“O governo de Minas escolheu esse modelo deliberadamente empresarial e não tem diálogo com a comunidade”, afirma Márchel Alcântara, advogado e integrante do movimento “O Biribiri é Nosso!”, sobre o processo de concessão do Parque Estadual do Biribiri, em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, que teve início no início deste ano. A licitação está marcada para ocorrer ainda no segundo semestre deste ano.

Alcântara e outros integrantes do movimento marcaram presença na audiência pública realizada no dia 4 deste mês questionando, entre outros pontos, a falta de comunicação com a comunidade local e os impactos ambientais que a concessão poderia causar.

De acordo com a proposta do governo, o contrato com uma empresa privada teria validade de 30 anos nos quais serão investidos R$ 38 milhões, sendo R$ 3,6 milhões em infraestrutura, R$ 1,5 milhão em manutenções e reparos.

A entrada do parque, que hoje é gratuita, passaria a custar R$ 30 por pessoa e R$ 10 pelo estacionamento. O edital propõe a concessão de 30% dos 17 mil hectares do parque, com possibilidade de ampliar a área sem necessidade de consulta da população. 

“O problema já começa nos estudos técnicos de viabilidade ambiental e de viabilidade econômica. Embora pareça razoável, não é feito um estudo de viabilidade socioambiental ou socioeconômico, então o foco não é sobre como essa relação com a com a comunidade ou com o meio ambiente vai ficar equilibrada. O estudo econômico é meramente destinado à lógica do lucro”, argumenta Alcântara. O advogado explica ainda que não foram feitos impactos do aumento de visitantes na fauna e flora local. 

Estudo da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) mostra que atualmente o parque recebe uma média de 50 mil a 70 mil visitantes por ano, sendo cerca de 40% deste público composto por moradores de Diamantina. O documento também aponta que os principais desafios enfrentados pela atual gestão do parque é a ocorrência de incêndios, principalmente nos períodos de seca; a contaminação da água e do solo com dejetos humanos, uma vez que não existem banheiros nas áreas das cachoeiras; o acúmulo de resíduos e de lixo nesses locais; e a erosão nas trilhas e nos estacionamentos.

Entretanto, segundo Alcântara, esses pontos não estão detalhados no edital: “Essa gestão seria feita puramente do ponto de vista turístico. Não tem nada relacionado a uma contraprestação ambiental. Então, por exemplo, com a concessão, se o parque inteiro pegar fogo, a empresa concessionária não tem que mexer uma palha para apagar, porque a concessão é limitada à questão da gestão turística”.

Processo de concessão do Biribiri

A concessão do Parque do Biribiri faz parte do Programa de Concessão de Parques Estaduais (Parc) lançado pelo governo estadual em abril de 2019. De acordo com Alcântara, a população vê com preocupação a chegada do Parc à Diamantina. Ele conta que uma audiência pública realizada pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), no dia 24 de fevereiro deste ano no Campus II da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) contou com forte participação popular contrária à questão. 

“Marcaram a audiência pública uma semana depois do carnaval, sem dar a devida divulgação, fora da cidade em um dia de semana. Então, tudo foi feito para não ter a participação popular. Mas fizemos a divulgação e conseguimos lotar, tinha gente até fora da sala”, relata o advogado. 

Os presentes manifestaram que a concessão representaria um processo de privatização que alteraria a função social do parque. A audiência, porém, foi interrompida por uma queda de energia, só sendo retomada cerca de uma hora depois, o que levou boa parte do público a se retirar. 

No mês seguinte aconteceu uma visita técnica da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da ALMG ao parque. Na ocasião, a deputada Beatriz Cerqueira (PT) enfatizou que, além das atividades turísticas, o parque possui uma relevante função socioambiental de pertencimento para os habitantes de Diamantina e que os impactos da concessão deveriam respeitar a vontade dos moradores do município. A parlamentar também pontuou que o montante previsto para a concessão do parque é compatível com a capacidade financeira do estado, o que tornaria dispensável a concessão à iniciativa privada.

