Livro desconhecido de Clarice Lispector é encontrado em São Paulo
Segundo o biógrafo Benjamin Moser, o livro de receitas "Cozinha para brincar", de 1970, tem a assinatura e o tom da escrita de Clarice
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Um livro de Clarice Lispector, até agora desconhecido pelos grandes estudiosos, acaba de chegar às mãos do biógrafo Benjamin Moser. O exemplar, um livro de receitas intitulado "Cozinha para brincar", foi comprado no início deste mês na feira de antiguidades do Bairro Bixiga, em São Paulo, pelo livreiro Gilvaldo Amaral Santos.
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Notando a assinatura de Clarice na primeira página, Gilvaldo, dono do sebo de raridades O Buquineiro, entrou em contato com o pesquisador americano Moser, autor da biografia "Clarice", publicada em 2009.
Gilvaldo e Benjamim se conheceram quando a biografia estava sendo escrita e desde então mantêm contato para compartilhar achados raros de Clarice e de outros nomes da literatura brasileira. Mesmo após anos de pesquisa, ambos afirmam desconhecer o livro encontrado neste mês.
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"Cozinha para brincar" foi impresso pelo Centro Nestlé de Economia Doméstica em 1970 e, como diz Moser, parece o tipo de publicação distribuída em supermercados. A obra, ilustrada pela artista plástica Odiléa Setti Toscano, reúne receitas como "barcos de salsicha", "omelete tira-prosa", "mingau engraçado" e "bolo peteleco", que usam produtos da marca Nestlé.
Além da assinatura no prefácio, o biógrafo afirma que o tom de Clarice, como visto em especial nos seus livros infantis, indica que ao menos o texto de abertura foi escrito por ela. "Quem conhece a escrita de Clarice a reconhece no livro, porque é algo que não se pode imitar", explica.
Moser se voltou à autora e à literatura brasileira ainda na faculdade, quando estudou português. Em mais de três décadas de pesquisa, ele nunca encontrou registros que destacassem a relação de Clarice com a cozinha. O próprio filho da autora, Paulo Gurgel Valente, já disse ao biógrafo que não se lembrava da mãe preparando nada além de uma xícara de café.
A nova descoberta, segundo Moser, não altera suas impressões sobre a autora, mas o leva a refletir sobre o contexto em que o livro foi produzido. A Clarice desta obra se aproxima de uma mulher de classe média típica da época, diz. "Poderíamos fazer uma grande crítica feminista com base no livro. Clarice não escreve: 'faça isso com sua filha', mas isso está implícito."
"O livro não é um 'A paixão segundo G.H.' e não acrescenta muito ao que já sabemos sobre Clarice, mas ainda assim é uma descoberta emocionante", conta.
Segundo Moser, é possível que ela tenha escrito o livro porque, após se separar do diplomata Maury Gurgel Valente, em 1959, precisava de dinheiro.
Outro aspecto que chamou a atenção de Moser foi o estado de conservação do livro que, segundo ele, comprova sua origem brasileira. "É possível identificar um livro do Brasil pelo cheiro de mofo", diz, atribuindo essa característica ao clima quente e úmido do país.
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Moser afirma que muitos dos livros brasileiros raros fogem do padrão tradicional de obras valiosas e se parecem com "Cozinha para brincar", "baratos e impossíveis de encontrar". Ele aponta essa falta de tradição na preservação como um dos fatores que levaram o livro a ficar nas sombras por tanto tempo.
Nos Estados Unidos, por exemplo, há o costume de doar e vender coleções literárias para instituições públicas. "Por isso as bibliotecas e universidades por aqui são tão ricas", afirma.
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O biógrafo atribui o achado de "Cozinha para brincar" à frase latina "habent sua fata libelli", que, em português, pode ser traduzida como "os livros têm o seu próprio destino".