Uma quadrilha especializada em assumir a identidade de vítimas por meio da falsificação biométrica foi alvo da operação Janus, deflagrada pelas polícias civis de Minas Gerais (PCMG) e do Distrito Federal (PCDF). Dois suspeitos – um homem, de 31 anos, e uma mulher, de 33 – foram presos preventivamente no Aeroporto de Brasília enquanto desembarcavam de um voo vindo do Ceará.
Uma terceira integrante do grupo, de 35, é considerada foragida. A investigação aponta que os criminosos utilizavam documentos falsificados para assumir contas bancárias de vítimas, realizar empréstimos, saques e transferências ilegais em diversos estados do país.
As investigações começaram em fevereiro deste ano, após um homem, de 46, morador de Contagem, na Grande BH, descobrir que criminosos haviam assumido o controle de sua conta digital – o prejuízo estimado ultrapassa R$ 100 mil. As prisões foram cumpridas entre os dias 6 e 8 de maio, após mandados de busca e apreensão executados no último dia 1º.
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Como funcionava o golpe?
Segundo a investigação, os criminosos utilizavam documentos falsificados para recadastrar a biometria das vítimas em agências bancárias, bloquear o acesso delas aos próprios aplicativos e realizar saques, empréstimos e movimentações financeiras ilegais em diversos estados do país.
De acordo com o delegado, o golpe começava com a falsificação de documentos pessoais das vítimas, como Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e identidade. Em seguida, os suspeitos compareciam presencialmente às agências bancárias se passando pelos verdadeiros clientes. Eles alegavam ter perdido o celular ou que o aparelho apresentava defeito e solicitavam o recadastramento biométrico.
Com isso, os criminosos conseguiam cadastrar uma nova biometria facial e digital vinculada às contas bancárias das vítimas. Após a alteração, eles baixavam os aplicativos bancários em aparelhos celulares próprios, registravam novos números de telefone e passavam a controlar completamente as contas.
Segundo a investigação, além de impedir o acesso legítimo das vítimas aos aplicativos, o grupo também conseguia bloquear os aparelhos celulares originais dos correntistas, dificultando ainda mais a recuperação das contas. A partir daí, os suspeitos realizavam saques, transferências, empréstimos bancários e até pegavam dinheiro com agiotas em nome das vítimas.
“Eles assumiam a vida da vítima. Faziam saques, empréstimos, pegavam dinheiro com agiotas e causavam um enorme prejuízo financeiro”, afirmou o delegado Alessandro Santa Gema.
O delegado destacou ainda que a ousadia do grupo em comparecer presencialmente às agências bancárias utilizando documentos falsificados chamou atenção da polícia. “Parecia algo despretensioso comparecer presencialmente à agência. Inclusive, nesse caso, o autor tinha características físicas parecidas com as da vítima”.
Apesar disso, justamente o comparecimento presencial ajudou na identificação dos suspeitos. As investigações utilizaram reconhecimento facial, cruzamento de informações bancárias e pesquisas em redes sociais. As imagens registradas em caixas eletrônicos e agências também foram fundamentais.
“Toda vez que eles sacavam dinheiro nos caixas eletrônicos ficava registrada a face deles. Isso ajudou muito a polícia a localizar os autores”, afirmou Santa Gema.
As apurações revelaram que a quadrilha já fez pelo menos seis vítimas em diferentes estados brasileiros. Duas delas são de Minas Gerais. Também há registros de vítimas em Goiás, Tocantins, Ceará e Rio de Janeiro, além de investigações envolvendo o Distrito Federal.
Durante a ação no Aeroporto de Brasília, os policiais apreenderam dois aparelhos celulares supostamente utilizados nos golpes e US$ 8 mil em espécie que estavam com o casal. Os dispositivos serão submetidos à perícia técnica. O casal preso foi encaminhado ao sistema prisional do Distrito Federal e poderá responder pelos crimes de estelionato (Artigo 171), uso de documento falso (Artigo 304) e associação criminosa (Artigo 288) do Código Penal
A próxima etapa da investigação será a extração de dados dos celulares apreendidos para identificar como os suspeitos escolhiam as vítimas, de que forma conseguiam bloquear os aparelhos celulares delas e como funcionava a dinâmica da organização criminosa.
Aumento dos casos
De acordo com levantamento de ocorrências de crimes cibernéticos da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), entre janeiro e dezembro de 2025, Minas Gerais registrou 125.755 ocorrências de crimes cibernéticos, média superior a 344 casos por dia. O volume representa crescimento de 11,32% em relação ao período anterior.
Os números mostram que os golpes virtuais avançam no estado. Apenas os casos de estelionato digital saltaram de 56.668 registros em 2024 para 63.963 ocorrências em 2025, aumento de quase 13% em apenas um ano.
Em 2026, o avanço dos crimes cibernéticos segue acelerado. Entre 1º de janeiro e 12 de maio, Minas Gerais já ultrapassou 43 mil ocorrências de delitos virtuais, média superior a 328 registros por dia, entre eles foram registradas mais de 21 mil ocorrências de estelionato virtual, mantendo a tendência de crescimento das fraudes eletrônicas.
Além do estelionato, a Polícia Civil identificou crescimento em crimes ligados à falsa identidade, apropriação indevida de valores, divulgação de imagens íntimas e invasão de contas digitais.
Segundo a delegada Ingrid Estevam, a tendência é que os golpes virtuais se tornem cada vez mais sofisticados, principalmente os relacionados ao roubo de identidade digital e ao uso fraudulento de biometria bancária, exatamente o modelo utilizado pela quadrilha investigada na operação Janus.
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Diante do aumento das fraudes digitais, a Polícia Civil orienta que clientes bancários fiquem atentos a alterações inesperadas em aplicativos, bloqueios repentinos de acesso, mudanças cadastrais não autorizadas e solicitações de atualização biométrica. Em qualquer suspeita de invasão ou movimentação indevida, a recomendação é procurar imediatamente a instituição financeira e registrar boletim de ocorrência.
