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Estado de Minas CHECAMOS

Vacinas contra COVID evitam casos graves e mortes meses depois de aplicadas

Postagens em redes sociais afirmam, enganosamente, que há queda na proteção das vacinas ao longo do tempo e que imunizantes não cumprem seu papel


07/01/2022 22:14 - atualizado 10/01/2022 11:30

Mensagens nas redes sociais que foram compartilhadas mais de 2 mil vezes desde, pelo menos, 3 de janeiro de 2022 mencionam uma suposta queda na proteção gerada pelas vacinas contra a covid-19 ao longo do tempo, insinuando que os imunizantes não estariam cumprindo seu papel.

Mas segundo especialistas ouvidos pela AFP, essa diminuição é explicada pelo surgimento de variantes ao longo da pandemia e pelo fato de que os primeiros índices de eficácia anunciados para os imunizantes anticovid tinham como base estudos de fase 3.
Com a aplicação em massa, é esperado que esses valores diminuam. Contudo, as vacinas seguem sendo úteis na proteção contra casos graves e óbitos.

“12/20 - Imuniza 95% 01/21 - Imuniza 70% 03/21 - Imuniza 50% 09/21 - Não imuniza, reduz transmissão 10/21 - Não reduz transmissão, mas impede a forma grave 11/21 - Não impede a forma grave, mas reduz UTI 12/21 - Não impede UTI, mas reduz as mortes Morreu de outra coisa”, dizem as publicações compartilhadas no Facebook (1, 2, 3), no Instagram (1, 2, 3) e no Twitter (1, 2, 3).

Conteúdo semelhante também circulou em espanhol.
Captura de tela feita em 6 de janeiro de 2022 de uma publicação no Twitter
Captura de tela feita em 6 de janeiro de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

Em 18 de novembro de 2020, as empresas Pfizer e BioNTech anunciaram que sua vacina desenvolvida contra a covid-19 tinha 95% de eficácia. O número foi registrado com base em estudos de fase 3, após 7 dias da aplicação da segunda dose.

Em 7 de janeiro de 2021, o Instituto Butantan anunciou que o imunizante CoronaVac, produzido em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, apresentou uma eficácia de 78% a 100% segundo um estudo clínico realizado no Brasil com a participação de 12,4 mil profissionais de saúde voluntários. “A taxa de eficácia foi de 78% para os infectados que apresentaram casos leves ou precisaram de atendimento ambulatorial. Isso significa que a cada cem voluntários que contraíram o vírus, somente 22 tiveram apenas sintomas leves, mas sem a necessidade de internação hospitalar”, disse a instituição.

Ainda nesse mesmo mês, porém, foi anunciado pelo governo do estado de São Paulo - ao qual o Instituto Butantan é vinculado - uma eficácia global de 50,38% para a CoronaVac.

“Os resultados do estudo da fase 3 mostraram que nos casos graves e moderados a eficácia é de 100%. Para os casos leves, 78% e, nos muito leves, 50,38%. Isso significa que temos 50,38% menos chances de contrair a doença. Se contrairmos, há 78% de chance de não precisarmos de qualquer atendimento médico e 100% de certeza de que a enfermidade não vai se agravar”, explica o Instituto Butantan.

Em 31 de março de 2021, a Anvisa aprovou em caráter emergencial o imunizante da Janssen, que, em testes, apresentou 66,9% de eficácia para casos leves e moderados e 76,7% para casos graves, após 14 dias da aplicação.

Já o quarto imunizante anticovid utilizado no Brasil, o da AstraZeneca, produzido no país pela Fiocruz, teve sua autorização temporária concedida em janeiro de 2021 e seu registro definitivo aprovado pela Anvisa em março de 2021. A vacina apresentou 76% de eficácia após a aplicação da primeira dose, e o valor chegou a 82% com a aplicação de uma segunda dose segundo ensaios clínicos.

