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Estado de Minas NOVO NORMAL DOS CALOUROS

Universitários que começaram curso na pandemia enfrentam novo desafio

Alunos que entraram no ensino superior a partir de 2020 encaram aquele que para muitos será o primeiro contato presencial com o ambiente universitário


31/01/2022 06:00 - atualizado 31/01/2022 08:51

Ilustração
Grande parte das universidades públicas e privadas vão voltar ao ensino presencial a partir de fevereiro (foto: Quinho/Arte EM)
 
Calouros em 2020 ou 2021, um batalhão de estudantes universitários fará este ano uma nova estreia na vida acadêmica, desta vez nos ambientes dos câmpus, que muitos nem sequer chegaram a conhecer. Por força da pandemia de COVID-19, eles passaram do banco da escola ao ensino a distância, não conheceram de perto colegas e professores e se ajeitaram como puderam no “novo normal”. Com boa parte das instituições de ensino superior prestes a voltar a oferecer atividades presenciais, eles terão agora que fazer nova adaptação, desta vez para o convívio tête-à-tête com a comunidade acadêmica. Educadores apontam necessidade de nivelamento para driblar eventuais prejuízos à aprendizagem, especialmente nos cursos mais práticos.

Às vésperas da mudança, o Estado de Minas ouviu estudantes e professores sobre suas experiências nesses quase dois anos de pandemia e expectativas diante do novo caminho. A possibilidade de acessar aulas gravadas a qualquer momento e não precisar se deslocar para assisti-las foram algumas das vantagens de estudar em casa listadas por estudantes. No outro prato da balança, um esforço maior para se concentrar, menos troca de experiências e impossibilidade de praticar o que foi ensinado.
 
Lavínia Barcelos, de 20 anos, sorri, em foto de redes sociais
Estudante Lavínia Barcelos, de 20 anos, cursa Comércio Exterior no Centro Universitário Una (foto: Arquivo Pessoal)
Agora no 5º período, a estudante Lavínia Barcelos, de 20 anos, ingressou no curso de Comércio Exterior do Centro Universitário Una pouco tempo antes de iniciar o período de pandemia e, portanto, teve apenas algunas dias de vivência presencial com colegas de turma e professores. Ela garante ter se adaptado ao modelo remoto, mas sonha com os bancos da faculdade. “(No remoto) A gente perde muito das relações interpessoais, o contato na prática com a matéria. Isso fica um pouco distante da realidade do estudante que está 100% on-line”, avalia.

Maria Clara Dias Brandão, também de 20, começou a cursar Farmácia na Newton Paiva dias antes de a pandemia do coronavírus levar a instituição a suspender as aulas presenciais. “Só frequentei a escola por duas semanas e querendo ou não já havia criado uma expectativa sobre como é estar realmente em uma faculdade presencialmente”, conta.

Ambas colocam a comodidade no rol de vantagens do ensino remoto. “Para quem trabalha ou tem outras atividades durante o dia, poder estudar em casa é mais cômodo. Consegue-se fazer melhor os intervalos, o tempo que temos livre em casa é melhor para estudar porque as aulas ficam gravadas”, pontua Lavínia. E Maria Clara completa: “O deslocamento é, de certa forma, bem desgastante. Então, ficar em casa tem esse ponto positivo”.

Mas não faltam desvantagens, avaliam. “Para mim, é muito mais difícil me concentrar nas aulas, os trabalhos em grupo são muito mais complicados a distância. Até a mentoria dos professores é mais difícil, assim como o contato entre os alunos da própria turma, a concentração durante as aulas. Você acaba tendo que aprender sozinho algumas coisas que o ensino a distância deixa mais disperso”, diz a jovem.

Na mesma linha, Maria Clara identifica um “desgaste mental” maior para organizar os estudos em casa. “Estar ali de frente para uma tela a maior parte do dia, perder a diferenciação entre o que é minha casa e o que é minha faculdade, de certa forma atrapalha na concentração e influencia no aprendizado, provocando um desgaste mental muito maior. Isso acaba nos levando a uma certa frustração, pois a gente começa a se cobrar mais”, afirma.

