LUTO NA TV E NO TEATRO

Morre o ator Juca de Oliveira, aos 91 anos

Juca celebrou seu aniversário na segunda-feira (16/3) e estava em estado delicado de saúde, causado por uma pneumonia e por uma condição cardiologica

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Morreu, na madrugada deste sábado (21), Juca de Oliveira, ator, diretor, escritor e dramaturgo que brilhou nas artes cênicas brasileiras pelo seu rigor dramático ímpar, aos 91 anos. Sua carreira de sete décadas se estendeu dos palcos do Teatro Brasileiro de Comédia e do Teatro de Arena, de forte viés político na década de 1960, às dezenas de seriados e novelas na TV, como em "Nino, o Italianinho", "Saramandaia" e "O Clone". 

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O ator tinha feito aniversário na última segunda-feira (16), e estava internado numa UTI do Hospital Sírio-Libanês desde a sexta (13), tratando uma pneumonia e um problema cardíaco. 

Ele deixa a mulher, a musicista Maria Luiza de Faro Santos, a filha do casal, Isabella Faro de Oliveira. 

Juca de Oliveira nasceu em 16 de março de 1935, na cidade de São Roque, a 70 km da capital paulista. Batizado José de Oliveira Santos, o roquense deixou a pequena cidade, para orgulho do pai, Antonio de Oliveira Santos, e da mãe, Josefina, para cursar a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no Largo São Francisco, no centro de São Paulo. 

Contudo, logo se sentiu deslocado no tombado edifício das Arcadas. Seguiu estudando até o terceiro ano do curso, equilibrando o trabalho numa banco. Mas após fazer um teste vocacional, buscou dar vazão à sua inclinação para a dramaturgia. 

Abandonou o direito em 1958, aos 22, e migrou para a Escola de Arte Dramática de São Paulo, a EAD. Lá, conheceria alguns grandes parceiros de geração, entre eles, Glória Menezes e Aracy Balabanian. Como parte de um grupo amador, encenou "Frei Luis de Sousa", do português Almeida Garrett, em 1960 --não fez sucesso, mas chamou a atenção do diretor Flávio Rangel. 

Rangel o convidou para ingressar no TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia, onde, sob direção dele --outro dissidente do direito na USP--, estrelou a peça "A Semente", de 1961, de Gianfrancesco Guarnieri. 

O espetáculo retratava o cotidiano de operários de uma fábrica de São Paulo, e Juca de Oliveira viveu Cipriano, um dos personagens militantes, ao lado de nomes como Cleyde Yáconis, Stênio Garcia, Nathália Timberg, Flávio Migliaccio e Leonardo Vilar. Este último já era elogiado à época pelo trabalho em "Pedreira das Almas", de Jorge Andrade, que foi uma espécie de inspiração para "A Semente".

 Por seu teor, a peça foi vetada dias antes da estreia, em abril daquele ano, pela Secretaria de Segurança Pública do Estado. Os censores acusavam o espetáculo de ter a "intenção de demolir o regime democrático brasileiro". A montagem foi liberada pouco depois, por insistência do diretor e do dramaturgo, mas apenas para aquela temporada. 

Ainda em 1961, o ator recebeu o afamado prêmio Saci, como melhor ator coadjuvante, por sua interpretação de Happy Lomman, filho do personagem principal de "A Morte de um Caixeiro-Viajante", de Arthur Miller, na montagem do TBC, também sob direção de Rangel. Nessa primeira versão brasileira da peça, também atuavam Dionísio Azevedo, Yáconis e Villar. 

Juca de Oliveira participou, no TBC, da primeira montagem da obra-prima "O Pagador de Promessas", de Dias Gomes, antes de se juntar ao Teatro de Arena, no centro de São Paulo, e trabalhar em outros marcos nacionais --como "Eles Não Usam Black-Tie" e "O Filho do Cão", ambas de Guarnieri--, e com colegas como o diretor Augusto Boal, Flávio Império e Paulo José. Com o grupo, comprou o espaço de seu idealizador, o também diretor José Renato. 

