'Águas de março', de Tom Jobim, escapou por pouco da censura dos militares
Livro revela que trechos da letra foram vistos como subversivos. 'Fim do caminho' seria recado contra a ditadura; 'é pau' aludia à violência da repressão
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Em março de 1972, Tom Jobim (1927-1994) praticamente morava em seu sítio em Poço Fundo, na região serrana do Rio de Janeiro, onde acompanhava a construção da nova casa. O cenário era caótico, com tijolos, madeira, cimento, vidro e areia espalhados por todos os lados. Foi então que, despretensiosamente, dedilhou o violão e esboçou: “É pau, é pedra, é o fim do caminho…”.
No meio daquela confusão, “Águas de março” nasceu como uma espécie de síntese da MPB. A canção condensa a sofisticação harmônica da bossa nova, o ritmo do samba e a poesia acessível da música popular. Ainda assim, ao ser submetida à censura, não foi imediatamente liberada.
Os primeiros versos ganharam significado político sob o olhar dos censores. “É pau” seria referência à violência policial; “pedra”, alusão ao líder estudantil do Maio de 1968 em Paris, Daniel Cohn-Bendit; e “fim do caminho”, metáfora do ocaso da ditadura militar (1964-1985).
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Resumindo: na leitura dos militares, a canção já se iniciava como um conflito. Coube ao produtor Eduardo Athayde usar a persuasão para esclarecer que não se tratava de nada disso, episódio relatado em “Águas de março: Sobre a canção de Tom Jobim”, que chega às livrarias neste sábado (28/3), pela Editora 34.
Organizado por Milton Ohata, o livro reúne ensaios de Augusto Massi, Arthur Nestrovski e Walter Garcia, além de fotos de Ana Lontra Jobim, segunda esposa do compositor.
“A censura tinha imaginação perversa, por assim dizer. Procurava pelo em ovo”, afirma Ohata, em entrevista por videochamada.
“O caso envolvendo ‘Águas de março’ é risível hoje, mas aconteceu. Foi um momento em que tudo poderia ter ficado em suspenso, ou até mesmo interrompido”, diz.
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A canção foi lançada pela primeira vez em maio de 1972, inaugurando o projeto Disco de Bolso do semanário O Pasquim. O compacto, intitulado “O tom de Antonio Carlos Jobim e o tal de João Bosco”, trazia “Águas de março” no lado A e “Agnus sei”, de João Bosco e Aldir Blanc, no lado B.
Fase mateira
No ano seguinte, a música foi regravada no LP “Matita Perê” e ressurgiu nos álbuns “Elis” (1972), de Elis Regina, no chamado álbum branco de João Gilberto (1973) e no clássico “Elis & Tom” (1974).
“Matita Perê” é considerado um marco na trajetória de Jobim, inaugurando o que passou a ser chamado de “fase mateira”. Sob forte influência de Heitor Villa-Lobos, o compositor se afasta da estética da bossa nova para explorar temas ligados à natureza, ao folclore e à paisagem brasileira.
“Este momento da vida dele é meio misterioso e insondável. A gente nunca vai saber direito”, observa Ohata. “Tom vivia uma espécie de luto da bossa nova, percebendo que ela já tinha passado e buscando novos caminhos musicais. Isso coincide com o período em que ele está no sítio que frequentava desde a década de 1940, acompanhando a construção de uma casa nova”, afirma.
“Por isso, os versos ‘é o tijolo chegando’ e ‘é o nó da madeira’. São todos elementos de construção. Ele estava construindo a casa, o que também tem sentido simbólico de recomeço”, acrescenta Ohata.
Outras influências importantes de “Águas de março” vieram do poeta Olavo Bilac (1865-1918) e do cantor e compositor Chico Buarque.
No início dos anos 1970, Jobim estava profundamente impactado por “Construção”, especialmente pelo uso de palavras proparoxítonas no fim dos versos, criando efeito rítmico singular. A admiração era tamanha que ele chegou a recortar a letra de Chico publicada em jornal e colá-la em seu caderno pessoal, como referência de rigor formal e modernidade.
No caso de Bilac, a influência é mais direta. A fonte de inspiração foi o poema “O caçador de esmeraldas”, que narra episódio da epopeia sertanista no século 17. No encarte de “O tom de Antonio Carlos Jobim e o tal de João Bosco”, o próprio compositor transcreveu os versos iniciais de Bilac e comentou: “Daí, creio, vêm as minhas Águas de março”.
Arquitetura
Embora o livro mantenha o foco na canção que lhe dá título, também analisa aspectos mais amplos da obra de Tom Jobim. Entre eles, a relação íntima entre música e a arquitetura.
O compositor carioca estudou na Faculdade Nacional de Arquitetura (FNA), foi estagiário de Jorge Moreira e amigo pessoal de Lucio Costa. Essas experiências se refletiram em sua maneira de compor, baseada no uso de “material sedimentado”, ou seja, a tradição do choro, o impressionismo de Debussy e o vigor de Villa-Lobos para erguer estruturas novas, aponta o livro.
“Águas de março: Sobre a canção de Tom Jobim” deixa claro que a música do maestro não seguia modismos da indústria e era projetada para resistir ao tempo, à semelhança dos projetos de Lucio Costa e Jorge Moreira.
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“ÁGUAS DE MARÇO: SOBRE A CANÇÃO DE TOM JOBIM”
• Organizado por Milton Ohata
• Ensaios de Augusto Massi, Arthur Nestrovski e Walter Garcia
• Editora 34
• 136 páginas
• R$ 72