Eficácia e eficiência

Ao longo de 2021, porém, as vacinas anticovid foram testadas contra as diferentes variantes de preocupação registradas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo constatada uma efetividade menor em muitos casos, a depender da variante analisada. “Em geral, as vacinas contra a covid-19 são muito eficazes na prevenção de doenças graves, hospitalização e morte por todas as variantes de vírus atuais. Eles são menos eficazes na proteção contra infecções e doenças leves do que eram para variantes anteriores do vírus; mas se você ficar doente depois de ser vacinado, é mais provável que seus sintomas sejam leves”, explica a organização mundial.

“Esses valores altos de eficácia que foram anunciados com os estudos de fase 3 [para] as vacinas de RNA mensageiro da Moderna e da Pfizer, com 94% e 95%, foram achados e avaliados em um grupo que é representativo da população, mas que é um grupo ideal, conhecido e controlado. É isso que se faz em um estudo de fase 3. (...) Quando a vacina é aprovada e licenciada para uso - vacinação em massa - você continua acompanhando para ver como é a performance da vacina no mundo real com todas as adversidades e é esperado que a efetividade seja diferente daquela observada nos estudos de fase 3. Isso é uma coisa normal”, afirmou ao Checamos Mônica Levi, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

O Butantan também explica que há uma diferença entre a eficácia e a eficiência de uma vacina. A eficácia é um número medido por estudos clínicos de fase 3, que avaliam se um imunizante consegue ou não proteger o organismo de uma doença. Já a eficiência, segundo o Instituto, é o impacto de uma vacina no mundo real. “A eficiência mostra se a vacina foi capaz de imunizar um grande número de pessoas, analisando os dados de infecção e morte em decorrência da doença. O ambiente de estudo é menos controlado, e pode haver adversidades”, diz a instituição.

“Os testes de fase 3 de alguns imunizantes mais eficientes em termos de eficácia, como as vacinas de RNA da Pfizer e da Moderna (por exemplo), demonstraram uma eficácia de fato em torno de 90%. Os resultados, inclusive, serviram de base para a aprovação e liberação da vacinação em massa (Fase 4). [Mas] mesmo após a liberação, os imunizantes continuam sendo monitorados, tanto em termos de segurança como de efeitos adversos e eficácia”, acrescentou ao Checamos Rafael Dhalia, doutor em Biologia Molecular e especialista em desenvolvimento de vacinas de DNA pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

“O que estamos presenciando é que de fato as vacinas aprovadas funcionam e que estão salvando milhões de vidas no mundo. O que não se sabia, e agora se sabe, é que a duração da resposta imunológica induzida pelas vacinas disponíveis de covid-19 decai ao longo do tempo (principalmente nos mais idosos). Daí a necessidade de segunda dose e doses de reforço, para restaurar a eficácia dos imunizantes”, disse.

Variantes e duração da imunidade

“A principal explicação para a queda de eficácia [das vacinas] é que enquanto a gente não consegue controlar a pandemia novas variantes vão surgindo. (...) Cada nova variante com mais mutações acumuladas causava uma diminuição maior ainda da eficácia global da vacina. Isso porque os antígenos presentes nessas variantes eram ligeiramente diferentes dos antígenos presentes naquela variante original de Wuhan, que foi usada como base para as vacinas”, explicou ao Checamos Flávio Fonseca, virologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.

“Observou-se principalmente com as variantes de preocupação uma queda na proteção conferida por essas vacinas em curto tempo, em média de 4 meses, e essa queda foi em maior ou menor grau de acordo com a vacina ou com a variante de preocupação em circulação”, disse Mônica Levi.

De acordo com Dhalia, essa queda ocorre também com outros imunizantes. “A queda da eficácia das vacinas não é algo exclusivo das vacinas de covid-19. (...) Temos várias vacinas no calendário de vacinação que requerem doses de reforço: hepatite B, tétano, difteria, coqueluche, etc. Outras são mais potentes em termos de indução da resposta imunológica como: sarampo, rubéola, catapora e febre amarela (...). Logo, resumidamente, depende muito da formulação [da vacina] e do agente patogênico. Para nossa sorte, apesar da eficácia das vacinas de covid-19 caírem ao longo dos meses, elas funcionam e nos protegem contra as formas graves da doença”.

