ÓCULOS INTELIGENTES

Privacidade em debate: vídeos de óculos da Meta podem treinar IA

Investigação aponta que vídeos gravados pelos óculos da Meta podem ser analisados por humanos no treinamento de IA; entenda como o dispositivo funciona e o que

Publicidade
Carregando...

Uma reportagem do jornal sueco Svenska Dagbladet gerou uma onda de questionamentos sobre os óculos inteligentes Ray-Ban Meta. Os jornalistas descobriram que os vídeos capturados pelos óculos inteligentes podem ser analisados por revisores humanos envolvidos no treinamento de sistemas de inteligência artificial da Meta Platforms.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

A reportagem ouviu mais de 30 trabalhadores de uma empresa terceirizada localizada em Nairóbi, no Quênia, responsáveis por classificar conteúdos usados para aprimorar modelos de IA. Segundo os relatos, parte do material inclui registros do ambiente ao redor dos usuários, alguns envolvendo situações consideradas privadas ou sensíveis, como nudez, sexo, movimentações bancárias e consultas médicas.

De acordo com a investigação do Svenska Dagbladet, o material analisado é composto por clipes curtos registrados pelos dispositivos. Os profissionais que treinam a IA atuam como anotadores de dados, função responsável por assistir aos vídeos e classificá-los para ajudar a melhorar sistemas de reconhecimento visual.

Os trabalhadores entrevistados afirmam que o conteúdo inclui registros variados do cotidiano dos usuários, como interações sociais, atividades domésticas e deslocamentos em espaços públicos. 

Alguns deles relataram ter visto cenas consideradas delicadas ou íntimas, como pessoas em ambientes privados ou momentos de vulnerabilidade. Segundo os depoimentos, isso ocorre porque os dispositivos capturam o ambiente ao redor do usuário quando determinadas funções são ativadas.

A investigação também chama atenção para outro aspecto da indústria de inteligência artificial: o trabalho humano por trás dos sistemas automatizados. Segundo o jornal sueco, empresas terceirizadas contratam trabalhadores para classificar imagens, vídeos e áudios utilizados no treinamento de algoritmos. 

Esses profissionais analisam o conteúdo manualmente, identificando objetos, pessoas e situações para melhorar o desempenho dos modelos de IA. Especialistas apontam que grande parte desse trabalho ocorre em países de renda mais baixa, onde empresas de tecnologia contratam equipes para processar grandes volumes de dados.

A Meta Platforms informou que processa mídias capturadas pelos óculos de acordo com seus termos de uso e política de privacidade. Segundo a empresa, quando os recursos de inteligência artificial são utilizados, o conteúdo pode ser processado conforme as regras do serviço. 

A Meta também afirma que parte das interações pode ser analisada automaticamente ou manualmente para melhorar seus sistemas. A política de privacidade da companhia indica que dados podem ser compartilhados globalmente entre escritórios, data centers e parceiros, já que a empresa opera em escala internacional.

Como funcionam os óculos inteligentes da Meta?

Os RayBan Meta Smart Glasses foram desenvolvidos pela Meta em parceria com a EssilorLuxottica, dona da marca RayBan. O dispositivo permite tirar fotos e gravar vídeos por meio de um botão físico ou por comando de voz. Basta dizer “hey Meta”, que o dispositivo ativa a câmera. 

A empresa afirma que não há gravação contínua. Ou seja, as imagens são capturadas apenas quando o usuário inicia manualmente um registro ou ativa recursos de inteligência artificial.

Para utilizar o dispositivo, os óculos precisam ser conectados ao smartphone por meio do aplicativo Meta View, que permite configurar funções, transferir fotos e vídeos e acessar recursos de inteligência artificial integrados.

Mesmo assim, como a câmera fica integrada à armação, as gravações podem incluir pessoas próximas ao usuário que não sabem que estão sendo filmadas.

Chegada ao Brasil

Os óculos inteligentes da Meta começaram a chegar oficialmente ao mercado brasileiro no final de 2025. Os RayBan Meta Smart Glasses passaram a ser vendidos no país em modelos como Wayfarer, Skyler e Headliner, com preço sugerido de cerca de R$ 3.299.

Entre as principais funções estão câmera de 12 megapixels, gravação em 3K, áudio para chamadas e integração com assistentes de inteligência artificial. O dispositivo também permite enviar mensagens e realizar transmissões ao vivo em aplicativos como WhatsApp, Instagram e Messenger.

A advogada Aryell Lustosa, especialista em direito digital, destaca que o caso evidencia desafios jurídicos relacionados ao uso de dispositivos vestíveis com câmera. Isso porque não existe uma legislação específica no Brasil para regular os chamados wearables, mas isso não significa ausência de proteção jurídica. Segundo ela, normas já existentes garantem proteção à privacidade e à imagem das pessoas.

“A Constituição Federal protege expressamente a intimidade, a vida privada e a imagem das pessoas. O Código Civil proíbe o uso da imagem alheia sem autorização quando isso puder afetar a honra ou servir a fins comerciais, e declara a vida privada inviolável. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), talvez o instrumento mais diretamente aplicável, classifica imagem como dado pessoal, e dado sensível quando associada à localização ou identificação biométrica, exigindo base legal para sua coleta”, destaca.

Para a especialista, um dos principais problemas é a possibilidade de gravação discreta. “Diferente de uma câmera de segurança claramente sinalizada ou de um celular visivelmente empunhado, os óculos inteligentes gravam sem que o interlocutor perceba. A gravação acontece na normalidade da conversa, no calor do encontro social. Isso contraria frontalmente a exigência de consentimento da LGPD e a proteção constitucional à intimidade. O Brasil precisa avançar em dois fronts: regulamentação específica e educação da sociedade. A ANPD tem competência para preencher parte desse vácuo, e o Congresso, que já debate reconhecimento facial e câmeras em espaços públicos, perderia uma boa oportunidade se não incluísse os wearables na pauta. Até lá, a ausência de lei específica não é ausência de direito. É um convite para que o ordenamento que já existe seja aplicado com inteligência, e ele, felizmente, já oferece ferramentas suficientes para isso”, pontua.

Privacidade

A advogada explica que o contexto da gravação é determinante para avaliar se o uso do dispositivo é legal. Em locais com expectativa clara de privacidade, como banheiros, vestiários ou residências, por exemplo, a captação de imagens sem consentimento pode configurar violação de direitos.

Mesmo no espaço público, há restrições para a captação. “O problema está no uso cotidiano e indiscriminado: gravar interações corriqueiras, focar em indivíduos identificáveis sem que saibam, capturar áudio de conversas privadas. Quanto mais a captação se aproxima de dados biométricos, como reconhecimento facial, mais restrita fica a base legal para justificá-la”, exemplifica.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Ela também alerta sobre o destino desse conteúdo. “Publicar nas redes sociais sem autorização pode violar o Código Civil e, em situações envolvendo crianças e adolescentes, acionar proteções ainda mais rigorosas do ECA”, alerta. 

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay