viajava nas turnês. "As roupas eram apertadas, e os movimentos podiam ser insinuantes. Mas, para nós, era diversão, nada de sensualização."
Talvez as imagens que melhor traduzam o fenômeno estejam nas falas de três mulheres integrantes do fã-clube MenudoBR, criado nos anos 1980. Elas exibem coleções guardadas até hoje que reúnem discos, fotos, reportagens e incontáveis produtos que a menudomania comercializou no Brasil, de álbuns de figurinhas às roupas, e até sabonetes e brinquedos.
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O Menudo seria o precursor da onda de boy bands no k-pop? "Bem, antes de nós já existia o The Jackson 5. Foi uma influência, claro", diz Lozada. "Mas, quando vejo o BTS cantando e dançando, vejo Michael Jackson ali. Por isso, gosto de pensar que existiu todo um processo e que eu fiz parte dele."