Também durante a visita técnica, os representantes do Movimento “O Biribiri é nosso!” entregaram à comissão um abaixo-assinado com mais de 4.500 assinaturas contra a concessão do parque.

Em abril uma reunião foi organizada pela Comissão de Participação Popular, a pedido do deputado Marquinho Lemos (PT), na qual foram debatidos os obstáculos impostos ao diálogo com os moradores sobre a questão. 

Por fim, durante uma audiência pública da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da ALMG realizada em 4 de setembro para tratar sobre o tema, as deputadas Bella Gonçalves e Beatriz Cerqueira, ambas do PT, sugeriram a criação de uma mesa de diálogo, formada pela sociedade, movimentos sociais, prefeitura, parlamentos estadual e municipal, e universidades de Diamantina. 

Na reunião, Beatriz Cerqueira voltou a enfatizar que a concessão não é necessária do ponto de vista financeiro: “Há uma decisão política de não realizar as melhorias para forçar a concessão sob a justificativa de falta de recursos. O governo criou cargos para ampliar as escolas Tiradentes, então quando quer, consegue. O parque cabe no orçamento do estado”.

O que diz o governo?

Ao Estado de Minas, o governo de Minas afirmou que nesse modelo o estado mantém a titularidade e a responsabilidade pela unidade de conservação e pela gestão ambiental do parque, enquanto a futura concessionária ficará responsável pela operação e prestação dos serviços turísticos previstos no contrato.

“A requalificação da unidade deverá contribuir para o fortalecimento do turismo e das comunidades locais, com potencial de geração de novos negócios e empregos e melhoria dos serviços oferecidos aos visitantes. Do ponto de vista ambiental, a estruturação do parque e o aprimoramento do ordenamento da visitação contribuirão para fortalecer a conservação da unidade", diz a nota. 

Segundo o texto, "estão previstos mecanismos de controle e orientação dos visitantes, contribuindo para prevenir degradação de áreas e atrativos, uso inadequado de trilhas, descarte irregular de resíduos, churrascos e acampamentos em locais não autorizados, presença de animais domésticos e uso inadequado de aparelhos de som”.

O governo diz, ainda, que os moradores de Diamantina estarão isentos da cobrança de ingresso e que a cobrança será feita apenas a turistas para acesso às cachoeiras da Sentinela e dos Cristais. Assim, os demais atrativos do Parque Estadual do Biribiri permanecerão com acesso gratuito.

Sobre os questionamentos sobre a falta de participação popular, o Instituto Estadual de Florestas (IEF) informou que mantém diálogo constante com a comunidade da região, sendo o projeto apresentado a representantes dos Poderes Executivo e Legislativo de Diamantina, em audiências públicas com a sociedade civil, bem como tendo realizado consultas públicas a respeito. 

A reportagem também procurou a Prefeitura de Diamantina, mas não obteve resposta.

Outras concessões 

O Parc é coordenado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) e executado com a participação das secretarias de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad); de Infraestrutura e Mobilidade (Seinfra); e de Cultura e Turismo (Secult) e apoio do BDMG. O programa tem como objetivo firmar parcerias com o setor privado e o terceiro setor para a gestão de áreas protegidas, a fim de atrair investimentos e ampliar recursos humanos e financeiros a serem empregados na conservação ambiental. Ao todo, 20 unidades de conservação fazem parte do projeto. 

Inicialmente o governo previa concluir todas as licitações previstas no Parc até o final de 2022. Entretanto, até o momento, somente cinco das unidades de conservação passaram pelo processo: Parque Estadual do Sumidouro, entre Pedro Leopoldo e Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, os Monumentos Naturais Gruta Rei do Mato e Peter Lund, respectivamente em Sete Lagoas e Cordisburgo, Região Central de Minas, e os Parques Estaduais do Itacolomi, localizado entre Ouro Preto e Mariana, e do Ibitipoca, nos municípios de Lima Duarte e Santa Rita do Ibitipoca, na Zona da Mata. 

