Obra de Marcos Pimentel apreende o tempo e o silêncio
Retrospectiva do diretor no VAC destaca cinema baseado na escuta e na duração, em que o gesto mínimo e o espaço filmado ganham densidade poética e política
compartilhe
SIGA
Sávio Leite
Especial para o EM*
A mostra “Perspectiva Marcos Pimentel”, no 16º Verão Arte Contemporânea, reúne 22 filmes — entre curtas e longas-metragens — de um dos cineastas mineiros mais singulares em atividade no cinema brasileiro contemporâneo.
Com produção contínua desde 1998, Marcos Pimentel construiu uma obra marcada pela atenção ao tempo, ao silêncio e às relações entre corpo, espaço e memória. A perspectiva dedicada permite acompanhar a coerência e, ao mesmo tempo, a constante reinvenção de seu percurso, revelando um cinema que se desenvolve de forma paciente, à margem das urgências do mercado, mas profundamente atento às transformações do mundo.
Leia Mais
Presença constante na Mostra de Cinema do VAC, Marcos Pimentel agora tem sua trajetória revisitada de forma ampliada, em um gesto de reconhecimento e aprofundamento crítico. A seleção evidencia diferentes momentos de sua filmografia, atravessando o documentário observacional, incursões pela ficção e experiências formais que tensionam os limites entre os gêneros. Mais do que uma retrospectiva cronológica, a mostra propõe um mapeamento sensível de temas recorrentes– o território, a vida cotidiana, as comunidades invisibilizadas e os vestígios do tempo – que atravessam toda a sua obra.
Ao colocar em diálogo filmes realizados ao longo de mais de duas décadas, a mostra convida o público a perceber a força de um cinema baseado na escuta e na duração, em que o gesto mínimo e o espaço filmado ganham densidade poética e política. A mostra reafirma a importância de Marcos Pimentel no panorama do cinema brasileiro contemporâneo, destacando uma filmografia que resiste às formas espetaculares e aposta na construção de imagens como experiência de presença, reflexão e memória.
Marcos Pimentel constrói uma filmografia marcada por uma sensibilidade documental que percorre memória, tempo, paisagem e as formas de resistência nas periferias e no interior do Brasil. Seus curtas e longas alternam olhares íntimos sobre comunidades, rituais e indivíduos isolados com investigações mais amplas sobre identidade e pertencimento.
Em seu curta-metragem inicial, “Nada com ninguém” (2003), o diretor trabalha a rarefação de gestos, de palavras e de acontecimentos. O tempo se estende em planos que recusam a progressão narrativa e instauram uma experiência de espera. O silêncio não é ausência, mas espessura — uma matéria sensível que reorganiza a percepção e desloca o espectador para um regime de atenção quase contemplativo, que será o cerne da produção que se seguirá.
“Cemitério da memória” (2003) opera um gesto decisivo ao reorganizar imagens caseiras não apenas como documentos afetivos, mas como matéria histórica e poética. Ao deslocar o arquivo doméstico de seu lugar privado, o filme o transforma em um campo de reflexão sobre o século 20, propondo uma verdadeira arqueologia do cotidiano. Esse gesto ganha densidade com a narração de Affonso Romano Sant’Anna, cuja presença vocal introduz a poesia Carta aos Mortos como um eixo de escuta e reflexão.
Em “Ilha” (2004), a água assume um papel central como elemento simbólico e estrutural. A ilha não é apenas espaço geográfico, mas figura de isolamento e suspensão temporal. A água funciona como limite e como espelho, instaurando uma temporalidade circular, sem começo ou fim definidos.
Em “Biografia do tempo” (2004), o cinema se aproxima de uma escrita arqueológica. O tempo deixa de ser apenas duração sensível para se tornar objeto de investigação explícita. O filme articula imagens e sons como vestígios, fragmentos de uma história que não se organiza linearmente, mas por acumulação e desgaste. Trata-se de uma reflexão sobre a memória, construída pelo encontro das obras do escritor brasileiro Pedro Nava, pelo texto, e do cineasta cubano Santiago Álvarez, pelas imagens.
“O chão e o céu” (2004) investiga a relação íntima entre o homem, a paisagem e o tempo a partir de um olhar atento ao espaço rural e às marcas do trabalho cotidiano. A encenação econômica e o ritmo contemplativo reforçam uma ética do olhar baseada na escuta e na duração, características centrais da obra de Marcos Pimentel.
