"Respeite o meu terreiro"

Tire sua intolerância do caminho que vou passar com o meu Axé 

No Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa — instituído em memória de Mãe Gilda – é preciso desmantelar o racismo que se veste de cruz e Bíblia

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Iyalorixá Mãe Gilda de Ogum, cujo nome religioso era Gildásia dos Santos e Santos, foi uma proeminente figura do candomblé na Bahia e se tornou um ícone nacional na batalha contra a intolerância religiosa no Brasil. Ela foi a fundadora do terreiro Ilê Asé Abassá, localizado no bairro de Itapoã, em Salvador, onde dedicou sua vida à preservação das religiões africanas e à defesa da liberdade de crença.

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A vida de Mãe Gilda foi marcada por episódios de violência religiosa. Ela, sua família e o terreiro que criou foram vítimas de ataques, perseguições e vandalismos, impulsionados pelo preconceito contra as religiões de matriz africana. O falecimento da ialorixá em 21 de janeiro de 2000, após um infarto, é muitas vezes atribuído ao clima de intolerância e violência que ela enfrentou.

Em homenagem à sua trajetória e à seriedade da violência religiosa no Brasil, foi estabelecido o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa em 21 de janeiro, por meio da Lei 11.635/2007, sancionada sete anos após sua morte. Essa data se tornou parte do Calendário Cívico da União como um símbolo da luta pela diversidade religiosa e pelo respeito às diversas crenças.

Neste Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, o recado deveria ser claro: tolerância não basta. É preciso desmantelar o racismo que se veste de cruz e Bíblia para atacar axé. Denunciar pelo Disque 100 (24h, gratuito) ou WhatsApp (61) 99611-0100 é necessário, mas insuficiente. A verdadeira mudança virá quando o Brasil parar de fingir que o problema é só “religioso” e assumir que, no fundo, é racial.

 

Disque 100

O Brasil se orgulha de ser um país de diversidade religiosa, mas os dados oficiais contam outra história. Em 2024, o Disque 100 registrou 2.472 denúncias de intolerância religiosa — um salto de 66,8% em relação a 2023. Em 2025, o número de violações à liberdade de crença ou culto chegou a 4.424, aumento de cerca de 14%. Já nos primeiros dias de 2026, mais 51 casos foram somados. As religiões de matriz africana continuam liderando as estatísticas: Umbanda com centenas de registros, Candomblé logo atrás, e uma maioria esmagadora das vítimas identificadas como praticantes dessas tradições.

Pesquisas recentes, como “Respeite o Meu Terreiro” (2025), são ainda mais alarmantes: 76% a 80% dos terreiros brasileiros sofreram algum tipo de violência ou racismo religioso nos últimos anos; 74% relataram ameaças, depredações ou destruição de espaços sagrados. Em muitos casos, evangélicos aparecem como responsáveis por até 59% das agressões relatadas por lideranças religiosas. Desde 1996, pelo menos 95 lideranças de terreiros foram mortas, 45 delas de forma violenta.

Para refletir

Um reels publicado pela página Rezaria (provavelmente @rezariabrasil) no Instagram viralizou ao abordar de forma direta e impactante o tema do racismo religioso no Brasil, equiparando-o à intolerância religiosa. O vídeo, narrado por Beatriz Alencar e com trilha sonora da música "Povo de Santo" (Luciano Bom Cabelo feat. João Martins), destaca uma estatística alarmante: mais de 70% dos casos de violência religiosa no país atingem as religiões de matriz africana, especialmente Umbanda e Candomblé.

A legenda do post reforça a mensagem com clareza:

"Intolerância religiosa = Racismo religioso

Você já parou pra pensar por que mais de 70% dos casos de violência religiosa no Brasil atingem Umbanda e Candomblé?

Se você presenciou ou sofreu racismo religioso, denuncie:

Disque 100 (gratuito, 24h)

WhatsApp: (61) 99611-0100

Sua denúncia salva vidas e fortalece nossa luta.

Compartilhe este post e ajude a espalhar consciência. "

O conteúdo cita fontes oficiais como o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, o Ministério da Igualdade Racial e o Ministério Público, reforçando a credibilidade da informação.

Reações e comentários do público

O Reels gerou uma onda de engajamento, com comentários que misturam apoio, relatos pessoais de sofrimento, indignação e chamadas por mais visibilidade. Alguns dos mais representativos incluem:

Usuários reforçando o axé e a resistência: 

"Respeitem o nosso Axé", "Axé pra quem é de Axé" 

"Que as ofensas e ataques sejam transmutadas em força a nossa luta e resistência. Salve nossa raízes e ancestralidade".

Relatos pessoais de conversão e crítica: 

"Fui crescida na Igreja Universal (DETESTO essa igreja!!!) Hj sou macumbeira, graças a Deus, aos Guias e aos Orixás".

Críticas ao crescimento da intolerância: 

"E agora com o empoderamento do bolsonazismo a intolerância virou desculpa para liberdade de expressão. O ‘evangelistão’ quer acabar com a nossa religião e liberdade de culto." 

Denúncias de ineficácia das autoridades:

Um comentário extenso relatou ameaças de morte a uma benzedeira (filha de Obaluayê) por evangélicos, ataques com fezes no telhado do terreiro e sensação de descaso na delegacia: "Infelizmente denunciar não está adiantando de nada [...] É muito triste essa situação. Infelizmente as autoridades nos olham como se isso fosse mi-mi-mi".

.

Apoio geral à luta:

 "Intolerância religiosa é crime”

"Infelizmente a maior parte dos seres humanos é egoísta e acredita que só seu Deus importa. Seguir a Cristo nunca foi discriminar o outro pelo que ele segue. Axé".

Violações

O vídeo surge em um momento em que relatos de ataques a terreiros (pichações, invasões, ameaças) continuam aparecendo com frequência nas redes e na mídia. A equiparação entre intolerância religiosa e racismo religioso é defendida por movimentos de religiões de matriz africana há anos, já que essas tradições estão intrinsecamente ligadas à herança negra e afro-brasileira — o que torna o preconceito contra elas uma forma de racismo estrutural.

O que torna essa realidade particularmente grave é o caráter estrutural do problema. Não se trata apenas de “fanatismo isolado” ou “desentendimentos entre crenças”. Atacar terreiros, demonizar orixás, proibir manifestações afro em escolas ou expulsar mães e pais de santo de aplicativos de transporte é reproduzir o racismo que atravessou séculos de escravidão e que ainda estrutura desigualdades no Brasil. Chamar isso apenas de “intolerância religiosa” suaviza o termo: é racismo religioso, uma forma específica de violência que visa apagar a ancestralidade negra e afro-brasileira.

Apesar das leis (a discriminação religiosa é crime desde 1989, reforçada pela Lei 14.532/2023 que tipifica o racismo religioso), a impunidade reina. Muitos casos não viram boletim de ocorrência — apenas 26% dos relatados na pesquisa de 2025 foram formalizados. Denúncias no Disque 100 crescem, mas a sensação entre as comunidades é de descaso: delegacias que tratam os relatos como “mi-mi-mi”, pouca investigação e quase nenhuma condenação efetiva.

Enquanto o número de praticantes de Umbanda e Candomblé triplica e o país se declara laico, a hipocrisia se escancara: espaços públicos e digitais seguem hostis a essas religiões. Escolas censuram símbolos afro, redes sociais amplificam discursos de ódio, e o Estado responde com datas comemorativas e painéis de dados — mas sem políticas robustas de educação antirracista, proteção efetiva a terreiros e punição exemplar.

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