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BH: padre mobiliza fiéis para reformar telhado da Igreja das Santas Pretas

Campanha busca arrecadar R$ 30 mil para preservar patrimônio que une fé, memória negra e arte sacra contemporânea na capital mineira

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Em meio às celebrações pelo próprio aniversário, o padre Mauro Luiz da Silva lançou uma campanha solidária com um objetivo coletivo: arrecadar recursos para reformar o telhado da Igreja das Santas Pretas, localizada no Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos (Muquifu), no Bairro Estrela, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. O valor necessário para a obra é de R$ 30 mil – até agora cerca de R$ 2.500 já foram arrecadados com a ação.

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O aniversariante, que completa 59 anos na próxima segunda-feira (27/4), transformou a data em um gesto de mobilização comunitária diante de um problema estrutural que ameaça diretamente o patrimônio artístico e religioso do espaço.

Diante da ameaça causada pelas infiltrações, a campanha assume um caráter emergencial
Diante da ameaça causada pelas infiltrações, a campanha assume um caráter emergencial Reprodução/Padre Mauro

Segundo o padre, o telhado da capela apresenta falhas que permitem a infiltração de água, causando danos à pintura interna. "O telhado não tem condição mais. Quando chove, a água está escorrendo pelas paredes, danificando a pintura", afirmou. A preocupação vai além da estrutura física: trata-se de preservar um acervo simbólico que narra a história de mulheres negras da comunidade.

Segundo o padre, o telhado da capela apresenta falhas que permitem a infiltração de água, causando danos à pintura interna
Segundo o padre, o telhado da capela apresenta falhas que permitem a infiltração de água, causando danos à pintura interna Reprodução/Padre Mauro

Valores simbólicos e saiba como doar

A campanha divulgada nas redes sociais convida fiéis e apoiadores a contribuírem com valores definidos e simbólicos. A proposta é que cada doação represente uma parte da obra: R$ 59 equivalem a uma telha, número que faz referência à idade do padre; R$ 590 correspondem a um metro quadrado de cobertura; e contribuições de R$ 1 mil são destinadas aos chamados "guardiões do patrimônio". As doações podem ser feitas por meio de Pix, ampliando o alcance da mobilização para além da comunidade local.

  • 1 Telha = R$ 59
  • 1 metro quadrado de telha: R$ 590
  • Guardião do patrimônio: R$ 1 mil 
  • As doações podem ser feitas via Pix: 562.331.756-15

 
 
 
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Mobilização ampliada

De acordo com o religioso, a necessidade de uma campanha mais ampla se deve a uma particularidade administrativa da capela. Embora seja o responsável pelo espaço, o padre não atua diretamente como pároco do território onde a igreja está inserida.

"Sou responsável pela capela, mas não pelo território. Isso limita um pouco a mobilização local, então precisei ampliar a campanha para alcançar mais pessoas", explicou. Essa condição faz com que o público frequentador seja mais restrito, reforçando a importância da divulgação externa para garantir os recursos necessários. Mesmo com os desafios, padre Mauro demonstra otimismo com a adesão inicial. "Começamos há poucos dias e já conseguimos R$ 2.500. Estou achando que está dando certo", afirmou.

Apesar da celebração pelos seus 59 anos de vida ocorrer na próxima segunda, o religioso ressalta que a campanha estará em vigor até a arrecadação total do valor necessário: "A vaquinha irá se estender até conseguirmos o dinheiro para a reforma".

Programação especial une fé, cultura e solidariedade

O ponto alto da campanha será em 27 de abril, quando o padre permanecerá na capela das 9h às 21h, conduzindo uma programação religiosa e cultural. Durante todo o dia, serão rezados os quatro mistérios do Rosário, culminando com uma missa em ação de graças, às 19h.

Além das celebrações, haverá momentos de convivência e partilha. O próprio padre será responsável por preparar o almoço, que inclui sua tradicional galinhada, além de uma opção vegana de moqueca de banana-da-terra. As refeições, ao custo de R$ 30, precisam ser encomendadas previamente.

