O Brasil visto de Nova York
O país continua sendo uma promessa relevante no cenário global, desde que consiga transformar potencial em previsibilidade
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ANDRÉ LEMOS BATISTA - Advogado
Há uma diferença evidente entre a maneira como o Brasil é enxergado dentro e fora do país. Em São Paulo, o debate costuma ser dominado pelo pessimismo e pelo foco permanente nas crises. Em Nova York, durante a recente Brazilian Week, a percepção muda. Não porque os problemas desapareçam, mas porque o Brasil passa a ser analisado sob outra lente: a de um ativo estratégico ainda subvalorizado.
Passei os últimos dias em Manhattan participando de encontros promovidos pela Apex Partners, BTG Pactual, G4, XP e FGA, além de agendas reservadas com lideranças políticas e empresariais. Em praticamente todos os ambientes, uma mesma ideia aparecia: o mundo voltou a olhar para o Brasil com interesse real.
O mais interessante é que esse otimismo não vinha de discursos protocolares, mas de análises objetivas. Martin Escobari, da General Atlantic, destacou como o Brasil continua sendo um dos poucos mercados capazes de oferecer empresas de qualidade negociadas a múltiplos ainda baixos. André Esteves, do BTG Pactual, apontou que o país começa a se beneficiar do novo reposicionamento global de capital, em um cenário internacional cada vez mais instável.
Não havia euforia. Havia pragmatismo. O entendimento predominante era de que juros elevados, câmbio depreciado e um mercado consumidor gigantesco criam uma combinação rara no mundo atual. Ao mesmo tempo, nomes como Mansueto Almeida lembraram que essa oportunidade depende diretamente da capacidade do país de enfrentar seu desequilíbrio fiscal.
A política apareceu como tema central em quase todas as conversas. Mike Pompeo, ex-secretário de Estado norte-americano, trouxe uma visão geopolítica relevante ao conectar o Brasil ao reposicionamento dos Estados Unidos diante da China e à reorganização das cadeias produtivas globais. É uma perspectiva rara no debate interno brasileiro, ainda excessivamente concentrado nos próprios conflitos domésticos.
No encontro com Romeu Zema (Novo) e Eduardo Leite (PSD) ficou evidente outra percepção compartilhada por empresários e investidores: 2026 será uma eleição decisiva não apenas pelos nomes envolvidos, mas pela capacidade do país de preservar uma agenda mínima de responsabilidade fiscal, segurança jurídica e reformas estruturais. A sensação dominante era de que o setor produtivo precisa voltar a se organizar em torno de pautas concretas, e não apenas da lógica permanente da polarização política.
A inteligência artificial também dominou os debates. Mas a discussão já não gira em torno da novidade tecnológica. Os empreendedores Talis Gomes, Alfredo Soares e Bruno Nardon apresentaram a IA como infraestrutura econômica e ferramenta direta de produtividade. O ponto central deixou de ser “se” a tecnologia mudará os negócios e passou a ser “quando” cada setor será obrigado a se reinventar.
Em várias conversas, executivos de empresas como o Wellhub discutiam como a IA já opera silenciosamente na experiência do usuário. E a pergunta que surgiu repetidamente foi simples: o Brasil conseguirá participar dessa transformação como produtor de tecnologia ou permanecerá apenas como consumidor?
Voltei de Nova York com uma sensação ambígua. Há, sem dúvida, um interesse legítimo pelo Brasil que não era percebido com tanta intensidade há alguns anos. Mas também existe a consciência de que oportunidades têm prazo de validade. Como empresário do setor jurídico empresarial e tributário, ouvi diversas preocupações relacionadas à reforma tributária brasileira. A reforma é vista como avanço, mas também como fonte potencial de insegurança, dependendo da forma como sua transição será conduzida.
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No fim, a impressão que ficou é clara: o Brasil ainda desperta interesse, mas não por inércia. O país continua sendo uma promessa relevante no cenário global, desde que consiga transformar potencial em previsibilidade.