Primeira Leitura: ‘Corpos a crédito, de ’Susana Araújo
Poemas de "Corpos a Crédito", de Susana Araújo, aproximam mercado, dívida e macroeconomia do corpo humano em textos que falam de amor, doença e sobrevivência
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“Flutuações”
Quando o montante cambial e os seus
derivativos não são o que assomam, a
tarde torna-se noite e tu choras como
uma coroa de corvos para logo
adormeceres no meu ombro
Porquanto o amanhã é substância
de especulação, o teu coração é causa
macroeconómica deste respirar na
cozinha às escuras ao som assíduo da
máquina de lavar
Se é verdade que os nossos membros
não agem, apenas reagem passivamente
às consequências de ventos, como talas
de gesso branco nas junturas turvas
dos mercados
Então deixa-me receber os teus beijos
como moedas de chocolate.
*
“Raiva”
Ladraste-me ao ouvido (rugidos em forma
de cálculo) e dizes agora que a rima é cáustica.
Morderam fundo: eu seco bem a pele
(para ressequir zoonoses, nevoeiro em nódoa)
o barco em que dormimos
vela sobre o fel.
Por onde andámos, membros fechados
de corporação em corporação, sonhando
com o mel de uma amputação, partilhámos
Raiva: porta perfeita para
o nervo periférico.
E, assim, prenunciados,
rendidos a um estado
sem graça nem jurisdição
vadiamos pelo branco adentro,
bocas espumando tinta em papel
*
“Investimento ou notas de uma espera”
Apareces-me assim sem avisar e
observas em silêncio pronto a
corroer ou a beijar. Não importa.
A mim que sempre te esperei. Nada
mudou senão metade da totalidade
do que já devíamos a bancos sem
dono, a amos de França, corsários
de Espanha, vigários de Itália. As
seguradoras oferecem ao príncipe
a minha sandália. Hoje não espero
mais mas se esperasse, esperaria
por ti como sempre, sem me
atrasar nessa minha espera
sentada com um livro ao colo
a fingir que leio, enquanto tu corres
de um lado para o outro, para mim
também. Nunca tinha reparado
que não tens pescoço.
Chamam-te atarracado mas eu nada oiço, és
apenas encorpado lindo, fruto sem caroço.
Porque é que nunca
me mostraste a pele já tocada?
E quando regressei como sempre, sem
me atrasar, no meu regresso, a pé, livros a
tiracolo a fingir que lia, já éramos náufragos
desse passado que nada valia. Agora temos
tudo pela frente: lucros, ações, obrigações
investimentos, a vida: um sem o outro.
*
“Longo abdutor”
Tenho um tendão
junto ao polegar da mão direita
que tenta deslizar sobre os ossos
para chegar até aí
É um tecido conjuntivo:
dói-me porque se engana
e porque se desengana.
*
“Sala de espera”
há coisas que
demoram muito tempo
tu és uma delas.
SOBRE O LIVRO E A AUTORA
A escritora portuguesa Susana Araújo (foto) é ensaísta, ficcionista, professora e poeta. É professora, desde 2019, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. “Corpos a Crédito” reúne textos de Susana Araújo selecionados de dois livros: “Dívida Soberana”, publicado pela Mariposa Azual em 2012, e “Discurso aos Pacientes Cirúrgicos”, que saiu pela não (edições) em 2020. “Nestes poemas, a dívida não pertence apenas ao corpo social que as crises financeiras expropriam e hipotecam mas, principalmente, a um espaço íntimo em que a paixão e a doença atuam de forma semelhante, e se instalam como uma segunda escrita — em carne. Fala-se de uma economia assassina, perante um corpo precário: fala-se da pele, do osso, e do dia que se arrasta como uma prestação vencida. Disserta-se sobre a doença e a cura, fala-se de corpos abertos em negociações silenciosas com o futuro”, avisa o texto de apresentação. Susana lançou o livro no início da semana em Juiz de Fora.
Leia Mais
“CORPOS A CRÉDITO”
De Susana Araújo
Editora Macondo
84 páginas
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