Prevenção contra hospitalizações e óbitos

São enganosas, nas publicações viralizadas, as afirmações de que as vacinas contra a covid-19 não protegem contra casos graves e óbitos gerados pelo SARS-CoV-2.
Um homem recebe oxigênio como parte de seu tratamento contra a covid-19 na Bahia, em 5 de janeiro de 2022
Um homem recebe oxigênio como parte de seu tratamento contra a covid-19 na Bahia, em 5 de janeiro de 2022 ( AFP / Joao Paulo Guimaraes)

Uma análise publicada em 10 de dezembro de 2021 pela Fiocruz sobre a efetividade das vacinas no Brasil mostrou que todas conferem grande redução do risco de infecções, internações e óbitos por covid-19. Considerando os desfechos graves (internação ou óbito) em indivíduos com idade entre 20 e 80 anos, a proteção variou entre 83% e 99% para todos os imunizantes. “Na população abaixo de 60 anos, todas as vacinas apresentam proteção acima de 85% contra risco de hospitalização e acima de 89% para risco de óbito”, indica o estudo.

A alegação de que as vacinas “não impedem a forma grave, mas reduzem UTI”, incluída nas publicações viralizadas, foi classificada como incorreta por Flávio Fonseca. “A gente considera doença grave qualquer doença que determine internação do paciente, seja na UTI ou na enfermaria. Se ele precisa de assessoria médica, de cuidado médico, já é uma forma grave da doença, senão ele poderia se tratar fora do hospital. Quando a pessoa vai para a UTI é uma situação de vida ou morte. A vacina previne não apenas as situações de vida ou morte mas também as doenças graves, com necessidade de internação”.

Mônica Levi, diretora da SBIm, agregou:

“Os dados dos estudos sugerem uma menor eficácia das vacinas para as variantes de preocupação, no momento, delta e ômicron, e isso nós chamamos de escape vacinal. No entanto, essas vacinas se mostraram extremamente eficazes na prevenção de formas graves e de óbitos, visto que em todos os locais em que houve uma explosão da ômicron, um aumento explosivo do número de casos, isso não resultou em um aumento proporcional no número de internações em UTI e nem óbitos”

Em dezembro de 2021, a Pfizer anunciou que duas doses de sua vacina oferecem 70% de proteção contra casos graves da variante ômicron. A Janssen anunciou, no mesmo mês, que, com uma dose de reforço, dados preliminares mostraram 85% de eficácia contra hospitalizações na África do Sul, no período em que a ômicron era dominante. A Fiocruz divulgou um estudo cujos dados coletados no Brasil mostraram que, após 18 a 19 semanas da aplicação da segunda dose da vacina Oxford/AstraZenca, a proteção caía para 42,2%. Já o Butantan afirmou que a Sinovac está trabalhando em uma atualização da CoronaVac contra a ômicron.

A variante delta foi detectada pela primeira vez no Brasil em maio de 2021. Dados do Ministério da Saúde mostram que o país tem uma queda sustentada de óbitos pela doença desde junho de 2021. A variante ômicron, por sua vez, foi detectada no país no final de novembro de 2021. Segundo o último boletim epidemiológico da Fiocruz, o país enfrenta uma alta de casos da doença em todas as suas regiões, em um cenário caracterizado também pelo surto de influenza. “As evidências sugerem fortemente que a vacinação já faz grande diferença no cenário que se apresenta, comparado a momentos anteriores”, diz o documento.

O Checamos já verificou diversas outras alegações sobre uma suposta ineficácia das vacinas contra a covid-19 (1, 2, 3).

*Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

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