Ana Maria Gonçalves abre o verbo em BH
Escritora participa do Sempre um Papo nesta terça-feira (31/3), sem temas definidos de antemão; ‘Gosto dessas conversas abertas’, diz
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A escritora Ana Maria Gonçalves abre a programação de 2026 do projeto Sempre um Papo – TCE Cultural, realizado pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais. Com mediação do criador do projeto, Afonso Borges, ela conversa com o público nesta terça-feira (31/3), às 19h, no auditório do Tribunal de Contas do Estado, com entrada gratuita.
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Ana Maria Gonçalves é uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea, articulando memória, identidade e formação social.
Autora de “Um defeito de cor” (2006), eleito o melhor livro brasileiro deste século em uma votação promovida pelo jornal “Folha de S.Paulo”, ela diz que o bate-papo não gira em torno de um tema específico, o que considera interessante, pelas possibilidades que oferece.
“Gosto dessas conversas abertas, para sermos surpreendidos pelo que vai ser perguntado. Estou curiosa para saber sobre o que Afonso vai querer falar”, diz.
Um assunto que tem estado presente no seu cotidiano e que ela acredita que deve vir à baila no Sempre um Papo é o fato de ter se tornado, em novembro do ano passado, a primeira mulher negra a tomar posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), em 128 anos de história.
Ana Maria Gonçalves considera que isso representa um desejo de abertura da instituição, que, conforme aponta, sempre se manteve um tanto apartada da sociedade.
“Mesmo com a minha eleição, acho que a ABL ainda não é representativa do povo brasileiro. O que tenho sentido lá dentro é essa vontade de abertura, para começar a diversificar. Temos eu, Gilberto Gil e Domício Proença de negros; temos o Krenak representando os indígenas; e temos seis mulheres. Ainda é pouco diante do que é a pluralidade da sociedade brasileira”, ressalta. Ela acredita que “Um defeito de cor” também deve pautar o encontro no Sempre um Papo.
Fôlego
A autora observa que, passados 20 anos de seu lançamento, o livro ainda está na ordem do dia, porque as vendas seguem em uma crescente.
“Vemos que ele ainda não atingiu todo mundo que provavelmente pode atingir. Isso é uma coisa curiosa, essa longevidade que 'Um defeito de cor' tem. Já são, se não me engano, 49 edições e as vendas seguem aumentando, ou seja, tem muita coisa ainda para se falar, e talvez uma delas seja justamente esse fôlego que ele vai readquirindo a cada novo evento”, diz.
A escritora se refere, por exemplo, ao fato de a obra ter sido o tema do carnaval da Portela em 2024 ou à exposição “Um defeito de cor”, da qual foi curadora, ao lado de Amanda Bonan e Marcelo Campos, que teve início em 2022, no Museu de Arte do Rio, e seguiu em itinerância pelo país até o ano passado.
Outro tema que pode surgir no bate-papo de hoje diz respeito ao uso da Inteligência Artificial na produção de livros – algo que Ana Maria Gonçalves tem abordado em entrevistas recentes.
A escritora disse, para o site da ABL, que gostaria de começar a pautar essas novas possibilidades de uso da língua portuguesa de uma maneira a preservar o trabalho dos escritores e dos artistas.
“É uma conversa mais do que importante. Esse é um assunto que está presente na ABL, os acadêmicos discutem, porque nossas obras estão sendo utilizadas sem o nosso consentimento para treinar a IA. Isso já está no mercado do livro, então editoras e escritores têm que conversar”, afirma.
Ela considera que a IA “não é de todo má”, que pode ajudar muito em trabalhos de pesquisa, mas que é preciso entender como esse uso vai se dar, de forma a proteger a criação.
“Tem empresas que estão alimentando bancos de dados que depois vão poder escrever livros, copiar estilos de escritores, entrar no mercado editorial. A ABL e todos nós que trabalhamos com letras, incluindo jornalistas, temos que discutir esse assunto”, pontua.
A propósito, Ana Maria Gonçalves não se furta a falar, também, das eleições que se aproximam e de como a IA pode ser empregada como ferramenta de manipulação.
“Acho que vai ser um ano dos mais complicados, com o uso da internet, das fake news, de notícias e de eventos falsos para se justificar posicionamentos. Estou apreensiva. Temos que estar muito atentos para que nossas decisões possam ser tomadas com base na verdade”, diz.
Livro sobre a menopausa
Ana Maria Gonçalves está escrevendo um novo livro, um relato pessoal sobre o envelhecimento e a menopausa.
O título, “Matriorcado”, é uma corruptela que utiliza a metáfora das baleias orcas – que assumem a liderança após a menopausa – para dialogar com saberes de mulheres mais velhas em tradições africanas.
“Estou passando pela menopausa. É um assunto que durante muito tempo a sociedade não discutiu, um assunto tabu. Para mim, está sendo uma fase de transformação muito grande e eu não estava preparada para isso, nunca conversei com médicos nem com minha mãe nem com as avós nem com amigas a respeito. Até entender o que estava acontecendo comigo, demorou um tempo", afirma.
"A grande maioria das mulheres fala a mesma coisa, que levaram um susto com os sintomas. Tudo o que conhecíamos sobre o funcionamento do nosso corpo muda de uma hora para outra, porque ele entra em abstinência de um hormônio que estava acostumado a produzir por décadas", diz.
"Espero que esse livro se junte a outros produtos culturais que tratam disso e provoque uma discussão que faça com que a menopausa seja um assunto de saúde pública. Todas as mulheres deveriam ser atendidas pelo SUS para tratar dos sintomas.”
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SEMPRE UM PAPO – TCE CULTURAL
Com Ana Maria Gonçalves, nesta terça-feira (31/3), às 19h, no auditório do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (Av. Raja Gabáglia, 1.315, Luxemburgo). Entrada gratuita, sujeita à lotação do espaço.