Simões em modo vistoria
A largada do novo chefe do Executivo tem sido pautada por agendas de fiscalização com forte exposição nas redes sociais
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Três dias após assumir o comando de Minas Gerais, o governador Mateus Simões (PSD) dá sinais de que pretende imprimir uma marca própria à gestão e se distanciar do estilo adotado por Romeu Zema (Novo), de quem foi vice. A largada do novo chefe do Executivo tem sido pautada por agendas de fiscalização com forte exposição nas redes sociais, linguagem direta ao eleitor e foco em denúncias de problemas estruturais. É um movimento que aproxima sua comunicação do modelo que projetou o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) como um dos principais fenômenos políticos do estado.
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A sequência começou na segunda-feira com uma vistoria surpresa ao Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, em meio à greve de servidores e a relatos sobre falhas no atendimento e na estrutura da unidade. No dia seguinte, Simões repetiu o roteiro ao visitar o presídio Antônio Dutra Ladeira, em Ribeirão das Neves, em agenda voltada à verificação das condições de funcionamento da penitenciária.
O formato adotado pelo governador dialoga diretamente com a trajetória eleitoral de Cleitinho, que ganhou notoriedade política justamente com fiscalizações em hospitais públicos, pedágios e serviços essenciais, sempre com forte registro audiovisual e discurso de cobrança por resultados. A estratégia ajudou o parlamentar a construir capital político fora dos canais tradicionais da política institucional, consolidando uma imagem de enfrentamento e proximidade com problemas cotidianos da população.
O ritmo imposto nos primeiros dias de governo indica uma tentativa deliberada de acelerar a construção de visibilidade. Recém-empossado após a renúncia de Zema para disputar a Presidência da República, Simões tem sinalizado internamente que pretende adotar uma condução mais política da gestão, com presença constante em agendas externas e maior exploração da comunicação digital como instrumento de posicionamento público. Desta forma, ele consegue usar a máquina pública ao seu favor projetando uma possível reeleição.
A mudança de tom contrasta com o perfil do antecessor. Zema construiu sua imagem com foco em pautas administrativas, discurso de eficiência e postura mais reservada em agendas de impacto. Simões estreia investindo em ações com potencial de repercussão imediata, apostando na associação entre fiscalização, exposição pública e construção de identidade política própria dentro do mesmo grupo de governo.
Nos bastidores do Palácio Tiradentes, interlocutores admitem que o formato busca reduzir rapidamente o desconhecimento do novo governador em regiões onde seu nome ainda não possui capilaridade eleitoral. A avaliação é de que agendas com potencial de "viralização" funcionam como instrumento de consolidação de imagem em um cenário já marcado pela antecipação da disputa pelo governo em 2026.
A guinada na comunicação ocorre em meio a tensões dentro da própria base aliada. Lideranças governistas relatam incômodo com a aproximação política e simbólica entre Simões e o deputado federal Nikolas Ferreira, especialmente após agendas conjuntas no interior para anúncios de recursos e entregas.
Há ainda o receio da base governista na ALMG de que a exposição intensa em agendas de caráter político reduza o espaço para a articulação institucional em um momento considerado sensível para a consolidação do novo governo. Parte da base esperava uma transição marcada por maior discrição e foco na reorganização administrativa após a saída de Zema.
“PORTAS ABERTAS”
Um comentário do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) em uma publicação do deputado estadual Cristiano Caporezzo (PL), no qual escreveu “Eu tô com você, nosso futuro senador”, movimentou os bastidores políticos em Minas e foi interpretado por aliados como reforço à pré-candidatura do parlamentar ao Senado. A manifestação também alimentou rumores sobre uma possível migração de Caporezzo para o Republicanos, hipótese negada pelo deputado à coluna, que afirmou ter sido informado de que “as portas do partido estão abertas”, mas garantiu estar “resoluto em seguir no PL”.
COMPROMISSO TARDIO
A abertura de diálogo do governador Mateus Simões com lideranças do Sindicato dos Trabalhadores da Rede Fhemig (Sindpros), após vistoria no Hospital João XXIII, com promessas de analisar reivindicações da rede Fhemig, foi classificada como tardia pelos deputados estaduais Professor Cleiton (PV) e Lucas Lasmar (Rede). Nos bastidores, ambos avaliam que as respostas poderiam ter sido apresentadas ainda quando o atual chefe do Executivo coordenava o secretariado do governo e interpretam o gesto como tentativa de marcar posição própria diante do desgaste acumulado pela gestão anterior.
CANDIDATURA FIRME
O ex-vereador e pré-candidato ao governo Gabriel Azevedo (MDB) disse que recebeu o convite para participar da nova versão do programa Manhattan Connection, sonho de infância do ex-vereador. O convite, no entanto, foi recusado. A resposta foi direta: “Sou pré-candidato ao governo de Minas”. Essa tem sido a resposta do político todas as vezes em que sua candidatura foi questionada.
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ALMG
A aprovação na ALMG em primeiro turno do pacote de reajustes salariais para servidores do Executivo, Judiciário, Tribunal de Contas e Ministério Público foi tratada como uma das últimas “heranças” deixadas por Romeu Zema antes de renunciar ao cargo para disputar a Presidência. As recomposições variam de 4,44% a 10,94%, com impacto estimado de R$ 3,4 bilhões anuais apenas na folha do Executivo, que reúne cerca de 673 mil servidores. Apesar do avanço das propostas, o clima entre categorias como educação e segurança é de insatisfação com os índices, enquanto o novo governo sinaliza que não pretende ampliar os percentuais.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
