LITERATURA

Primeira leitura: 'Cor de defunto', de Cami di Malta

Em romance de estreia, escritora cearense transforma luto, morte e humor ácido em reflexão sobre desamparo, culpa e sobrevivência

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Grata pela compreensão

Quando Mainha morreu, eu fiz um pudim. A morte me deixou com a boca ansiando pelo gosto de caramelo. Nunca havia feito pudins e não sabia o que levavam, como bater, como assar, se era assado. Achei um vídeo da receita e sentei no chão da cozinha pra assistir, meu luto que ainda era morte crua pairando sobre os anúncios de carro e iogurte pro intestino a cada dois minutos. Só tinha dois ovos e não sabia que diferença iria fazer no meu pudim, deixar ele mais seco ou com menos gosto de pudim. Tive que assistir o mesmo vídeo muitíssimas vezes, não porque a receita fosse uma sentença matemática, mas porque gostava de ver a senhorinha de nome que já não me lembro misturar todos os ingredientes com destreza, as mangas do vestido balançando junto com as pelancas do braço. Ficava imaginando como seria bom ser filha dela e poder enfiar a cabeça no meio daqueles peitos macios e gigantes e chorar até suar o buço, além de ter pudim pronto em casa pra merendar todo dia. Na minha cabeça ela se chama Dona Dorinha porque eu nunca vi uma manchete de jornal dizendo Idosa responsável pelo assassinato de 3 pessoas é identificada como Dona Dorinha, porque Doras são sempre pessoas cheias de afeto. Mainha nunca fez pudim, nem gostava tanto. Comi quente mesmo, fazendo fafafafa enquanto mastigava, a calda queimando meu céu da boca, deixando pedacinhos de pele soltos. Percebi que só gosto de pudim gelado e senti raiva de Mainha por morrer assim sem aviso prévio. Eu poderia ter me programado e ter tido um pudim gelado pra comer. Mesmo assim, deixei o pudim fora da geladeira, em cima do balcão da cozinha. Tirava uma colherada de hora em hora, assim que o gosto rançoso de morte surgia na boca. O açúcar queimado atraiu e reuniu moscas e formigas que tentavam roubar um pedaço e ficaram grudadas na cena do crime. Comia minhas colheradas mesmo assim, sentindo os pedaços crocantes na boca que pareciam cristais de açúcar. Quando amanheceu, vesti meu uniforme amarrotado do chão do quarto e fui pra escola com cheiro de dobras. Fui direto na sala da diretora e entreguei um papel dobrado,

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Sra. Diretora,

Gostaria de comunicar que a mãe da aluna faleceu na noite

passada, portanto a aluna se encontra incapaz de entregar

as atividades desta semana.

Grata pela compreensão.

A letra era minha, a assinatura de Mainha estampada pelo meu pulso. O ato de escrever bilhetes e assinar em nome de Mainha já me era automático, só percebi a gafe quando vi as sobrancelhas finas e ralas da diretora num misto de perplexidade, pena e confusão me olhando cheia de aspas, talvez querendo perguntar se Mainha se matou, mas não sem antes avisar a escola, cheia de gratidão pela compreensão do corpo docente. Fui dispensada, voltei pra casa e a última fatia deformada de pudim continuava ilhada, cheia de alas no balcão da cozinha, com uma barata francesinha que se debatia na calda movediça caramelizada. Enfiei tudo na boca e joguei o prato de vidro no lixo. 

Enquanto a morte não vem 

Hoje vendi 3 funerais. Um casal nos seus quarenta e poucos anos escolheu um caixão simples de carvalho com forro de cetim. Enquanto eles estavam sentados olhando o catálogo, a moça mandava mensagens no celular e o rapaz folheava as páginas laminadas. 

Nenhum dos dois chorava nem usava preto. 

Quando aparece mais de uma pessoa, quase sempre fica claro ver quem é o novo órfão ou viúvo, é sempre a pessoa que tem os olhos mais molhados. Mas quando aparece um grupo assim, que nem esses dois, fica difícil dizer, mas depois de tantos anos eu já consigo identificar. Os enlutados têm os ombros pesados, a postura corcunda, as mãos indecisas, a pele com textura de asfalto velho. O luto é um acento circunflexo. 

Como balas de iogurte enquanto eles discutem entre si. Tento despregar um pedaço no dente de trás quando a moça pergunta se damos desconto se pagarem à vista. Fico com vontade de dizer que o luto não vai ser mais curto só porque não está esmiuçado nas faturas do cartão, mas só digo que sim, damos 6%. Vão levar. Enquanto eles saem sem dar tchau, eu preparo a papelada pro Marcinho levar o caixão até o salão do funeral pra que comecem os preparativos. 

Eu gosto da funerária porque é um lugar desprovido de normas sociais. Ninguém se cumprimenta, nem diz. obrigada, por favor, um tchauzinho na saída. A morte fresca é o maior passe livre que existe; tudo se releva e se perdoa, dos dois lados. Não dou tchauzinho pra ninguém, fui contratada por causa do meu laconismo. Meu chefe disse que prefere alguém que fale menos que o necessário do que quem é um poço de empatia, porque eles se intrometem, querem perguntar, abraçar os clientes, e a maioria dos clientes não quer condolências de um desconhecido que está fazendo parte da pior experiência de compras que alguém pode ter. Deus me livre abraçar uma cambada de desconhecidos todos os dias. Ainda mais os que vêm sozinhos, desesperados, os olhos encharcados, as narinas trêmulas e úmidas, prontas pra babar catarro nos meus ombros. 

Tudo também é mais quieto. Quem chega já entra sussurrando, como se existisse um funeral ali mesmo, entre os caixões expostos com etiquetas de preço. Eu encorajo. Mantenho minha voz baixa, quase um sopro. É a mesma coisa quando não temos clientes. Como de costume, ninguém fala comigo. Fico chupando balas de iogurte esperando meu horário ou a morte, o que vier primeiro.

SOBRE A AUTORA E O LIVRO 

A cearense Cami di Malta (foto) nasceu em Fortaleza em 1992, é pós-graduada em Escrita Criativa pela Unifor. Depois de viver em cinco países, hoje se divide entre Brasil, Malta e Indonésia. “Cor de defunto” é o primeiro romance da autora, definida pela conterrânea Socorro Acioli (“Cabeça de santo”) como “uma voz original, ágil e de honestidade desconcertante que nos conta a vida de uma mulher e os desamparos do seu mundo”. 

A PALAVRA DA AUTORA 

“Cor de defunto' explora as estranhezas das entranhas do luto e do desamparo. É sobre o mergulho nos abismos do sentir. A personagem principal, Lilá, faz graça de sua própria tragédia enquanto arruma seus defuntos na funerária em que trabalha, enquanto navega o luto pela partida da mãe. 'Cor de defunto' engaja todos os sentidos. Provoca, cutuca, atiça em nós tudo de mais cru. Lilá nos leva pela sinestesia do léxico e espanta na mesma medida em que nos faz rir.”

“COR DE DEFUNTO”

De Cami di Malta

Autêntica Contemporânea

112 páginas.

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