A Arquidiocese de Belo Horizonte vai incluir o retrato do primeiro padre negro da cidade na galeria oficial de párocos da Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, no Centro. Francisco Martins Dias atuou durante a transição do Arraial do Curral del Rei para a construção da cidade planejada, que, posteriormente, deu origem a BH.
O nome dele permaneceu fora, durante décadas, dos registros oficiais de memória da Igreja Católica na capital mineira. Uma cerimônia para marcar a iniciativa está marcada para terça-feira (27/5).
A proposta de reconhecimento foi apresentada pelo padre Mauro Luiz da Silva à Arquidiocese de Belo Horizonte e busca reparar um apagamento histórico do sacerdote. A motivação veio de uma pesquisa sobre afropatrimônio e patrimônio sacro, desenvolvida por padre Mauro. "No estudo coloco a questão do Largo do Rosário e da capela do Rosário, que atualmente estaria na esquina das ruas Bahia e Timbiras", contou ele.
A investigação levou à localização da igreja e ao cemitério que existia ao redor. "Sou padre há 32 anos e, na pesquisa científica, fiquei querendo entender quem teria sido padre naquela capela. Até que identifiquei o nome: Francisco Martins Dias. Ele era o vigário da matriz, a Igreja da Boa Viagem, e era responsável por cuidar da capela do Rosário", comentou Mauro Luiz.
Até então, a imagem de Francisco ainda era desconhecida. "Comecei a procurar fotos dele, naquela época já existiam câmeras, ele tinha sido diretor do jornal Belo Horizonte, o primeiro da capital", recordou o sacerdote. A descoberta veio então durante um passeio em uma exposição pelo museu Abílio Barreto. "Vi um homem negro, com traje de padre e, quando aproximei, vi o nome dele", acrescentou o sacerdote. A foto a ser exposta na igreja será uma cópia da origem, exposta no museu.
Identidade
Francisco Martins Dias foi o último vigário do antigo Curral del Rei e acompanhou o processo de formação da cidade planejada que deu origem a Belo Horizonte. Ele viveu na capital por dez anos, entre 1892 e 1902, onde participou dos primeiros passos da cidade. Apesar da importância e participação, o nome dele ficou fora, por décadas, dos registros de memória institucional da Igreja Católica em Belo Horizonte.
"Ele era memorialista, escrevia sobre a mudança do município, publicou sobre isso. E não havia nenhuma referência dele na cidade, nenhuma rua com o nome dele, nenhum espaço citando a existência desse homem", manifestou Mauro. O sacerdote disse que teve a trajetória transformada depois da descoberta. "Eu fui uma criança negra, um seminarista negro, um padre negro, sem referência no clero. Descobrir que havia um padre negro, que foi o último pároco do antigo Arraial e que o primeiro pároco da atual capital foi um homem negro, me mudou completamente", afirmou.
Ele ainda destacou que muitos outros personagens negros fundamentais para a história de BH precisam ser retirados do apagamento e silenciamento institucional. "Você não deixa a memória de uma pessoa apagada por 130 anos, isso não é um descuido. Na galeria temos pelo menos 50 padres, agora o retrato dele vai ser incluído", confirmou padre Mauro. A cerimônia de inclusão está prevista para a próxima terça (27/5), na Igreja da Boa Viagem.
Quem foi Francisco Martins Dias?
Filho de Antônio Joaquim Pedro Dias e Mathilde Carolina das Dores, Francisco Martins Dias nasceu em Nova Lima no dia 1º de fevereiro de 1866. Passou pelo processo de ordenamento sacerdotal em Mariana, na Região Central do estado, em 1891 e, então, retornou à sua cidade natal, onde foi o clérigo responsável pela paróquia local até 1894.
No ano seguinte, enquanto se construía Belo Horizonte, foi designado para ocupar o posto de pároco da nova capital de Minas Gerais, onde permaneceu até 1901, quando pediu exoneração do cargo. Ele fundou o primeiro periódico da cidade, onde em forma de crônicas informava a população acerca das obras no Curral Del Rei. As matérias deram origem ao livro "Traços Históricos e Descriptivos de Bello Horizonte".
Dias mudou-se para o município de Araras, em São Paulo, onde viveu entre os anos de 1902 e 1907. No ano seguinte, em 1908, migrou para o Rio de Janeiro, onde viria a passar o restante de sua vida. Foi casado com Maria Helena Costa e Souza, com quem teve dois filhos: Francisco e Helenita.
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Serviço:
Evento: Inclusão da Foto de Padre Francisco Martins Dias na galeria de párocos
Local: Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem – Belo Horizonte
Data: 27 de maio de 2026
Hora: 15 horas às 16 horas
Local do Evento: Lateral da Igreja da Boa Viagem, próximo ao Lavabo da antiga Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem.
