Fernando Morais lança o segundo volume da biografia do presidente Lula
Livro destaca as derrotas de Lula nas eleições para o Planalto de 1989 a 1998, revelando que o petista 'perde as estribeiras' quando é vencido
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Lula não sabe perder. Aliás, quem sabe? É, sobretudo, sobre o Lula vencido – nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998 – o segundo volume da extensa biografia a que o jornalista e escritor Fernando Morais se dedica há uma década e meia.
Com lançamento nesta segunda-feira (30/3), “Lula, volume 2” (Companhia das Letras) segue a trajetória do político de onde o primeiro livro, publicado em 2021, parou.
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O livro começa na campanha das Diretas Já, em 1983, época em que o petista vivia a ressaca da fracassada campanha para o governo de São Paulo. O livro culmina na vitoriosa eleição de 2002. Em muitos momentos, Lula aparece somente nas entrelinhas sobre o período de quase 20 anos da história brasileira.
Projeto que sofreu mudanças (inicialmente seriam dois volumes) e atrasos, a biografia tem hora para acabar. Independentemente dos rumos de Lula e do Brasil neste 2026, o autor definiu que vai terminar sua saga na eleição de 2022, após a vitória sobre Bolsonaro. Espera que a conclusão seja lançada nos próximos três anos.
“O Lula tem planos de viver até os 130 anos. Eu não vou acompanhá-lo até lá”, afirma Fernando Morais nesta entrevista ao Estado de Minas.
Em síntese, o segundo volume é a história de um vencido, pois só no final a narrativa chega à primeira eleição à Presidência, em 2002.
Ele só ganha no último parágrafo do livro. Embora eu conheça o Lula há 50 anos, para produzir esse volume acabei descobrindo uma característica que desconhecia: a absoluta incapacidade dele de conviver com a derrota. Ele perde o eixo, perde as estribeiras toda vez que perde a eleição. E não foram poucas. Estou falando de eleição desde o tempo em que ele era sindicalista, lá atrás, até se eleger presidente da República pela primeira vez.
“Era o tempo morto, eram os corredores, o carro de Lula, eram os elevadores, os quartos de hotel” é como você define “Entreatos” (2004), documentário de João Moreira Salles que acompanha o então candidato à Presidência em 2002. Este segundo volume é o seu “Entreatos”?
Ao assistir pela primeira vez ao filme, 20 anos atrás, me chamou a atenção que a estrela principal não era o Lula do palanque, mas o do automóvel, do elevador, do café da manhã no hotel. Mas na época eu não tinha ideia de fazer biografia do Lula. Fui rever agora o “Entreatos” em busca de uma informaçãozinha milimétrica (as fitas rodadas para o documentário eram escondidas diariamente no claustro de Frei Betto no convento dos dominicanos, em São Paulo). Quando revi o filme, falei: “O truque do ‘Entreatos’ está no título, que não é o Lula vitorioso, na frente das massas. É o Lula ser humano, de carne e osso”. Achei que era muito mais saboroso para o leitor conhecer esse Lula do subsolo do que conhecer o Lula das manchetes de jornais. Quero saber o seguinte: como é que o Lula reage na hora que o camarada chega e diz: “O TRE acabou de fechar as urnas e você perdeu a eleição.” Como é que ele se comporta? Ele fala palavrão, fica bravo. Descobri que, invariavelmente, ele entrava em depressão depois que perdia uma eleição. O entreato das campanhas do Lula é tão saboroso, ou mais, do que a vitória em si.
Inclusive, em algumas das sequências mais eletrizantes do livro, como a votação da emenda Dante de Oliveira e o início das Caravanas da Cidadania, o Lula é secundário.
Uma biografia é um tronco e dele saem galhos. Às vezes, esses galhos são mais importantes do que o próprio personagem para falar dele. Na (parte dedicada à) Caravana da Cidadania, o Lula aparece e desaparece, mas mesmo quando ele não está na caravana, está presente, de alguma maneira. Você descobre que, 50 anos depois de ter feito a viagem de pau de arara (em 1952, quando desceu com a mãe e os irmãos de Garanhuns até Santos, para se encontrar com o pai), ele descobre que o Brasil piorou. Isso é uma revelação. Ele, que teve uma vida miserável, fica absolutamente estatelado de ver gente pegando lixo com a mão e comendo. O Lula, que já tinha vivido situações-limite em matéria de miséria, se escandaliza. Aquela cena da senhora vomitando (no interior de Pernambuco) foi ele que me contou. Recupero a caravana a partir de depoimentos dele. Ele fala muito mais da caravana do que dele próprio. De vez em quando, escapa uma referência como esta: “Eu nunca tinha ficado tão chocado (tanto quanto) ao ver uma mulher vomitar porque tinha comido cacto, a única coisa que tinha comido”. É um pedaço do livro de que gosto muito, pois acho revelador. Chamo (a caravana) de doutorado que o Lula fez em Brasil profundo.
