Políticos atribuíram envio de emendas alvo da PF a Eduardo Cunha
Investigação da PF aponta R$ 6,1 milhões destinados a municípios mineiros; prefeitos atribuíram recursos ao ex-deputado, que nega ter indicado emendas
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Municípios mineiros beneficiados com emendas parlamentares para a área da saúde atribuíram publicamente ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos) a destinação dos recursos, apesar de o ex-deputado estar sem mandato desde 2016.
As manifestações de prefeitos e lideranças municipais contrariam a versão apresentada por Cunha, que afirma ter feito apenas "sugestões" ao partido. Segundo investigação da Polícia Federal, porém, ele foi o verdadeiro solicitante de R$ 6,15 milhões em emendas destinadas a 29 cidades de Minas.
A atuação do ex-deputado é alvo de investigação da PF e motivou decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou o bloqueio de R$ 6,1 milhões em bens de Cunha e suspendeu a execução das emendas sob investigação. Para Dino, há indícios de que o ex-parlamentar exercia influência direta sobre a distribuição dos recursos, mesmo sem exercer mandato.
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Em Varjão de Minas, no Noroeste do estado, por exemplo, o prefeito Rafael de Toni (PL) divulgou uma relação de "recursos conquistados" pelo município entre 2025 e 2026 e atribuiu a Eduardo Cunha a destinação de R$ 590 mil para a atenção primária à saúde. O valor foi apresentado oficialmente pela Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados três dias antes de Cunha participar de um encontro político no município, em outubro de 2025.
Na publicação, Cunha foi identificado como "deputado federal (MDB-RJ)", cargo que deixou após ter o mandato cassado em 2016. Com os R$ 590 mil, apareceu como o quinto maior responsável pelo envio de recursos ao município. O valor é o mesmo que aparece em uma planilha encontrada pela PF que contém os R$ 6,1 milhões indicados pelo ex-presidente da Câmara. A Prefeitura de Varjão de Minas foi procurada pelo Estado de Minas e ainda não havia respondido até a publicação desta reportagem.
“Junto com Eduardo Cunha”
Situação semelhante ocorreu em Piau, na Zona da Mata. O presidente da Câmara Municipal, Mica Carvalho (MDB), afirmou em vídeo ter articulado, "juntamente com Eduardo Cunha", a destinação de R$ 300 mil para a saúde do município - o vídeo foi apagado posteriormente. Segundo a investigação da PF, o recurso foi aprovado pela Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados em dezembro de 2025. No papel, a autoria da emenda é assinada pelo deputado federal Gilberto Abramo (Republicanos). A reportagem procurou a Câmara Municipal de Piau e aguarda retorno.
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Emendas e expansão das rádios
Conforme apuração do jornal O Globo, o envio de recursos também coincide com municípios onde Cunha adquiriu emissoras de rádio. Um dos casos é Guarani, na Zona da Mata, onde o ex-presidente da Câmara adquiriu a antiga Rádio Tropical FM 92,7, rebatizada como Rádio Maravilha. Em dezembro, o prefeito Emerson Patrick (Republicanos) anunciou nas redes sociais o recebimento de uma emenda de R$ 250 mil para o município "através da bancada mineira".
Embora não tenha citado Cunha, o repasse integra a planilha apreendida pela Polícia Federal que relaciona os R$ 6,15 milhões que, segundo a investigação, foram direcionados pelo ex-deputado.
Estratégia semelhante ocorreu em Raul Soares, também na Zona da Mata. O município recebeu R$ 472,9 mil em recursos investigados e, no mesmo período, Cunha adquiriu a Rádio Sociedade Entre Rios, com o objetivo de expandir a transmissão para Ipatinga e Caratinga.
“Arranjo decisório paralelo”
Na decisão que determinou o bloqueio dos bens, Flávio Dino afirma que as investigações identificaram um esquema informal de definição das emendas fora dos canais institucionais da Câmara.
Segundo o ministro, mensagens apreendidas mostram que Cunha administrava uma espécie de reserva informal de recursos destinada especificamente a municípios mineiros, definindo valores e alterando cidades beneficiadas conforme interesses políticos.
