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Estado de Minas

Startups inovam no combate ao desperdício

Empresas iniciantes do Reino Unido produzem moscas que devoram quantidades colossais de comidas estragadas. Suas larvas são transformadas em ração para alimentar aves e peixes


postado em 20/11/2018 06:00 / atualizado em 20/11/2018 08:26

 

Quantidade de comida jogada fora seria suficiente para alimentar todos os 800 milhões de famintos do mundo quatro vezes (foto: TV Brasil/Divulgação 29/10/13 )
Quantidade de comida jogada fora seria suficiente para alimentar todos os 800 milhões de famintos do mundo quatro vezes (foto: TV Brasil/Divulgação 29/10/13 )

São Paulo – No final de 2018, 4,3 bilhões de toneladas de alimentos serão produzidos no mundo. Desse total, 1,3 bilhão irá para o lixo, segundo estimativas da Organização das Nações Unidos para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Embora a própria FAO reconheça que o número possa conter alguma imprecisão (há tantas variáveis envolvidas, do tamanho do PIB às tecnologias de produção, entre inúmeras outras, que é impossível cravar um indicador exato), os especialistas concordam que cerca de 30% dos alimentos, de qualquer parte do planeta, são desperdiçados ou se perdem de alguma forma.

Algumas simples comparações dimensionam o problema. A cada ano, o mundo joga fora 20% de toda a carne produzida, o equivalente a 75 milhões de vacas, 30% dos peixes, algo como 3 bilhões de salmões, e 45% das frutas, mais ou menos 3,7 trilhões de maçãs. Estudos da FAO mostram que 24% de todas as calorias prontas para consumo jamais cumprem o seu destino. Ainda mais chocante: a quantidade seria suficiente para alimentar todos os 800 milhões de famintos do mundo – e não uma, mas quatro vezes.

Do ponto de vista financeiro, o desperdício é uma tragédia. Os alimentos eliminados valem aproximadamente US$ 1 trilhão. Para ficar bem claro o que isso significa: todos os anos, um montante semelhante à metade do PIB do Brasil acaba na pilha de compostagem. Apenas para produzir a quantidade colossal de comida desperdiçada, gastam-se US$ 172 bilhões em água e ocupa-se uma área equivalente a todo o México. Sob qualquer ângulo que se analise a questão, o resultado parece óbvio: a redução do desperdício é vital para o futuro do planeta e a sobrevivência dos humanos.

O tema começou a ser debatido com seriedade em meados dos anos 90, quando preocupações ambientais ganharam força. Mas só agora, com a chegada de novas tecnologias, é que o desperdício passou a ser combatido de forma mais efetiva. De acordo com estimativas da AgFunder, gestora de recursos na área agrícola, desde 2015 investidores despejam cerca de US$ 100 milhões por ano em startups que desenvolvem alternativas capazes de conter os detritos alimentares.

A boa notícia é que o dinheiro está sendo bem usado. Poucas fronteiras empresariais têm apresentado espectro tão grande de inovações, e com resultados concretos para justificar o volume de recursos aplicados.

Na Europa e nos Estados Unidos há uma corrida no ambiente acadêmico e empresarial para criar tecnologias de ataque ao desperdício. No Reino Unido, a startup Entomics, criada há 3 anos por quatro alunos de biologia e engenharia da Universidade de Cambridge, irá lançar no mercado um projeto inusitado.

Para os jovens mentores da empresa, a melhor maneira de eliminar a comida que sobra nos supermercados e restaurantes é oferecê-las a uma pequena criatura: moscas. Parece asqueroso, mas o sistema tem se revelado eficiente. É fácil entender como a coisa funciona. As larvas de moscas são comedoras vorazes e podem ingerir quantidades enormes de alimentos prestes a estragar, ou mesmo podres. Ao fazer isso, elas eliminam 95% do volume da comida e a metabolizam em proteínas e gorduras. Bem nutridas, e carregadas de proteína absorvida do lixo, essas larvas se transformam em ração para alimentar aves, peixes e animais de estimação.

Segundo Matt McLaren, um dos empreendedores por trás da ideia, a iniciativa tem potencial para provocar uma pequena revolução no planeta. “Asseguro que é um dos métodos mais eficientes e seguros para eliminar detritos alimentares”, disse ele a uma TV britânica.

Também inglesa, a Fruit Spare lida com os resíduos de maneira mais saborosa. Restos de frutas como peras e maçãs são transformados em chips crocantes. A empresa compra de fazendeiros locais alimentos que seriam descartados porque não atendem aos critérios rigorosos, mas muitas vezes injustificáveis, de consumo das pessoas. Em geral, as frutas são rejeitadas por motivos fúteis: manchas causadas por fenômenos climáticos (granizo, geada), descoloração (resultado de chuvas irregulares), formato ou tamanho errados (que se devem aos desígnios da natureza). Para os fazendeiros, trata-se de ótimo negócio vender o que seria jogado no lixo.

Para a Fruti Spare, é também uma oportunidade de fazer dinheiro. As frutas descartadas passam por um processo de secagem, são cortadas em fatias finas e desidratadas até virar chips. Desde 2016, quando foi criada, a Fruit Spare transformou centenas de toneladas de lixo em alimentos saudáveis que já ocupam as prateleiras de grandes redes de supermercados da Inglaterra.

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