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Estado de Minas CELEBRAÇÃO DA VIDA

Sobreviventes da COVID-19 celebram o Natal e a vida após semanas internados

Da experiência traumática no hospital ao retorno à família, pacientes dizem que o presente neste fim de ano é poder dizer: 'Estou aqui'


25/12/2020 06:00 - atualizado 25/12/2020 07:30

Cristina Gonzaga, doceira e salgadeira, que ficou internada 64 dias:
Cristina Gonzaga, doceira e salgadeira, que ficou internada 64 dias: "A vida é meu maior presente, parece que tenho uma missão a cumprir, muito ainda para fazer. Fico muito orgulhosa disso" (foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press)


No dia em que o pequeno Bernardo veio ao mundo, a vovó Maria Ercília de Jesus Gonzaga, conhecida por Cristina, não pôde acarinhar o bebê, abraçar o filho Robson, pai de primeira viagem, nem ficar ao lado da família. Naquela manhã de 13 de julho, ela começou a sentir, “do nada”, dor de cabeça, fraqueza e tontura, sintomas que, mais tarde, foram  diagnosticados como da COVID-19 e conduziram à internação durante 64 dias no hospital Santa Casa BH, na Região Centro-Sul da capital.

Sem perder o sorriso, embora com os olhos iluminados pelas lágrimas da emoção, Cristina acredita ter renascido. “A vida é meu maior presente, parece que tenho uma missão a cumprir, muito ainda para fazer”, afirma a cozinheira, quituteira e doceira, que já teve sua famosa goiabada, com frutas do quintal, levada até para a França. “Fico muito orgulhosa disso.”

Não bastasse Cristina ser internada, o marido dela, José Luiz Gonzaga, também se tornou vítima do novo coronavírus, que não perdoou também a filha do casal, a advogada Ana Cecília, de 31, hospitalizada durante oito dias, e o caçula Jeferson, de 27, segurança e trabalhador em fábrica de peças – ele e o pai numa forma branda da doença.

Só escapou o Robson, o Robinho, de 28, estudante de engenharia de produção. Residente no bairro Córrego Frio, às margens do Rio das Velhas, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a família respira mais aliviada neste Natal, embora cheia de cuidados.



“Lembro-me pouco do ocorrido no hospital. Sei que uma vez, quando estava no centro de terapia intensiva (CTI), meus filhos Robinho e Jeferson apareceram diante de mim. Choravam muito. Logo depois, quando a imagem deles desapareceu, pois foi uma 'visão', enxerguei dois anjos iluminados, com túnicas brancas, compridas. E não passou muito, ouvi os médicos comemorando, um deles falou alto: 'Graças a Deus! Salvamos ela! Salvamos ela'. Na minha memória, estavam todos vestidos de verde, essa roupa que os médicos usam nos hospitais”, conta Cristina, com Bernardo, de 5 meses no colo e, ao lado, a netinha Larissa, de um ano e oito meses, filha de Jeferson. “Sabe que às vezes meu netinho olha para mim como se já me conhecesse há muito tempo? Fico impressionada”.

História de sobrevivência

Hipertensa, diabética e com 65 anos, portanto no grupo de risco para a COVID-19, Cristina é considerada uma guerreira pelos que a conhecem. Ficou 45 dias no CTI, foi entubada três vezes, sofreu três paradas cardiorrespiratórias e passou pela traqueostomia. Há três anos, devido ao diabetes, sofreu a amputação da perna esquerda, na altura do joelho, e se vale de uma prótese.

Mesmo assim, na época, tão logo foi liberada pelo médico, voltou à lida, muitas vezes caminhando um quilômetro, de casa ao ponto de ônibus, em estrada de terra, para trabalhar na capital como diarista. “Na época de enchente, já passei com água do Rio das Velhas pela cintura”, recorda-se. Ao lado, a filha Ana Cecília complementa: “Mãe não sossega. Só ficou parada, agora, por causa da COVID-19. Gosta de trabalhar. Encarou tudo isso, de 13 de julho a 14 de setembro, e, graças a Deus, não teve sequelas”.

Nascida na zona rural de Taquaraçu de Minas, Cristina começou a trabalhar muito cedo e, sem oportunidade de estudar, sempre fez questão de dar uma boa educação aos filhos. “Essa é a maior riqueza que os pais podem deixar para os filhos”. E tem as amizades, a gratidão: “Houve uma forte corrente de orações, tanta gente rezando por mim, só tenho a agradecer”.

Fé recuperada durante internação

Emerson Lloyd Reis, morador de Nova Lima, confessa ter recuperado a fé:
Emerson Lloyd Reis, morador de Nova Lima, confessa ter recuperado a fé: "No CTI, vi que a vida é o grande bem que temos, e recorri a Deus. Não poderia haver presente maior neste Natal" (foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press )
Nos 21 dias em que ficou hospitalizado, 11 deles no CTI, Emerson Lloyd Reis, de 58, morador de Nova Lima, não apenas se recuperou da COVID-19 como restaurou sua fé em Deus. Ao longo dos anos, acontecimentos muito tristes como a morte precoce de um irmão, Alyson, e depois a de uma tia muito querida, Elisa Lloyd, vítima de câncer, abalaram a fé.