As duas dizem se sentir seguras diante da possibilidade de, enfim, conviver diretamente com a comunidade acadêmica, desde que sejam adotados protocolos de segurança para evitar o contágio do coronavírus e que tudo seja monitorado. Grande parte das instituições de ensino públicas e privadas de Belo Horizonte vão voltar ao ensino presencial a partir de fevereiro, com todos os protocolos de segurança à COVID-19. Enquanto algumas já divulgaram o calendário, com aulas presenciais a partir de 7 de fevereiro, outras aguardam eventuais mudanças impostas por autoridades públicas antes de bater o martelo.

“Tenho medo em relação à COVID-19 porque temos uma variante (a Ômicron, prevalente no momento) com maior transmissão. Mas tomando todas as medidas de segurança, com todo mundo vacinado, distanciamento e usando máscara, creio que me sentiria segura em voltar e seria muito proveitoso porque este é o meu penúltimo ano de faculdade”, diz Lavínia. “Com cuidado e consciência por parte de todos a aula presencial será bem mais tranquila”, acrescenta Maria Clara.
 

Para professor, exercício da profissão ficou prejudicado

 
Pablo Moreno Fernandes, professor de publicidade e propaganda, em aula remota, com uma estante de livros ao fundo
Professor Pablo Moreno Fernandes, dá aula no curso de Publicidade e Propaganda na UFMG (foto: Arquivo Pessoal)
Assim como estudantes, o ensino remoto desafiou também os professores, tanto na rede pública quanto na particular. Se para alguns a experiência foi positiva, para outros foi desastrosa, como avalia Pablo Moreno Fernandes, que dá aulas no curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Perdeu-se muita coisa além dos níveis de aprendizado dos alunos. As interações, as trocas, a experiência de ensino não se fazem somente na transmissão de conteúdo. Diálogo, interação e outras trocas simbólicas se perderam no ensino remoto”, avalia. “Tudo isso prejudicou muito o processo de aprendizagem”, lamenta.

Na avaliação de Pablo, seu perfil como professor não é adequado para as aulas mediadas pela tela do computador. “Não funcionou. Como professor, construo o aprendizado nas trocas com meus alunos, principalmente nas trocas de experiência que enriquecem. Dar aula para uma tela de computador não permite interação em tempo real, sem falar que as telas nos esgotam. Os alunos passam a maior parte da aula com câmera desligada, microfone fechado, então não temos muita interação. Para mim, foi muito ruim”, conta.

Mas, independentemente do perfil do professor, ele avalia que o modelo adotado ao longo da pandemia provocou perdas na educação. “Acredito que os indicadores de avaliação da educação vão identificar uma perda grande nos níveis de aprendizado. Tenho conversado muito com os estudantes e eles têm sinalizado essa perda na absorção de conteúdo. Eles relatam que têm tido dificuldade porque às vezes escutam (gravações de) 50 minutos, duas horas do professor falando e não absorveram o conteúdo. Então, em médio e longo prazos, vamos ter essa manifestação de perda do aprendizado”, aposta.

A partir de agora, é correr atrás do prejuízo. “A expectativa para a volta presencial está altíssima. Espero que a variante Ômicron não traga uma piora nos índices de óbito, que as vacinas continuem se mostrando eficazes e possamos ter um retorno seguro”, afirma.

Depois de quase dois anos longe das salas de aulas, ele prevê dificuldades dos estudantes de se readaptar – ou estrear – ao ensino presencial nas faculdades. E já vem discutindo o tema com os alunos. “Tenho falado com os meus alunos que é preciso que a gente aproveite esse retorno para tratar e administrar problemas que vão vir daqui pra frente, esse processo de adaptação à socialização, à sala de aula, ao nível de cobrança que ensino presencial tem e que o remoto não tem”, completa.