“Lula, volume 2” fala muito das divisões internas do PT, rachas e expulsões. Como você construiu essas passagens?
Embora eu nunca tenha sido do PT, sempre tive relações muito próximas, desde o começo. Não só com o Lula, mas com o Zé Dirceu, com o Zé Genoino, com o pessoal todo da direção do partido. Eu acompanhava as guerras internas. O Zé Dirceu era a mão de ferro utilizada pelo Lula para as degolas dentro do partido. O próprio Vladimir Palmeira (um dos fundadores do PT, desde 2013 no PSB) me contou a história que está no livro. Eu o encontrei numa festa de solidariedade ao Zé Dirceu, que tinha sido cassado por causa do Mensalão. Falei: “Vladimir, você é um sujeito generoso. O Zé Dirceu passou a navalha no seu pescoço, te impediu de ser candidato ao governo do Rio de Janeiro (em 1998). E você está aqui, solidário.” Ele respondeu com aquele sotaque alagoano forte: “Não, Fernando. Zé Dirceu só passou a faca. Quem me degolou foi Lula”. Encarregado pelo Lula de fazer o serviço pesado, chega uma hora que a serpente se vira contra Zé Dirceu. Ele, que era candidato a governador de São Paulo (em 1994), teria de retirar a candidatura para o Lula poder fazer aliança com Tasso Jereissati (o tucano sairia como vice do petista na campanha presidencial, o que não se concretizou). Ele queria juntar PT e PSDB, o que teria mudado a história do Brasil se tivesse dado certo. Lula sempre foi um grande conciliador, sempre procurou fazer aliança para o centro, nunca para esquerda. Ele teve de engolir (como vices) primeiro o (José Paulo) Bisol (em 1989), depois o Aloizio Mercadante (em 1994) e depois o Leonel Brizola (em 1998). Foram as eleições que perdeu. Quando consegue plantar o Zé Alencar como vice, ele ganha.
O livro traz, na parte final, o encontro de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, e Delúbio Soares, tesoureiro do PT, com o primeiro cobrando do segundo o dinheiro da campanha. Esta passagem curta é spoiler do terceiro volume? Aliás, escrever sobre o Mensalão é uma pedra no seu sapato?
No meu não, porque nunca tive nenhum tipo de ligação com o PT. Mas é uma pedra no sapato da esquerda, do setor progressista da política brasileira. De uma hora para outra, um partido que tinha como norma a retidão moral é acusado pela imprensa e opinião pública de ter metido a mão. Resolvi ir atrás. Quem estava por trás disso? O Valdemar Costa Neto e o Delúbio. Aquilo prova que, na verdade, nunca houve Mensalão do jeito que ele foi denunciado pelo Roberto Jefferson. O que houve foi uma dívida de campanha. O PT precisava de R$ 30 milhões para poder pagar a campanha dele, PT, e a campanha do PL. A gente não pode esquecer que o PL, que é hoje de extrema direita, foi o partido do Zé Alencar. Fui entrevistar o Valdemar e o Delúbio. Eles me contaram, separadamente, a mesma história: na hora de dividir as tarefas políticas, dividiram-se também as despesas. Quando ele (Costa Neto) vai cobrar o dinheiro, não tem. Aí o Delúbio diz: “Olha, tem um publicitário em Minas Gerais (Marcos Valério) que é amigo de dois banqueiros, que podem levantar esse dinheiro para o PT como empréstimo”. Você tem toda a razão de dizer que isso é spoiler do que vai vir no volume 3 da biografia, o mergulho nas vísceras do que foi o Mensalão.
Diante da sua proximidade com o presidente Lula, criticou-se a falta de isenção no primeiro volume da biografia. O que você tem a dizer a respeito disso?
Fiz este livro com a mesma honestidade que fiz o “Chatô”, “Olga”, “A ilha”. Acho que o fato de o Lula nunca ter dito absolutamente nada sobre o livro é, para mim, um elogio. Se ele tivesse adorado, teria dito: “Olha, eu recomendo, não deixe de comprar”. Não me sinto nem de longe atingido por alguma suspeita. Não fiz livro de amigo, fiz livro de um personagem, como se nunca tivesse visto o Lula na minha vida. A vantagem de conhecê-lo há 50 anos é que sei de coisas que ninguém precisou me contar.
“LULA, VOLUME 2”
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• De Fernando Morais
• Companhia das Letras
• 352 páginas
• R$ 89,90 (livro)
• R$ 39,90 (e-book)
• Lançamento nesta segunda-feira (30/3)