Lagoa Santa sedia encontro de fé, cultura e resistência negra neste sábado
A potência dos atabaques vai ecoar, unindo as religiões de matriz africana e o Congado católico em um só clamor de fé, respeito e celebração aos antepassados
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Quando as mãos encontram o couro esticado do tambor, o som que ecoa pelas montanhas de Minas Gerais deixa de ser mera nota musical para se tornar uma frequência primordial. Não é apenas pele contra pele; é o despertar de uma memória antiga que atravessa os séculos. Essa vibração mística, que penetra a carne, atravessa os ossos e alcança o espírito, é a voz primeira de Olorum, de Zambi, de Deus — independentemente de como cada tradição decida nomeá-la.
Em terras mineiras, essa sonoridade potente funciona como uma onda invisível de axé em movimento. É o fio vital que rasga o véu sutil entre o mundo dos homens e o mundo dos espíritos, promovendo o encontro e a comunhão profunda entre duas expressões de fé que se sustentam mutuamente na reverência aos que vieram antes: as religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé, e as tradicionais guardas de Congado e Reinado.
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Encontro marcado
É com essa mesma força que o 2º Encontro de Reinados e Congados em Homenagem aos Pretos-Velhos vai acontecer. No próximo 30 de maio, a partir das 14h, no Espaço Poliesportivo de Lagoa Santa, os tambores de 20 terreiros e de 13 grupos congadeiros localizados no Vetor Norte voltarão a tocar com mais potência do que nunca. Depois do sucesso transformador da primeira edição, o chamado agora é mais profundo: não apenas celebrar, mas abrir o portal coletivo.
Os tambores serão o fio vital que costura a santidade de todas as crenças. Cada batida ecoará a resistência de séculos, a cura que os Pretos-Velhos trazem, a união que Lagoa Santa decidiu abraçar sem medo. Pai Erlon Campelo Câmara, idealizador e pai espiritual do Templo Umbandista Cabana Caboclo Pedra Branca, sente essa onda no próprio peito: “Quando a mão toca o couro, o espírito responde antes da palavra. É aí que o portal se abre de verdade. Neste segundo encontro, queremos que toda a cidade sinta essa frequência: o som que une, que limpa, que faz cair fulô sobre as almas.”
Para o Pai Erlon Câmara o momento traduz a essência da resistência cultural e espiritual do povo negro e de terreiro: "O tambor é o nosso cordão umbilical com a ancestralidade. Quando ele ecoa, não há separação: o mesmo couro que chama os Orixás e os Pretos Velhos no terreiro é o que saúda Nossa Senhora do Rosário nas ruas. O 'Chamado dos Tambores' é um manifesto de amor, respeito e união de povos que, historicamente, se mantiveram de pé pela força da fé e da coletividade. Estar presente é celebrar a nossa sobrevivência e a nossa beleza", pontua o sacerdote.
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Adorei as almas
Na Umbanda, o toque compassado e firme dos atabaques abre os caminhos e estabelece a frequência exata para a conexão com o Divino. É o chamado heroico que traz a sabedoria da terra: sob o comando do couro, o Preto-Velho chega devagar, encurvado sob o peso do tempo, com seu cachimbo aceso e a voz mansa que abençoa com um "Adorei as almas". O ar se adensa com o perfume do tabaco, das ervas e do incenso, o chão estremece e o tempo se dobra. Passado e presente costuram-se em um único instante, onde as dores históricas são lavadas e a cura finalmente floresce.
Simultaneamente, esse mesmo tambor se faz coroa e estandarte nas batidas do Congado e do Reinado. Na tradição sincretista e profundamente comunitária dos congadeiros, a sonoridade ganha o ritmo da marcha, do louvor a Nossa Senhora do Rosário, a São Benedito e a Santa Efigênia. São duas vertentes espirituais distintas que operam sob a mesma lógica sagrada: a de que os tambores são altares portáteis, pontes intransponíveis de resistência e chaves que abrem as portas da eternidade.
Nesse abraço rítmico, as fronteiras teológicas desaparecem. O catolicismo popular do Reinado e o caboclo indígena da Umbanda se encontram perfeitamente equilibrados no mesmo ponto riscado. O tambor anula a fragmentação histórica imposta pelo preconceito e pela dor da diáspora, transformando o que antes era separado em um tecido social e espiritual inteiriço.
Celebrar o Encontro dos Tambores em solo mineiro é compreender que a ancestralidade não é um passado estático que ficou para trás, mas uma força viva que se renova a cada batida. Onde o couro canta, o preconceito silencia para dar lugar ao amor e ao respeito que pulsam no peito de um povo que mantém sua fé resguardada, viva e unida pela força indestrutível do som. É sobre presença, troca e a certeza de que o sagrado se faz na coletividade.
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Programação Oficial
14h – Início da feira + Concentração dos Reinados, Congados e Boi
16h – Apresentações culturais
17h – Mesa de debates - tema: ‘Corpo, Fé e Resistência: A Mulher de Terreiro Frente às Múltiplas Violências’
18h – Homenagem aos Pretos Velhos
20h – Shows culturais
Autoridades e convidados confirmados
O evento contará com a presença de lideranças religiosas tradicionais da região, Capitães de Minas das Guardas de Congado e Reinado, além de representantes do poder público local e defensores dos direitos culturais e da igualdade racial; estarão presentes:
- Deputada Federal Duda Salabert
- Vereadora professora Lavina Rodrigues
- Advogada Carla Rodrigues
- Advogada Isabela Dario
- Gestora pública Denise de Paulo N’wulaiusema
Serviço
2º Encontro dos Tambores Ancestrais
Data: 30 de maio (sábado)
Local: Espaço Poliesportivo de Lagoa Santa, MG
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Mais informações: @cabanacaboclopedrabranca | @tamboresancestrais_ (Instagram)