Entre os municípios listados, Varjão de Minas recebeu o maior volume de recursos apontado pela investigação, seguido por Raul Soares, Lajinha e Piau. Com base em planilhas apreendidas com Mariângela Fialek e em dados do Portal da Transparência, a investigação identificou repasses destinados aos seguintes municípios mineiros:
- Aguanil – R$ 150 mil;
- Aracitaba – R$ 150 mil;
- Belmiro Braga – R$ 200 mil;
- Cambuquira – R$ 100 mil;
- Carmo do Cajuru – R$ 277.020;
- Conceição do Rio Verde – R$ 100 mil;
- Espera Feliz – R$ 169.070;
- Ewbank da Câmara – R$ 100 mil;
- Goianá – R$ 103.939;
- Guarani – R$ 250 mil;
- Itamonte – R$ 250 mil;
- Lajinha – R$ 330.930;
- Martinho Campos – R$ 250 mil;
- Mathias Lobato – R$ 100 mil;
- Matias Cardoso – R$ 250 mil;
- Novo Oriente de Minas – R$ 250 mil;
- Oliveira Fortes – R$ 46.061;
- Paiva – R$ 200 mil;
- Pedrinópolis – R$ 60.378;
- Piau – R$ 300 mil;
- Poté – R$ 250 mil;
- Raul Soares – R$ 472.980;
- Rio Preto – R$ 200 mil;
- Santa Rita do Sapucaí – R$ 150 mil;
- Santo Antônio do Aventureiro – R$ 250 mil;
- São João Nepomuceno – R$ 250 mil;
- Três Corações – R$ 150 mil;
- Urucuia – R$ 200 mil;
- Varjão de Minas – R$ 590 mil.
Para o ministro, Cunha atuava como um "agente privado com poderes políticos equivalentes ou até superiores aos de parlamentares em exercício", exercendo influência sobre recursos públicos sem autorização institucional. A decisão também destaca que o ex-presidente da Câmara nunca exerceu mandato por Minas Gerais, apesar de concentrar no estado a destinação das emendas investigadas.
Defesa nega irregularidades
Eduardo Cunha nega ter indicado emendas parlamentares. Segundo o ex-deputado, sua atuação se limitou a apresentar sugestões ao Republicanos. Em entrevista à Rádio Maravilha, emissora da qual é proprietário, disse ter apenas "sugerido ao partido algumas propostas de emendas" e que o líder da bancada acolheu parte delas.
Já à Rádio 98 FM, declarou que "não sou autor de emenda nenhuma, nem posso sê-lo. Sou parte da sociedade, assim como os prefeitos que me procuram e pedem recursos".
Sobre a relação entre as emendas e as rádios, Cunha ponderou que "não têm nada a ver" e sustentou que já pretendia transferir as emissoras para outras cidades antes da destinação dos recursos. A Polícia Federal, por sua vez, aponta Cunha como o "verdadeiro solicitante da indicação" das verbas e afirma que a utilização do nome de parlamentares nos registros oficiais buscava "escamotear o real interessado", caracterizando, em tese, uma fraude no encaminhamento das emendas.
Leia a nota na íntegra da defesa de Cunha
A defesa de Eduardo Cunha tomou conhecimento, pela imprensa, da decisão divulgada neste domingo e esclarece que, antes da decretação do bloqueio patrimonial, não havia sido intimado, ouvido ou chamado a prestar qualquer esclarecimento no âmbito dessa investigação.
Eduardo Cunha não exerce mandato parlamentar e, portanto, não apresentou, subscreveu ou formalizou nenhuma das emendas mencionadas nas reportagens. Ao contrário. Conforme pode-se observar, elas foram oficialmente apresentadas e indicadas por parlamentares, bancadas ou órgãos legitimados, únicos que possuem competência sobre o processo orçamentário.
Eduardo Cunha sempre pautou sua vida publica pelo compromisso ético e probidade, respeitando as normas legais, inclusive, enquanto exerceu seu mandato parlamentar.
Deste modo, a defesa rejeita a tentativa de equiparar automaticamente a legítima interlocução política ao exercício clandestino de mandato parlamentar.
É igualmente necessário esclarecer que o montante de R$ 6,15 milhões corresponde ao valor global das emendas questionadas, destinadas a municípios ou outros beneficiários públicos, e nem mesmo a decisão imputa recebimento de qualquer vantagem a Eduardo Cunha.
Eduardo Cunha desconhece qualquer irregularidade na tramitação das emendas. Cabe ressaltar que a própria PGR considerou prematuro o bloqueio das contas de Eduardo Cunha.
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A defesa buscará acesso integral à investigação a fim de conhecer o contexto completo dos fatos, exercer o contraditório e impugnar as medidas decretadas.