Falta de material reduz doação de plaquetas no Hemominas
Os kits usados na coleta das doações estão em escassez devido a entraves na licitação; a maior parte dos doadores não têm conseguido fazer agendamentos
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Quem tentou doar plaquetas através do Hemominas (Fundação Centro de Hematologia e Hemoterapia de Minas Gerais) nesta semana foi impedido pela falta de kits para coleta nas unidades da instituição. O método de doação por aférese – máquina que separa as placas de sangue do doador, devolvendo os outros componentes (hemácias, plasma, leucócitos) ao corpo – necessita de um material importado que, por estar em período de transição contratual de fornecedores, se encontra indisponível.
“Em razão de questões internas relacionadas ao fornecimento de insumos — uma vez que o kit de coleta para aférese é importado —, nossos agendamentos para esse tipo de doação encontram-se temporariamente suspensos”, essa foi a mensagem que uma pessoa ouvida pela reportagem recebeu ao tentar marcar um horário. “Sou doador regular de plaquetas na Hemominas. Entrei em contato pra agendar a próxima e me mandaram isso”, disse.
O Hemominas não informou a previsão de retorno do atendimento, mas afirmou que a situação do estoque de plaquetas na Fundação, neste momento, encontra-se estável, com estoque suficiente para o atendimento dos hospitais.
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Embora a mensagem enviada aos doadores indique “suspensão”, o Hemominas afirma que a coleta de plaquetas por aférese não foi interrompida oficialmente, mas está fortemente limitada devido à escassez dos kits necessários para o procedimento. Segundo a Fundação, o material é importado, principalmente da Europa, e enfrenta risco de desabastecimento em razão de um “complexo procedimento de licitação”.
Em resposta ao Estado de Minas, a Diretoria Técnica do Hemominas explicou que, diante da redução dos insumos, as coletas por aférese passaram a ser direcionadas e contingenciadas, o que, na prática, impede que a maior parte dos doadores consiga agendar o procedimento. A prioridade, segundo a instituição, é atender demandas consideradas estratégicas e emergenciais.
A aférese é um tipo de doação diferente da coleta de sangue total, mais conhecida pela população. Nesse método, o sangue passa por uma máquina que separa apenas o componente necessário — no caso, as plaquetas — e devolve o restante ao corpo do doador. Isso permite coletar uma quantidade maior de plaquetas em uma única doação, reduzindo o número de bolsas necessárias para tratar um paciente e diminuindo a exposição a múltiplos doadores.
Mesmo com essa limitação, o Hemominas afirma que a demanda por plaquetas e hemácias pode ser suprida, em parte, por meio da doação de sangue total, já que os componentes são separados posteriormente em laboratório. Especialistas, porém, apontam que esse modelo não substitui integralmente a aférese, especialmente para pacientes oncológicos, hematológicos e aqueles que precisam de transfusões frequentes.
O cenário se soma a um período historicamente crítico para os estoques de sangue. Segundo a Fundação, meses de férias, recessos e feriados prolongados costumam registrar queda no comparecimento de doadores, ao mesmo tempo em que a demanda tende a crescer, principalmente por causa do aumento de acidentes.
Atualmente, os estoques estão abaixo do nível considerado ideal. Dados informados pelo Hemominas indicam que, nessa quinta-feira (8), os tipos sanguíneos positivos apresentam déficit de 32%, enquanto os negativos estão cerca de 47% abaixo do adequado. As situações mais preocupantes envolvem os tipos O positivo (-50%), O negativo (-53%) e B negativo (-42%). Os demais grupos também se encontram em estado de alerta.
O Hemominas explica que a redução é mais frequente nos grupos O e Rh negativo por se tratarem de tipos menos prevalentes na população e, ao mesmo tempo, os mais utilizados em situações de urgência e de emergência. Apesar disso, a Fundação garante que o estoque atual é considerado seguro para atendimentos emergenciais imediatos.
O risco de adiamento de procedimentos eletivos, segundo a instituição, pode ocorrer quando o paciente possui um tipo sanguíneo raro e o estoque específico está reduzido. Nessas situações, a prioridade passa a ser o atendimento de urgências até a regularização dos níveis.
Mesmo diante das limitações na coleta por aférese, a Fundação reforça o apelo para que a população continue doando sangue. “Ressaltamos a importância do gesto da doação, garantindo a disponibilidade de sangue para pacientes com doenças hematológicas, em tratamento oncológico, cirurgias e outros que necessitam de transfusão”, afirmou a Diretoria Técnica.
O Hemominas destaca que campanhas de incentivo são intensificadas em períodos como julho, dezembro, janeiro e Carnaval, quando tradicionalmente há queda no número de doadores. Ainda assim, a restrição ao uso de um método, considerado mais eficiente para a coleta de plaquetas, evidencia a dependência de insumos importados e a vulnerabilidade do sistema público diante de entraves administrativos, que impactam diretamente doadores regulares e pacientes que dependem desse tipo de hemocomponente.
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*Estagiária sob supervisão da subeditora Juliana Lima