Destacou-se, então, em montagens como "A Mandrágora", de Maquiavel, e da clássica comédia "O Melhor Juiz, o Rei", do espanhol Lope de Vega, ambas em 1963. 

O Arena virou referência militância política e nos protestos contra a censura, com artistas perseguidos pela ditadura. Juca era da esquerda comunista e, por ocasião do golpe militar, em 1964, decidiu se autoexilar na Bolívia com Guarnieri. Mas ficaram pouco tempo por lá, já que o colega decidiu voltar após a prisão do pai. 

Em várias entrevistas, Juca disse que era stalinista, se manifestava contra o regime militar e foi preso inúmeras vezes. Mas, como outros de sua geração, afastou-se do culto ao ditador russo após virem à tona os sangrentos segredos da União Soviética de então. 

O fato é que, na mesma época em que voltava da Bolívia, acabou começando seu trabalho nas telinhas, assinando com a TV Tupi. Começou, em 1964, como o personagem Jorge, em "Gutierritos, o Drama dos Humildes" e, no mesmo ano, na novela "Quando o Amor É Mais Forte". 

Seguiram-se diversas produções, como "A Outra" e "Estrelas no Chão", mas seu primeiro grande sucesso na TV foi com o personagem-título de "Nino, o Italianinho", exibida entre 1969 e 1970, de Geraldo Vietri e Walther Negrão. 

Na trama, ele vivia um imigrante italiano simples e de bom coração, dono de uma mercearia no Bexiga, em São Paulo, e que tenta conquistar sua vizinha, Natália --papel de Bibi Vogel--, sem notar que é outra mulher, Bianca --Aracy Balabanian-- quem se derrete por ele. 

Sem nunca deixar o trabalho nos palcos, seguiu a carreira televisiva em obras dos maiores nomes da época, como Janete Clair, Walter George Durst e Lauro César Muniz, além de ter dirigido algumas atrações, como a novela "Irmãos Corsos". 

Sempre que podia, Juca ressaltava a importância exercida pelo diretor e amigo Antunes Filho em sua carreira, em grande parte construída por suas brilhantes atuações em peças como "Júlio César", a partir do texto de Shakespeare, e "A Cozinha", do dramaturgo britânico Arnold Wesker. 

Em 1968, Juca de Oliveira assumiu também a presidência do Sindicato dos Atores de São Paulo, conseguindo vitórias importantes para a categoria. Entre elas, a regulamentação do ator, a quantidade máxima de tempo de gravação e uma lei, redigida por ele, estabelecendo que o texto teria que ser liberado para memorização, no mínimo, 72 horas antes da gravação. 

Nessa ocasião, o ator roquense atinge o ápice de sua carreira nos palcos como o protagonista de "Um Edifício Chamado 200", em 1972, de José Renato, Paulo Pontes e Milton Moraes, peça pela qual foi agraciado com o prêmio Molière de melhor ator. 

Sua atuação no monólogo "Corpo a Corpo", de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, dirigido por Antunes Filho, também ajudou a elevá-lo a uma posição de destaque nos palcos --ele foi novamente dirigido por Antunes Filho, em "Ricardo 3º", de Shakespeare, em 1975. 

Em paralelo, depois da Tupi, começou a trabalhar na Globo em 1973, onde faria seus trabalhos mais conhecidos do grande público. O começo foi em "O Semideus", daquele ano, mas ele gostava de destacar o papel de João Gibão, na trama de realismo mágico de "Saramandaia", de 1976, com texto de Dias Gomes e direção de Walter Avancini. 

Na mesma época, começou a se consagrar também como escritor de seus próprios papéis. Iniciou a dobradinha em 1979, com a peça "Baixa Sociedade", que também estrelou. 

Essa comédia de costumes sobre alpinismo social foi reencenada no começo do ano e está em cartaz, até abril, no Teatro Renaissance, em São Paulo, com Luiz Fernando Guimarães e direção de Pedro Neschling. "O mundo mudou muito em 50 anos, mas a essência do homem continua a mesma, logo os tropeços são os mesmos", disse Juca à Folha, em janeiro, por ocasião da nova montagem. 