Aos alunos que ainda não tiveram a experiência do ensino superior presencial, ele alerta: “É preciso passar por esse processo de adaptação, de ressocialização para compreender que a experiência que tiveram até aqui foi atípica devido às pandemia, mas que o ensino superior não é isso que eles viveram”. (NW)
 

Educadores receitam nivelamento

 
Eventuais efeitos prejudiciais – ou favoráveis – do ensino a distância sobre a formação dos estudantes estão atrelados ao perfil de professores e alunos e também à dinâmica dos próprios cursos escolhidos por cada um deles. Estudar em casa requer “maturidade do aluno quanto à sua organização, determinação e interesse pelo curso para que não haja prejuízo no processo de aprendizado. A participação do aluno se torna ainda mais importante, tem um protagonismo ainda maior do que no ensino presencial”, afirma Tiago Guimarães, diretor do Centro Universitário Academia (UniAcademia) de Juiz de Fora e mestre em educação. Segundo ele, para certos cursos, o sistema remoto não traz muitas dificuldades, enquanto para outros sim. E para não eternizar lacunas e seus consequentes efeitos na disputa por uma vaga no mercado de trabalho, é preciso cobrar das instituições um nivelamento na volta ao ensino presencial, defende, por sua vez, Flávio Sousa, diretor acadêmico e assessor de direção da Faculdade Arnaldo, em Belo Horizonte.

“Em cursos como engenharia de software, os alunos se adaptaram muito bem a esse processo porque é a área deles, a tecnologia é aquilo que eles estão estudando. Outros, como a psicologia, precisam mais do fator humano, do relacionamento no dia a dia, que são grandes vantagens do ensino presencial, diz Tiago Guimarães.

“Então, primeiro: qual é o curso? Segundo: qual é o perfil? Terceiro: qual a maturidade para o processo de ensino que a pessoa tem? Quarto: como ela tem sua organização? Todos esses são fatores que contribuem”, enumera. Para os que não se adaptam, a consequência imediata é a perda da qualidade da formação e, no futuro, prejuízos no mercado de trabalho, destaca.

Flávio Sousa concorda que há diferenças no impacto sobre o aprendizado a depender do curso. Ele avalia que o prejuízo maior é dos alunos matriculados nos cursos que exigem formação prática. “Odontologia, enfermagem, medicina veterinária, por exemplo, seguramente, se não houver nenhuma adaptação, esses profissionais precisarão ser nivelados na própria instituição para alcançar um patamar aceitável de formação”, alerta. E dá o exemplo da faculdade onde trabalha, que, segundo ele, não deixou os alunos desamparados. “Tentamos suprir essa necessidade não deixando o aluno sem aula prática. Se ele ficasse completamente isolado e sem prática, não faria sentido algum ter aula remota. No caso da odontologia, o formando precisa necessariamente estar em uma cadeira de dentista, aprendendo a anestesia, a fazer restauração etc. Não adianta explicar isso teoricamente para ele.”

“Para essas profissões, cursos com a formação baseada mais na prática, seguramente as instituições precisam se preocupar com um nivelamento porque o mercado vai cobrar um nível de excelência, e talvez esse profissional formado nesse período (de pandemia) vai ter uma lacuna”, reforça.

Os próprios alunos que se sintam prejudicados com o aprendizado devem solicitar esse nivelamento às instituições, para que haja identificação e superação de gaps dentro do período da graduação, defende. Mas não devem ficar à mercê da situação. É necessário que cada aluno insista muito no aprendizado autodirigido, fazendo sua própria trilha. Para isso, existem diversas plataformas e acessos, inclusive gratuitos. “Se a pessoa tiver o mínimo de repertório, vai saber identificar e suprir lacunas”. Para cursos de viés mais prático a saída é solicitar às instituições de ensino que abram horários complementares dos laboratórios para que se aperfeiçoem naquilo que estão inseguros, com professores, monitores”, defende.

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