A programação também inclui o Chá da Dona Jovem, encontro simbólico que remete à história da comunidade, e a apresentação dos resultados da campanha ao final do dia. "Cada telha é uma bênção. Estarei lá rezando o Rosário completo e celebrando o dom da vida. Quem puder, venha rezar comigo e traga sua doação", convidou.

Programação:

  • 9h - Mistérios Gloriosos
  • 12h - Mistérios da Alegria
  • 12h30 - Galinhada do padre e Moqueca de Banana da Terra (R$ 30 - O almoço precisa ser encomendado)
  • 15h - Mistérios Dolorosos
  • 18h30 - Mistérios Luminosos
  • 19h - Missa em Ação de Graças
  • 20h - Chá da Dona Jovem
  • 21h - Apresentação dos resultados da arrecadação

Arte, memória e resistência

O principal motivo da urgência da reforma está na preservação do afresco "A Igreja das Santas Pretas", uma obra de grande relevância artística, histórica e teológica. Localizada no interior da capela do museu, a pintura foi inaugurada em 2018 e ocupa cerca de 110 metros quadrados, resultado de três anos de trabalho dos artistas Cleiton Gos e Marcial Ávila.

A obra se destaca por sua proposta inovadora: reinterpretar cenas bíblicas a partir da realidade de mulheres negras da comunidade da Vila Estrela, no Aglomerado Santa Lúcia. Ao todo, 14 mulheres locais foram retratadas como figuras sagradas, estabelecendo um paralelo entre suas trajetórias e as sete dores e sete alegrias de Maria, mãe de Jesus.

Ao todo, 14 mulheres locais foram retratadas como figuras sagradas, estabelecendo um paralelo entre suas trajetórias e as sete dores e sete alegrias de Maria, mãe de Jesus
Ao todo, 14 mulheres locais foram retratadas como figuras sagradas, estabelecendo um paralelo entre suas trajetórias e as sete dores e sete alegrias de Maria, mãe de Jesus Reprodução/Padre Mauro

Idealizado pelo próprio padre Mauro, o projeto rompe com padrões eurocêntricos da arte sacra tradicional, propondo uma representação do sagrado enraizado na experiência negra e periférica. "O rosto de cada Maria é o rosto de uma vizinha. A gente conta a história bíblica a partir da vida dessas mulheres", explicou.

A pintura também possui forte dimensão pedagógica e política. Além de servir como instrumento educativo para escolas, contribui para a valorização da cultura afro-brasileira e para o enfrentamento do racismo estrutural, em consonância com a Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira.

História construída por mulheres

A capela onde está o afresco é fruto de décadas de mobilização comunitária, especialmente de mulheres negras que, desde os anos 1960, se reúnem com o objetivo de construir um espaço de fé. O projeto só foi concluído em 2008, após anos de esforço coletivo.

Essas mesmas mulheres continuam sendo protagonistas da vida comunitária, mantendo tradições como o Chá da Dona Jovem, encontro que também simboliza resistência, convivência e espiritualidade. "Elas sonharam, construíram e mantêm esse espaço vivo. Agora, ele está em risco", destacou o padre.

Preservar o passado para garantir o futuro

Diante da ameaça causada pelas infiltrações, a campanha assume um caráter emergencial. A deterioração da pintura não representa apenas a perda de uma obra artística, mas o apagamento de uma narrativa construída a partir das vivências de mulheres historicamente invisibilizadas.

"É um apelo pela preservação da memória. Salvar essa pintura é salvar a história dessas mulheres e desse território", afirmou padre Mauro.

A expectativa é de que, ao atingir a meta de arrecadação, a reforma seja iniciada imediatamente, garantindo a proteção do espaço e a continuidade das atividades religiosas, culturais e educativas desenvolvidas no local.

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* Estagiária sob supervisão da estagiária Tetê Monteiro

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