Nicolas Cage vive Homem-Aranha em crise existencial na série 'Spider-Noir'
Artista encarna personagem desiludido com a vida de herói. Aposta do Prime Video usa cinema clássico como inspiração
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CIDADE DO MÉXICO, EUA (FOLHAPRESS) - Nova York está imersa no caos. A metrópole é dominada por uma máfia que impõe uma rotina de medo à população. Enquanto a influência desse grupo cresce, a credibilidade do poder público desaba. A corrupção, afinal, é uma realidade nos mais altos escalões da prefeitura. Para piorar, a única pessoa que poderia tirar a cidade desse cenário desapareceu após uma crise existencial.
Em "Spider-Noir", o Homem-Aranha vivido por Nicolas Cage abandonou seu alter-ego para levar uma vida discreta como o melancólico detetive Ben Reilly. A produção que estreia nesta quarta-feira (27/5) no Prime Video é o retrato de um herói que não quer grandes poderes nem grandes responsabilidades.
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A renúncia ao heroísmo é uma postura diferente daquela adotada pelas versões mais conhecidas do personagem. No filme de 2002, estrelado por Tobey Maguire, o jovem Peter Parker recebe de bom grado os poderes adquiridos após ser picado por uma aranha.
Já os Homens-Aranha vividos por Andrew Garfield e Tom Holland nos filmes subsequentes da franquia pareciam mais preocupados em salvar o dia do que em decidir se deveriam ou não usar a máscara de herói.
Dessa vez, porém, as coisas são diferentes. Já no primeiro episódio, vemos um Homem-Aranha atormentado não por inimigos poderosos, mas por traumas do passado.
A mulher do personagem morreu de forma trágica após ele não conseguir salvá-la de um acidente. Inconformado com a morte, o detetive coloca o uniforme em uma caixa de madeira, esconde o objeto atrás de uma parede e se aposenta da vida de herói.
"Ele é um cara que teve algo imposto, ou seja, não pediu por esses poderes", diz Oren Uziel, um dos criadores de "Spider-Noir", em entrevista com jornalistas ao lado do elenco da série. Na ocasião, Cage não estava presente em razão de conflitos de agenda. "Com essa obra, queremos pensar em como a imposição muda a vida de uma pessoa. Por isso, desde o começo, o personagem se mostra reticente."
A relutância a que Uziel se refere não é a única diferença em relação às versões anteriores do Homem-Aranha. A série se passa nos anos 1930, período em que os Estados Unidos estavam mergulhados em uma crise econômica gerada pela quebra da bolsa de valores, em 1929. Os cenários, portanto, evocam uma atmosfera soturna, elemento que contrasta com o tom efusivo e juvenil das adaptações cinematográficas.
Apesar de retratar uma Nova York decadente, a série tem o glamour e a sofisticação do cinema noir. Popular entre os anos 1940 e 1950, esse gênero apostava em produções cheias de contraste entre luz e sombra para contar histórias de suspense com personagens moralmente ambíguos. Fazem parte do movimento longas clássicos como "À Meia Luz", de 1944, "Crepúsculo dos Deuses", de 1950, e "No Silêncio da Noite", também de 1950.
O flerte com essa linguagem é parte essencial dos quadrinhos que inspiraram a produção. Lançado em 2009 pela Marvel, esse trabalho ganhou visibilidade mundial em 2018. À época, Cage deu voz à versão alternativa do herói no filme "Homem-Aranha no Aranhaverso". A participação do detetive, porém, era restrita a poucas cenas.
Foram necessários oito anos para ele ganhar protagonismo. "É um mundo em que não vimos o Homem-Aranha ainda", diz Uziel, acrescentando que a estética noir dos quadrinhos aumentou o desejo de adaptar a história. "Sempre fui um grande amante do noir. Por isso, precisava agarrar a oportunidade de levar para a tela um gênero e um personagem que eu amo tanto."
O fascínio por esse gênero fez com que o roteirista filmasse a série em preto e branco, estética característica do cinema noir. O Prime Video também disponibilizou versões coloridas para quem prefere uma atmosfera mais contemporânea. "Com isso, tivemos a chance de dar aos fãs de cada gênero um gostinho de algo que eles não tinham visto antes."
O noir não inspirou apenas os elementos visuais da série, mas norteou também a construção dos personagens. É o caso, por exemplo, de Cat Hardy, vivida pela atriz Li Jun Li. Sedutora e glamurosa, ela personifica a "femme fatale" ' arquétipo que a lendária Rita Hayworth encarnou em filmes como "Gilda", de 1946, e "A Dama de Shanghai", de 1947.
"Meu desafio ao viver essa personagem foi garantir que o público não me odiasse", afirma Jun Li, arrancando risadas dos colegas de elenco. "Por isso, eu quis humanizar a Cat o máximo possível e fazer justiça a um roteiro que já era excepcional."
A personagem tem como guarda-costas o misterioso Flint Marko, papel de Jack Huston. Após o escudeiro desaparecer, ela recorre aos serviços do detetive Ben Reilly para encontrá-lo.
É justamente esse trabalho que faz o investigador vestir de novo a máscara de super-herói para entrar no submundo de Nova York, um lugar dominado por um mafioso chamado Cabelo de Prata, interpretado por Brendan Gleeson.
Para realizar essa missão, o detetive tem como aliada a divertida Janet, sua secretária de longa data. O vínculo dos dois, porém, extrapola a esfera profissional.
"Busquei fazer com que essa relação parecesse ter química para que o público acreditasse que eles se conhecem há dez anos", diz Karen Rodriguez, a intérprete da personagem.
A atriz diz que atuar ao lado de Cage foi um desafio adicional em razão do nervosismo que sentia. O artista, afinal, é um dos rostos mais conhecidos de Hollywood, o que pode intimidar muita gente. Após as primeiras gravações, no entanto, o nervosismo deu lugar à admiração. "O nível de expertise dele enriqueceu muito o meu trabalho."
Outro parceiro importante do detetive é Robbie Robertson, um jornalista vivido por Lamorne Morris. Habituado a participar de tramas contemporâneas, o ator precisou de tempo para refletir sobre como construir um personagem dos anos 1930.
"Levou algumas cenas para encontrar a força vocal do meu personagem e entender como ele se expressa, porque as gírias eram diferentes. Além disso, eu improviso muito, então tinha coisas que eu não podia falar", diz o artista - laureado no Emmy como melhor ator coadjuvante pela série "Fargo".
Enquanto a maior parte dos personagens de "Spider-Noir" guarda segredos, o repórter vivido por Morris quer revelar o que está escondido. Por isso, ele empreende uma espécie de cruzada contra a mentira e a corrupção, problemas que o ator considera bem contemporâneos.
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"São questões atemporais das quais nunca vamos escapar. Mas, tanto no passado quanto no presente, precisamos de pessoas que possam ser firmes em suas convicções para procurar a verdade."