“Ruminantes” (2005) observa o espaço rural e a presença animal como chaves para pensar novamente o tempo, o silêncio e a repetição como formas de experiência. O enquadramento rigoroso e a economia narrativa deslocam o olhar do humano para o animal, sem hierarquias, criando uma reflexão sobre coexistência, território e permanência.
“O maior espetáculo da Terra” (2005) volta-se para o universo do circo itinerante como espaço de resistência simbólica e de invenção coletiva. A câmera se mantém próxima, mas nunca invasiva, construindo uma relação de intimidade com os personagens e com a materialidade do ambiente circense. O filme transforma o que poderia ser visto como efêmero em permanência sensível, elaborando uma reflexão sobre pertencimento, tradição e sobrevivência cultural, em sintonia com o interesse do cineasta por comunidades e práticas que reinventam o cotidiano como forma de resistência.
“A arquitetura do corpo” (2008) desloca o olhar do corpo como mera presença biológica para pensá-lo como construção simbólica, moldada pelo tempo, pelo trabalho e pelas experiências inscritas na matéria viva. Gestos, posturas, dores, sonhos e movimentos de bailarinos são observados com rigor e delicadeza, revelando uma corporeidade que carrega memórias individuais e coletivas, em diálogo contínuo com o espaço que a circunda.
Em “Pólis” (2009), Marcos Pimentel abandona o espaço rural e as comunidades circunscritas para se concentrar na cidade como matéria viva e instável, submetida a processos contínuos de construção e demolição. O horror e o sublime do urbano em constante transformação convivem em uma era em que não há nada acabado.
Em “Taba” (2010), o diretor constrói um retrato urbano que se afasta da crônica sociológica direta para se aproximar de uma experiência sensorial e simbólica do território. A câmera desliza por escombros, ruínas e interstícios da cidade contemporânea, acompanhando corpos que improvisam estratégias mínimas de sobrevivência em um espaço fraturado.
Esses “novos guerreiros urbanos” não formam um coletivo homogêneo, mas uma constelação de presenças — diferentes tribos que coexistem em tensão, submetidas a um ambiente instável e desigual. O documentário revela, assim, uma cidade marcada por contrastes radicais, onde a precariedade convive com gestos de resistência e invenção cotidiana, expondo as contradições profundas que estruturam a vida urbana.
Em “A poeira e o vento” (2011), Marcos Pimentel radicaliza a atenção aos elementos mínimos e às forças invisíveis que moldam o espaço, fazendo da poeira e do vento não apenas motivos visuais, mas agentes narrativos. Assim, o humano é relativizado, inserido em uma escala maior, em que tudo está submetido ao desgaste lento e irreversível.
Em “Século” (2011), Marcos Pimentel constrói uma reflexão sobre o tempo histórico a partir de fragmentos e resíduos do mundo moderno, tensionando a ideia de progresso e continuidade. O filme opera por acúmulo e justaposição de imagens que evocam marcas do século 20 – suas promessas, violências e ruínas – sem recorrer a uma narrativa linear ou explicativa. O tempo, aqui, não é cronológico, mas estratificado: passado e presente coexistem na imagem como camadas que se sobrepõem, revelando um século vivido mais como experiência sensível do que como relato fechado.
Mais do que narrar uma história, “Sanã” (2013), filmado no interior do estado do Maranhão, constrói uma experiência sensorial que se aproxima de um rito de passagem, no qual o tempo se organiza por repetições, esperas e transformações sutis. As ações filmadas ganham um caráter performativo, como se cada gesto fosse parte de um ritual silencioso que conecta passado, presente e permanência. Cinema como espaço de atravessamento, onde a imagem não explica, mas evoca, permitindo que o simbólico e o sensível emerjam da relação entre corpo, paisagem e tempo.
Em “Família Muniz” (2017), Marcos Pimentel realiza um mergulho atento no cotidiano, nas crenças e nas celebrações de uma família que, há mais de 60 anos, comanda a Guarda Os Ciriacos, irmandade dedicada a Nossa Senhora do Rosário. O filme acompanha a vida doméstica e ritual como dimensões inseparáveis, revelando como a fé e o Congado estruturam o tempo, os gestos e as relações entre gerações. Mais do que documentar uma manifestação tradicional, Família Muniz propõe uma experiência de convivência com essa história de fé, amor e devoção.