O primeiro grupo a ser concedido pelo estado foi a Rota das Grutas Peter Lund, que engloba o Parque Estadual do Sumidouro e os Monumentos Naturais da Gruta Rei do Mato e Peter Lund. O processo teve início em dezembro de 2020, com o lançamento do edital, e finalizado em março de 2021. 

O Consórcio Gestão Parques MG – Urbanes – B21 fechou o contrato de licitação no valor de R$ 294,6 milhões e validade de 28 anos, se tornando responsável pelo investimento de R$ 12 milhões em melhorias estruturais e reformas dos espaços que integram a Rota. Segundo o governo de Minas na época, o contrato permitiria uma economia de R$ 4 milhões por ano aos cofres públicos.

Em dezembro de 2022, foi a vez dos parques estaduais do Itacolomi e do Ibitipoca serem concedidos à iniciativa privada. No leilão realizado na sede da B3 em São Paulo, a Parques Fundo de Investimento e Participações em Infraestrutura conquistou a concessão pelo valor de R$ 3,5 milhões. O contrato de 30 anos prevê investimentos na requalificação, gestão e manutenção dos parques, assim como a exploração das atividades de visitação e ecoturismo ao longo de 30 anos. 

Entraves nas concessões

Em março de 2022 o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) entrou com uma Ação Civil após identificar ilegalidades no processo de Concessão dos parques estaduais de Ibitipoca e do Itacolomi. As medidas foram tomadas após o IEF se recusar em assinar o ajustamento de conduta proposto na época.

Os questionamentos apresentados em relação ao Parque de Ibitipoca dão conta da necessidade de um estudo técnico que ateste a segurança quanto à instalação de estruturas para lazer. Para o MPMG, faltou também um amplo debate com as comunidades no entorno, corrigir as irregularidades no processo de alteração do Plano de Manejo do parque e ainda sanar os prejuízos ao erário público diante de brechas no contrato de concessão. O Estado de Minas entrou em contato com o MPMG para saber a atual situação da ação, mas, até o momento, não obteve resposta. 

Em outubro do mesmo ano, moradores da Vila de Conceição do Ibitipoca, próximo ao Parque Estadual do Ibitipoca, fizeram um protesto contra a privatização do parque. Segundo Fred Fonseca, que integrava o Grupo em Defesa de Ibitipoca, apontou que havia problemas nos moldes em que foi colocado o edital de concessão do Parque. Eles apontavam que o edital não assegura contrapartidas de investimento na Vila, que pode sofrer ainda mais com a falta de infraestrutura.

“O parque é uma unidade de conservação. Não é espaço para dar lucro e sim preservar o meio ambiente. Não precisa de obras para criar mais atrativos, além dos lindos atrativos naturais que encantam a todos que visitam”, argumentou Fonseca na ocasião. 

Unidades de conservação que fazem parte do Parc:

  1. Parque Estadual do Ibitipoca

  2. Parque Estadual do Rio Preto

  3. Parque Estadual do Rio Doce

  4. Parque Estadual do Sumidouro

  5. Parque Estadual Serra do Rola-Moça

  6. Parque Estadual do Pico do Itacolomi

  7. Parque Estadual do Biribiri

  8. Parque Estadual da Serra do Papagaio

  9. Monumento Natural Peter Lund

  10. Monumento Natural Gruta Rei do Mato

  11. Parque Estadual de Nova Baden

  12. Parque Estadual Mata do Limoeiro

  13. Floresta Estadual do Uaimii

  14. Parque Estadual Serra do Brigadeiro

  15. Parque Estadual do Pico do Itambé

  16. Parque Estadual Serra Nova e Talhado

  17. Parque Estadual da Lapa Grande

  18. Parque Estadual do Pau Furado

  19. Parque Estadual Serra das Araras

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  20. APA Estadual Parque Fernão Dias

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