A homenagem de Bruna Kalil Othero para o crítico literário Heitor Martins
Professor de literatura brasileira em universidades nos EUA foi um dos responsáveis pela divulgação da palavra e da história de Minas Gerais no mundo
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Bruna Kalil Othero - Especial para o Estado de Minas
Foi o último aprendiz de Oswald de Andrade. Um dos poucos presentes no seu enterro, fez um discurso de despedida em homenagem ao velho amigo modernista. Tinha livre acesso ao gabinete e ao telefone de Juscelino Kubitschek, chegando a dar lições ocasionais de inglês ao presidente. Foi arranhado pelo gato de Lygia Fagundes Telles enquanto a esperava para lhe entregar uma revista literária publicada em Belo Horizonte. Clarice Lispector ficou uma semana grudada nele durante um congresso internacional de escritores, fugindo dos estrangeiros e se refugiando no compatriota brasileiro. Foi professor de literatura brasileira nas Universidades do Novo México (1960-1962), de Tulane (1962-1968) e de Indiana (desde 1968), onde fundou o programa de português.
No período em terras estadunidenses, voltou ao Brasil para montar a pós-graduação em literatura brasileira na Universidade de Brasília (UnB). Foi responsável por convidar para os Estados Unidos nomes como Silviano Santiago e Abdias do Nascimento, proporcionando aos amigos acesso a trabalhos universitários internacionais num período em que o Brasil se via mergulhado na ditadura civil-militar. Como chefe de departamento da Indiana University, recebeu como convidados Lygia Fagundes Telles, Laís Correia de Araújo, Haroldo e Augusto de Campos. Sedento por polêmicas críticas, teve embates teóricos com Antonio Candido. Foi orientador e professor das hoje professoras da UFMG Leda Maria Martins e Lucia Castello Branco, no período em que vieram fazer mestrado nos Estados Unidos. Pertencente à Geração Complemento, composta por fundadores e colaboradores da revista "Complemento", editada em Belo Horizonte nas décadas de 1950 e 60, conviveu com importantes artistas como Affonso Ávila, Laís Correia de Araújo, Affonso Romano de Sant’Anna, Ivan Angelo, Wilma Martins, Fábio Lucas, Rui Mourão, Yara Tupinambá e Terezinha Alves Pereira.
O dono desse impressionante currículo, cujos poucos fatos aqui apresentados são apenas alguns pontos da sua formidável carreira de mais de 70 anos, é Heitor Miranda Martins, crítico literário, cronista, jornalista, professor, poeta e editor. Heitor nasceu na rua Itapecerica, número 592, no Bairro Lagoinha, em Belo Horizonte, em 22 de julho de 1933. Foi em Bloomington, Indiana, onde ele morou a maior parte da sua vida, que a sua amizade com a autora destas linhas começou. A formação em Minas Gerais, contudo, o marcou profundamente e jamais abandonou nem o seu trabalho nem a sua memória. Com atenção, era possível ouvir a sombra do mineirês até na sua pronúncia perfeita de inglês, assim como os eventuais “uai” e “sá” (como nós mineiros falamos “sabe” ao fim das frases) que escapavam do seu discurso com frequência.
Heitor foi um homem extremamente gentil, aberto, curioso, generoso, estando sempre à escuta, atento ao mundo que mudava rapidamente ao seu redor. Acompanhou as novidades sem esquecer as referências clássicas: conheceu bem a poesia árcade do século 18, as performances da drag queen Pabllo Vittar, a formação da literatura mineira e o romance pornopolítico dessa que vos escreve. Até os 91 anos, leu diariamente este Estado de Minas e outros jornais com as notícias de Minas, do Brasil e do mundo. Ávido epistológrafo, compartilhou piadas, relatos e memórias com os amigos por email, em cartas belíssimas e carinhosas. Durante suas sete décadas de atividade intelectual, agiu como uma poderosa ponte entre o Brasil e os Estados Unidos, afirmandose como um dos grandes divulgadores da cultura brasileira no exterior no século 20. Além disso, teve importantes contribuições à nossa historiografia literária: como poeta, escreveu “Das emoções necessárias”(1954) e “Sirgo nos cabelos”(1961). Entre suas diversas publicações críticas e ensaístas, destacam-se “Bocage e Minas”(1966); “Oswald de Andrade e outros”(1973); “Do Barroco a Guimarães Rosa”(1983); e a antologia “Neoclassicismo, uma visão temática”(1973).
A tarefa derradeira de Heitor, com a qual eu e Filipe Dias Vieira tivemos a honra de ajudar, foi rever o seu arquivo de uma vida inteira dedicada aos livros. Juntos, revisitamos uma imensidão de cartas, documentos, fotografias, manuscritos e datiloscritos: infinidade preciosa de publicações raras e textos inéditos. Parte desse acervo foi, a desejo seu, doada para duas instituições que, juntas, conectam as duas pontas da sua vida: a Academia Mineira de Letras, em Belo Horizonte, e a Biblioteca Lilly, em Bloomington. Afinal, ele foi um escritor mineiro que sempre levou a palavra e a história de Minas Gerais para o mundo.
O último gesto de Heitor Martins foi organizar a sua obra. E deixá-la, pra todos nós, como seu legado.
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Belo Horizonte ainda não tinha trinta e seis anos quando foi berço de nascimento daquele menino, que cresceu junto com a cidade. Cenas da infância: brincadeiras de criança nas ruas da jovem capital mineira e incursões rurais no sítio que o pai comprou no Céu Azul, hoje bairro na região de Venda Nova. Os Miranda Martins, uma típica família do Curral del-Rei, viviam de agricultura básica, vendendo lenha e plantando mandioca, banana, batata-doce e arroz. É dessa época um simpático retrato do pequeno Heitor, de suspensório, ao lado de um porco. Ao completar seis anos, entrou no grupo escolar.