Entre os longas, Pimentel assina títulos que ampliam o espectro temático e geográfico. “Sopro” (2013) é um filme atento às forças mínimas que atravessam o mundo, fazendo do ar, do fôlego e do movimento quase imperceptível os verdadeiros protagonistas da experiência cinematográfica. O gesto cinematográfico opera menos como registro e mais como ritual: observar, esperar e deixar que o invisível se manifeste. Assim, o filme transforma o sopro em metáfora do próprio cinema – um fluxo delicado que anima imagens, mas que pode cessar a qualquer instante, reforçando a consciência da impermanência.
“A parte do mundo que me pertence” (2017) constrói-se como um gesto de atenção radical ao cotidiano, onde o cinema se aproxima do silêncio, da espera e do detalhe quase imperceptível. O filme observa personagens em seus ambientes íntimos e sociais sem a urgência da narrativa clássica, privilegiando a duração dos planos e a escuta do tempo. Há uma ética do olhar que recusa o espetáculo e aposta na delicadeza: o mundo não é explicado, mas acompanhado, como se cada imagem fosse uma tentativa de compartilhar uma experiência sensível de existência.
“Fé e fúria” (2019) aborda conflitos religiosos, poder e violência nas periferias de grandes cidades. A partir de depoimentos, imagens cotidianas e situações de confronto, o filme revela como igrejas, pastores e líderes religiosos se entrelaçam com estruturas políticas e econômicas, moldando comportamentos, legitimações e formas de controle social. A abordagem não simplifica: mostra tensões internas às comunidades, disputas por autoridade e os efeitos concretos dessa relação na vida das pessoas mais vulneráveis.
“Os ossos da saudade” (2021) realiza uma viagem transatlântica pela ausência e pela memória entre Brasil, Portugal e países africanos de língua portuguesa. O filme parte da ausência para construir uma cartografia afetiva da memória. Por meio de depoimentos, imagens e percursos por territórios diversos – Brasil, Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde –, costura lembranças, faltas e remanescentes culturais, mostrando como a saudade se manifesta como força motriz das identidades e das narrativas pessoais.
“Pele” (2021) é uma observação sensorial e poética das cidades brasileiras por meio de seus muros e paredes. Sem diálogo nem voz em off, a câmera fixa de Pimentel capta grafites, pichações, slogans, símbolos indecifráveis e declarações de amor que emergem no tecido urbano, compondo um mosaico de imagens que funcionam como fragmentos de memória e gritos silenciosos dos habitantes dos centros urbanos.
“Amanhã” (2023) constrói-se como um filme de suspensão e espera, em que o tempo deixa de ser apenas uma linha narrativa para se tornar matéria sensível. O filme não aponta para um futuro resolutivo, mas para um estado permanente de adiamento, atravessado por silêncios, gestos mínimos e uma atenção rigorosa ao que insiste em permanecer à margem. A encenação aposta na contenção, permitindo que o vazio, a pausa e a duração revelem tensões latentes entre o presente vivido e aquilo que nunca chega a se cumprir plenamente.
“O silêncio das ostras” (2024) observa o trabalho repetitivo e quase ritual dos corpos em contato com a matéria – as ostras, o barro, a água –, fazendo do silêncio não uma ausência, mas uma presença espessa, carregada de história e desgaste.
Em conjunto, o cinema de Marcos Pimentel funciona como um exercício atento de escuta do mundo, no qual o tempo, o silêncio e a materialidade dos corpos e dos espaços operam como forças estruturantes. Suas obras recusam a aceleração e a transparência narrativa para construir uma experiência sensorial e reflexiva, em que memória, território e cotidiano se entrelaçam de forma indissociável.
Ao acompanhar gestos mínimos, paisagens em transformação e rituais de permanência, trata-se de um cinema que não apenas observa, mas habita o tempo, produzindo imagens que resistem ao esquecimento e convocam o espectador a uma relação ética e contemplativa com aquilo que insiste em permanecer.
VERÃO ARTE CONTEMPORÂNEA
16ª edição do evento. Em seis espaços culturais de Belo Horizonte, até este sábado (31/1. Programação completa disponível no site do festival.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
*Sávio Leite é professor e cineasta