Em 1982, estreou de sua lavra "Motel Paradiso", e, em 1987, a consagrada "Meno Male", que lhe rendeu o prêmio Governador do Estado de melhor autor. Depois, vieram "Qualquer Gato Vira-Lata Tem uma Vida Sexual Mais Saudável que a Nossa", de 1990; "As Atrizes", de 1991; e "Caixa 2", de 1997, montagem de grande sucesso que ficou seis anos em cartaz, sob a direção de Fauzi Arap, e adaptada para o cinema em 2007, com direção de Bruno Barreto.

 Não faltaram também alguns trabalhos no cinema, com destaque maior para "O Caso dos Irmãos Naves", de 1967. Sob a direção de Luiz Sergio Person, dividiu com Raul Cortez o protagonismo da trama: dois homens são acusados injustamente de assassinato, sofrem torturas para confessar o crime e enfrentam um terrível julgamento. 

Na TV, passaria ainda por outras emissoras, como a Bandeirantes --onde fez "Ninho da Serpente", de Jorge Andrade, e "A Idade da Loba", de Alcione Araújo--, o SBT --estrelando "As Pupilas do Senhor Reitor", de Lauro César Muniz, e "Os Ossos do Barão", também de Andrade--, e Record, com "Vidas Cruzadas", de 2000. 

Voltaria para a Globo em 1993, como professor Praxedes de "Fera Ferida", de Aguinaldo Silva, e enfim, ficaria marcado como o engenheiro genético dr. Augusto Albieri, em "O Clone" --um sujeito que, arrasado pela morte do afilhado, decide clonar o irmão gêmeo do rapaz, na novela de Glória Perez, de 2001. 

Em 2012, interpretou o cruel vilão Santiago Moreira, pai e mentor da vilã Carminha, papel de Adriana Esteves, na novela "Avenida Brasil", de João Emanuel Carneiro. Em "Flor do Caribe", de 2013, novela de Walther Negrão, o ator atuou na pele do personagem judeu Samuel Schneider, que viveu na Europa na época do nazismo e que vivia traumatizado e atormentado pelo passado. Em 2017, atuou em "O Outro Lado do Paraíso" como o empresário e vilão Natanael Mello. 

Participou também das minisséries como "Mad Maria", de 2005, como Stephan Collier; "Amazônia, de Galvez a Chico Mendes", de 2007, como José de Carvalho; e "Os Experientes", de 2015, como Napoleão Roberto. 

Nas mais de 60 peças encenadas por Juca de Oliveira, destacam-se ainda "De Braços Abertos", de 1984, texto de Maria Adelaide Amaral, direção do José Possi Neto, na qual o ator contracenou com Irene Ravache durante quatro anos, sucesso de púbico e crítica. 

Em 1991, a comédia "Procura-se um Tenor", do americano Ken Ludwig, com direção de Bibi Ferreira, outro um grande sucesso. No drama "A Quarta Estação", de 1995, de Israel Horovitz, Juca de Oliveira dividiu o palco com Denise Fraga, sob direção de Fauzi Arap, em mais um resultado arrebatador.

 Há quatro anos, ainda voltou aos palcos com uma remontagem de "A Flor do Meu Bem-Querer", originalmente de 2003 --peça na qual fazia uma alusão ao suposto filho fora do casamento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A crítica política, aliás, nunca saiu de seus textos, como deixou claro "Mãos Limpas" de 2019. 

Nele, Juca vivia um ex-advogado que virou traficante desiludido com a Justiça brasileira. O ator Fúlvio Stefanini era um senador "da esquerda" envolvido com propinas e que aspirava à presidência. No desenrolar do texto, são citados no palco nomes como os dos ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff e outros. 

Sérgio Moro também era lembrado várias vezes de forma positiva, quando o personagem de Juca ameaçava revelar os esquemas de corrupção do senador interpretado por Fúlvio. 

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Juca seguia vivendo também do trabalho numa fazenda de gado para corte em Itapira, no interior paulista.

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