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Estado de Minas EFEITOS DANOSOS

A pandemia de COVID-19 e o declínio da saúde mental

Extensão por tempo indeterminado da crise sanitária, ausência de plano de vacinação rápida e cenário de crise política acentuado tornam o sofrimento constante


22/04/2021 08:33

Operação policial em local de aglomeração no interior de São Paulo(foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP)
Operação policial em local de aglomeração no interior de São Paulo (foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP)


Ano passado, no início da pandemia de COVID-19, vários especialistas previram um aumento considerável no número de diagnósticos de transtornos psiquiátricos, especialmente depressão e ansiedade.

Entretanto, um artigo publicado no periódico Psychological Medicine em janeiro de 2021, analisando 25 estudos com aproximadamente 72 mil pessoas, revelou que o impacto psicológico da pandemia foi relativamente baixo e heterogêneo. O estudo apontou ainda que a maioria das pessoas tem se revelado bastante resiliente aos efeitos da pandemia. 

No entanto, pelo menos no Brasil, iniciamos o segundo ano de pandemia sem sinais de melhora. Pelo contrário. O número de mortes diárias atingiu recordes por dias seguidos, chegando a mais de 4 mil mortos por COVID-19 em um único dia. O sistema de saúde de todo o país demonstra sinais de colapso, com filas de espera para ocupar leitos de UTI falta de sedativos para intubar pacientes

E o governo federal? Bem, segue sua estratégia de imobilismo negacionista e demagógico. Diante de uma crise sanitária e humanitária sem precedentes, o presidente da república anunciou mas um ministro da saúde, o quarto desde que assumiu a presidência, não se programou para a compra antecipada de vacinas e parece estar mais interessado em contemporizar com adversários políticos que efetivamente governar e buscar mecanismos para solucionar, ou ao menos mitigar, o caos que vivemos.

Diante desse cenário, será mesmo que o impacto psicológico da pandemia é apenas residual? Será que não há um limite para a nossa resiliência diante de situações graves e, aparentemente, sem previsão para terminar? A pandemia nos jogou em situações-limite, em que situações como o medo da morte, nossa ou de entes queridos, a perda dos espaços de socialização e a ausência de válvulas de escape, associados à instabilidade econômica e política se tornaram a regra, e não a exceção. Por isso acredito que os efeitos da pandemia sobre nossa saúde mental podem ser maiores e mais prolongados que esses estudos iniciais nos levam a crer.

Ademais, a crise sanitária acentuou desigualdades e vulnerabilidades sociais, deixando alguns de nós ainda mais expostos ao adoecimento, físico e psíquico. Mulheres foram sobejamente afetadas pela pandemia. Coube a elas a tarefa de cuidar da educação dos filhos e da casa, na maioria dos casos. Além disso, os setores de comércio e serviço foram os mais fortemente atingidos pela diminuição das atividades econômicas e pelo lockdown. Trata-se dos setores que mais empregam mulheres e que terão mais dificuldade de se reestabelecer completamente pós-pandemia. Por essa razão, muitas mulheres deixarão permanentemente o mercado de trabalho, pois a associação entre a demora no retorno das atividades de cuidado, como escolas, creches, e a lentidão da retomada econômica pode ser fatal para elas. 

Pessoas negras também foram severamente afetadas pela pandemia. Homens negros foram os que mais morreram pela COVID-19 no país, mulheres negras, que são maioria das trabalhadoras nas áreas de conservação e limpeza, contraíram COVID em uma proporção muito maior do que outros grupos populacionais, Além disso, como já é de conhecimento geral, há uma alta correlação entre cor da pele e classe social no Brasil, o que faz com que pessoas negras tenham menos acesso a redes sociais de proteção, estejam envolvidas em atividades profissionais consideradas essenciais, tenham que se deslocar pela cidade utilizando transporte público lotado e, finalmente, tenham acesso precário ao sistema de saúde. Até na hora da vacinação negros estão em desvantagem, já que até agora brancos estão sendo vacinados em uma proporção maior que negros.

Ressalto ainda o quanto a trabalho invadiu as nossas casas, fazendo com que a distinção entre espaço de lazer/descanso e espaço profissional fosse completamente borrada. Profissionais em home office trabalham longas horas, encontram-se em estado permanente de exaustão, drenados por longas reuniões via zoom, tarefas que se avolumam e um sentimento de frustração por não produzirem o suficiente, além do receio de perderem seus empregos em decorrência da crise econômica.

Por conta disso, não acho exagero afirmar que a pandemia está diretamente relacionada ao declínio da saúde mental de parcela significativa da população. A extensão, por tempo indeterminado de uma crise sanitária que deveria ser temporária, a ausência de um plano de vacinação rápida e um cenário de crise política acentuado e permanente torna nosso sofrimento constante. O convívio prolongado com a pandemia, e o inevitável olhar comparativo para com países que estão voltando aos poucos à normalidade, tem grande potencial para debilitar nossa saúde mental.

Mas, o que fazer diante de tal diagnóstico? Do ponto de vista individual e interpessoal acredito que seja necessário maior empatia uns com os outros, maior cuidado no trato pessoal e entendimento de que essa circunstância atípica pode nos afetar de maneiras imprevisíveis.  Faz-se importante também fomentar redes de apoio mútuo com amigos, colegas, buscar atividades de lazer que tragam satisfação, realizar atividades físicas, mesmo em casa, procurar descansar e praticar o ócio sem culpa. Evitar o consumo excessivo de álcool e outras drogas, que podem ter o efeito de potencializar o sofrimento, também é importante.

Em relação ao âmbito político é essencial organizar um planejamento de atenção à saúde mental, pois até recentemente essa dimensão de cuidado com a saúde foi relegada ou à uma dimensão de escolha individual ou de ou foi estigmatizada. Os equipamentos de atenção psicossocial públicos trabalham normalmente acima da sua capacidade e com número reduzido de profissionais, além de terem foco mais direcionado a situações de crise. Se não houver uma reformulação desses formatos de atendimento à saúde mental, com sua ampliação, diversificação profissional e cuidado continuo para a população pós-pandemia, corremos o risco de, outra vez, acentuar desigualdades e vulnerabilidades diante de todo o sofrimento e incertezas causadas durante a crise sanitária.

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