CINEMA

Academia do Oscar faz convite a venezuelana radicada em BH

Convidada a se tornar membro da instituição, a diretora de fotografia Wilssa Esser diz achar importante ampliar os espaços de representação do cinema brasileiro

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Recentemente, a diretora de fotografia venezuelana radicada no Brasil Wilssa Esser recebeu o convite para integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, instituição responsável pelo Oscar. É um marco na trajetória de uma artista que precisou atravessar fronteiras geográficas, culturais e profissionais até encontrar no cinema brasileiro o território onde consolidaria sua carreira.

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Nascida na Venezuela, Wilssa se formou na Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de los Baños, em Cuba, instituição historicamente ligada à formação de cineastas de diferentes países da América Latina. Em contato com estudantes e cineastas de várias partes do mundo, passou a ter mais contato com a cinematografia brasileira e começou a desenhar o percurso que a traria ao país.


Conheceu e se encantou por “O som ao redor” (2013), de Kleber Mendonça Filho; “A febre do rato” (2012), de Cláudio Assis; e “Viajo porque preciso, volto porque te amo” (2010), de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. Além, claro, dos seminais “Cabra marcado para morrer” (1984), “Jogo de cena” (2007) e “Edifício Master” (2002), de Eduardo Coutinho (1933-2014).


“Era um cinema que me chamava muito a atenção pela inovação de linguagem, pelos temas que abordava e pela forma como esses temas eram tratados”, comenta Wilssa.


No entanto, ao concluir a formação, em 2013, encontrou uma Venezuela em deterioração política e econômica, e em crise no setor audiovisual. O país já não contava mais com o Centro Autónomo de Cinematografía, instituição similar à Ancine, que dispunha de políticas para cineastas poderem realizar seus filmes.


Coproduções

O órgão ainda existe, mas está praticamente paralisado. “São pouquíssimas as produções venezuelanas que você vê no panorama internacional”, diz Wilssa. “Nossa produção nacional parou porque não existe uma política local que apoie o cinema, crie fundos e editais para que os cineastas consigam tirar seus projetos do papel. Muitos realizadores estão recorrendo às coproduções, que servem como apoio, e não solução”, afirma.


Nesse contexto, ela se viu obrigada a migrar. Entre México e Brasil, dois países que via como polos importantes da produção cinematográfica latino-americana, acabou escolhendo o segundo.


Se o Brasil surgiu primeiro como desejo, Belo Horizonte entraria em sua trajetória pouco depois, e de forma decisiva. Foi em 2017, a convite de André Novais de Oliveira, da Filmes de Plástico, que Wilssa chegou à capital mineira para assumir a direção de fotografia de “Temporada”, longa do mineiro lançado no ano seguinte. Até então, acumulava experiência em curtas-metragens, mas ainda não havia assinado a fotografia de um longa.


O filme foi um divisor de águas. Por “Temporada”, Wilssa recebeu o prêmio de melhor direção de fotografia no Festival de Brasília, reconhecimento que ajudou a projetá-la nacionalmente e abriu caminho para novos convites. “A partir daí comecei a receber mais trabalhos e consegui seguir construindo essa carreira”, conta.


“Temporada” também marcou o início de relações criativas duradouras. Nas filmagens, conheceu Grace Passô, protagonista do filme. A parceria evoluiu nos anos seguintes e resultou em novos trabalhos, entre eles o curta “República” (2020) e “Nosso segredo”, primeiro longa dirigido por Grace, exibido este ano na mostra Perspectivas do Festival de Berlim e que terá sua estreia nacional no Festival de Gramado.


Trabalho coletivo

Embora tenha ganhado reconhecimento pelo trabalho, Wilssa evita tratar a direção de fotografia como espaço de afirmação individual. Prefere pensar a imagem como construção coletiva, moldada pelas necessidades de cada obra e do diretor-geral de cada projeto. É como se a fotografia fosse resultado do encontro entre diferentes áreas de criação, passando pela direção, direção de arte, figurino, maquiagem, cabelo e até pelo desenho de som.


“É um trabalho feito por muitas mãos”, ela diz. “Até o som faz parte da imagem. Dependendo do som, um plano pode adquirir outro significado.”


Ainda assim, Wilssa reconhece ter maior afinidade com histórias ligadas às periferias, às margens e ao público LGBTQIA+. Não por acaso, essa afinidade ajuda a explicar sua presença em filmes como “Levante” (2024), de Lillah Halla, sobre a falta do direito ao aborto no Brasil e as implicações disso em famílias vulneráveis.

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Hoje morando em Belo Horizonte, Wilssa vê o convite da Academia de Hollywood também como oportunidade de ampliar a presença do cinema brasileiro em espaços de decisão internacional. Há ainda outro desejo: filmar na Venezuela. “Eu adoraria. Nunca tive essa oportunidade, mas, se me convidarem, vou adorar.”

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