“Mas, no CTI, vi que a vida é o grande bem que temos, e recorri a Deus. Não poderia haver presente maior neste Natal”, conta Emerson, casado com Andréia de Aguiar Reis e pai de Luana Cristina, de 27, Nívea Maria, de 15, e Gabriela, de 12. Na mesma casa, mora o pai dele, Dirson dos Reis, conhecido por Tinho, de 92.

Do período de internação, primeiramente em Nova Lima, depois num hospital da Região Centro-Sul de BH, Emerson, que trabalha no departamento de compras de uma empresa, não se esquece particularmente de cinco dias, considerados, por ele, os mais “terríveis” na sua luta contra a doença. “Não cheguei a ficar entubado, mas, nesses dias, estive em completo isolamento, sem notícias da família, sem saber da Andréia, das minhas três filhas. Os pensamentos são os piores, vi três pessoas morrendo, ao lado, no box do CTI, então é difícil demais.”

Com 20 quilos a menos, e em recuperação do calvário recente, entre 4 e 25 de novembro, Emerson diz não saber quando foi contaminado pelo novo coronavírus: “A gente nunca sabe. Sigo as orientações das autoridades médicas (uso  de máscara, higienização com álcool gel e respeito ao distanciamento social) e trabalho numa empresa com  todos os protocolos de segurança”. Certo de que o pior já passou, ele só quer mesmo saber do carinho da família e de curtir o bem divino da saúde.

Trauma e transformação


Carlos Philippe Alves de Deus, motorista de aplicativo em BH:
Carlos Philippe Alves de Deus, motorista de aplicativo em BH: "Comecei a valorizar momentos que a gente não está acostumado a dar atenção. Neste Natal, a vitória é poder dizer: 'Estou aqui'" (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)
Um processo duro, complicado e doloroso psicologicamente. Essa é avaliação do jovem Carlos Philippe Alves de Deus, de 23, sobre o período em que ficou internado, em julho, com COVID-19. Motorista de aplicativo e residente no bairro Palmeiras, na Região Oeste de Belo Horizonte, Carlos ficou entubado durante 10 dias, de um total de 17 dias em que esteve doente desde a chegada à unidade de pronto-atendimento (UPA), para onde, em 2 de julho, foi levado pela mãe, Nelci Matoso, e a tia Nilma Matoso – de lá, foi conduzido ao Hospital São Francisco. Solteiro e morando com a mãe, apenas ele na família foi contaminado pelo novo coronavírus.

A vida de Carlos Philippe ainda não voltou totalmente à normalidade, ele está em tratamento numa clínica na Região Centro-Sul da capital, para cuidar de uma “lesão por pressão” decorrente do longo período de internação. “Saí do hospital andando, não tive sequela. A lesão não tem a ver com a COVID-19. Nos primeiros dias pós-internação, fiquei muito fraco, não tinha força nem para levantar uma xícara de café. Depois fui melhorando”, conta o motorista.

Umbandista, Carlos Philippe revela que a partir da doença começou a valorizar mais a saúde e também “pequenas coisas” do cotidiano. “São os pequenos momentos que a gente não está acostumado a dar a atenção”, explica. “Neste dia de Natal, a vitória é poder dizer: ‘Estou aqui’.”

O que é o coronavírus


Coronavírus são uma grande família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus (COVID-19) foi descoberto em dezembro de 2019, na China. A doença pode causar infecções com sintomas inicialmente semelhantes aos resfriados ou gripes leves, mas com risco de se agravarem, podendo resultar em morte.
Vídeo: Por que você não deve espalhar tudo que recebe no Whatsapp

Como a COVID-19 é transmitida? 

A transmissão dos coronavírus costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas, como gotículas de saliva, espirro, tosse, catarro, contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão, contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.

Vídeo: Pessoas sem sintomas transmitem o coronavírus?


Como se prevenir?

A recomendação é evitar aglomerações, ficar longe de quem apresenta sintomas de infecção respiratória, lavar as mãos com frequência, tossir com o antebraço em frente à boca e frequentemente fazer o uso de água e sabão para lavar as mãos ou álcool em gel após ter contato com superfícies e pessoas. Em casa, tome cuidados extras contra a COVID-19.
Vídeo: Flexibilização do isolamento não é 'liberou geral'; saiba por quê

Quais os sintomas do coronavírus?

Confira os principais sintomas das pessoas infectadas pela COVID-19:

  • Febre
  • Tosse
  • Falta de ar e dificuldade para respirar
  • Problemas gástricos
  • Diarreia

Em casos graves, as vítimas apresentam:

  • Pneumonia
  • Síndrome respiratória aguda severa
  • Insuficiência renal
Os tipos de sintomas para COVID-19 aumentam a cada semana conforme os pesquisadores avançam na identificação do comportamento do vírus. 

Vídeo explica por que você deve 'aprender a tossir'


Mitos e verdades sobre o vírus

Nas redes sociais, a propagação da COVID-19 espalhou também boatos sobre como o vírus Sars-CoV-2 é transmitido. E outras dúvidas foram surgindo: O álcool em gel é capaz de matar o vírus? O coronavírus é letal em um nível preocupante? Uma pessoa infectada pode contaminar várias outras? A epidemia vai matar milhares de brasileiros, pois o SUS não teria condições de atender a todos? Fizemos uma reportagem com um médico especialista em infectologia e ele explica todos os mitos e verdades sobre o coronavírus.

Coronavírus e atividades ao ar livre: vídeo mostra o que diz a ciência

Para saber mais sobre o coronavírus, leia também:

 



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