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Cursou o ginásio no colégio Anchieta, onde conheceu os meninos que se tornariam o poeta Ary Xavier e o jornalista Guy de Almeida, amizades que durariam a vida inteira. Entre os mestres que marcaram a formação inicial de Heitor, estão o professor de história Amaro Xisto de Queiroz, tio da escritora Maria José de Queiroz; e o professor de latim José Lourenço de Oliveira, cunhado da poeta Henriqueta Lisboa. Logo, começou a carreira de jornalista no jornal "Tribuna de Minas", passando depois pelo "Diário de Minas" e pelo Diário da Tarde, além de fazer freelance para outros jornais como "O Estado de S. Paulo" e o "Jornal do Brasil". Em 1952, entrou na Faculdade de Filosofia da UFMG e conheceu a escritora Terezinha Alves Pereira no Teatro Universitário. Parceiros literários, casaram-se e tiveram duas filhas, que no futuro lhes dariam netos. Em 1954, Heitor vai para o CPOR e passa um tempo em São Paulo, onde se torna um dos últimos frequentadores da casa de Oswald de Andrade, que morreria pouco tempo depois.
No começo da década de 1960, munido de um doutorado pela UFMG, Heitor faz um gesto definidor que expande a sua já impressionante capacidade cerebral: se muda para os Estados Unidos para ser professor de português e ensinar aos gringos sobre a nossa cultura. Com as armas e as ferramentas do imigrante, este operário da palavra construiu uma carreira acadêmica estelar. Criou programas de graduação e pós em português, organizou eventos, recebeu intelectuais brasileiros, promoveu debates, ensinou e publicou, mantendo a gaveta sempre cheia de inéditos e trabalhos em curso. Silviano Santiago, no famoso ensaio “O entre-lugar do discurso latino-americano”(1978), sem querer, descreve seu amigo Heitor: “O escritor latino-americano é o devorador de livros de que os contos de Borges nos falam com insistência. Lê o tempo todo e publica de vez em quando.” Ávido leitor acima de tudo, publicou perto de cem ensaios, além de diversos livros. Suas publicações condensam um robusto pensamento de alta tensão, conciso em sua exatidão desafiadora e ousado em suas provocações formais. Na vida pessoal, a família Martins foi se expandindo: separado, Heitor casou-se com a também escritora Marlene Martins, ganhando filhas e netas no processo.
Uma outra faceta dessa multi-personalidade é o anarquivista, expressão de Reinaldo Marques perfeita pra ele: revirava arquivos de peito aberto, com o desejo da novidade antiga e a anarquia inerente ao próprio fazer literário. Pensador incansável sempre em busca de encontrar o novo no velho, Heitor viajou o mundo por meio das letras, garimpando arquivos brasileiros em todo lugar que fosse. Ele foi, até o fim, um embaixador cultural do Brasil no estrangeiro, um libertador de sombras relegadas ao ostracismo, um pesquisador sedento pelo desconhecido, pelo inédito, pelo que ninguém havia lido antes — daí o seu interesse e sensibilidade em encontrar manuscritos esquecidos. Heitor foi, sobretudo, um homem curiosíssimo que lia e relia com olhos livres.
Talvez o maior presente que esse extraordinário professor me deu, além da sua delicada e dedicada amizade, seja aquilo que um leitor mais deseja receber do outro: um autor para chamar de nosso, para guardar no coração. Heitor me apresentou a obra de Domingos Caldas Barbosa (1740-1800), o primeiro poeta afro-brasileiro, figura incontornável na nossa literatura, apagada por puro racismo. Um artista delicioso, divertido, inteligente, contracolonial, sagaz, novíssimo na sua velhice de 300 anos. Incentivados por Heitor, eu e Filipe Dias Vieira nos aprofundamos em uma pesquisa arquivística sobre Caldas Barbosa, que tem mudado radicalmente a nossa vida e as nossas carreiras. Ainda vamos falar muito sobre DCB, e sempre que o fizermos, levaremos o legado de Heitor conosco, dando continuidade ao seu projeto de recuperação de autores injustamente marginalizados.
Do início ao fim, Heitor Martins foi um dadaísta radical, como se definiu em uma de nossas últimas conversas. Atraído pela vanguarda irônica e nonsense do Dadaísmo, permaneceu alinhado à rebeldia estética do movimento, desejoso de destruir as convenções formais e questionar as regras do jogo. Intelectual em plena potência depois de atravessar quase um século de vida, o vigor & a ambição da sua pena permanecem acesos mesmo após sua passagem à eternidade. Em seus textos, seus gestos e suas ousadias, Heitor advogou por uma literatura anárquica, como ele mesmo resume no brilhante ensaio “Categorias da realidade na literatura brasileira contemporânea”(1978): “a literatura exige ‘anarquia’ dentro desse sistema — uma espécie de força centrífuga pluralística e antimetodológica, que contradiz a própria ideia de que um sistema possa ser construído.” Faminto e curioso em busca da forma revolucionária da arte revolucionária, Heitor Martins dialogou com as grandes mentes do seu tempo. Discreto na coxia, acompanhou o voo da literatura escrita no Brasil do século 20 até o 21.
Este homem impressionante nos deixou na manhã do dia 8 de fevereiro de 2026, no Arizona, aos 92 anos. Mas sua obra provocativa, sua sabedoria inquieta, sua ambição teórica e sua gentileza generosa… ficam. Boa viagem ao paraíso de quem se dedica às letras, Heitor: a biblioteca eterna para onde vão os verdadeiros imortais.
Que os guias te recebam com cafezinho e pão de queijo.
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BRUNA KALIL OTHERO é escritora e doutoranda na Universidade de Indiana