Literatura

Fabiane Secches: a hora da estreia

Respeitada critica e ensaísta lança o primeiro romance, 'Ilhas suspensas', depois de passar 30 anos guardando seus textos de ficção na gaveta

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Fabiane Secches construiu sólida e respeitada carreira como ensaísta e crítica literária. Autora de “Elena Ferrante, uma longa experiência de ausência” e organizadora dos livros “Depois do fim, ensaios sobre literatura e antropoceno” (2022), “O dia escuro” (com Socorro Acioli, 2024) e “Na arca: Machado de Assis e os animais” (com Maria Esther Maciel, 2025), ela acaba de publicar seu primeiro romance, “Ilhas suspensas” (Companhia das Letras).

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Na trama, a personagem Mariana lida com deslocamentos culturais e geográficos por ter se mudado de país, além da velhice de seu cachorro, do luto pela perda da mãe e da desistência do sonho da maternidade.

Mineira de Itajubá, Fabiane também é psicanalista, escreve sobre cinema, colabora com jornais e revistas de circulação nacional. Também foi jurada de diversos prêmios literários, entre eles Jabuti, Oceanos e Biblioteca Nacional. Nesta entrevista, ela fala de sua estreita relação com a literatura e das motivações de sua escrita.


Qual foi a motivação para A sua estreia como romancista?

Na verdade, escrevo ficção desde criança. Com 15 anos, escrevi meu primeiro romance, que é de gaveta, não tem valor literário – experiência só mesmo pela diversão. Escrever sempre foi uma forma de me expressar, de criar mundos, até de brincar. Tenho 45 anos, do primeiro romance para cá foram 30 anos. Nesse meio tempo, escrevi outros, também de gaveta. Desta vez, pedi a leitura de alguns colegas, escritores e escritoras. Eles acharam que era hora de publicar, que era um trabalho que eu deveria apresentar para a editora. Com este livro, queria investigar um pouco a sensação de deslocamento, tanto o geográfico, que é o mais óbvio, quanto o psíquico.

O que “Ilhas suspensas” guarda de sua vida e de sua experiência pessoal?

Acho que todo livro parte da experiência pessoal. Mesmo os de fantasia ou ficção científica têm algo de autobiográfico. Sou imigrante há três anos, moro na Espanha atualmente. Comecei a escrever “Ilhas suspensas” em 2021, ele passou por várias versões. Algumas experiências que tive moldaram esse caminho, mas não é um trabalho de autoficção. Mariana vive o luto pela perda da mãe; a minha está viva. Ela divide a vida muito intimamente com um cachorro; eu não, embora goste muito de cachorros. Tem muita coisa que é fabulação. Outras são experiências minhas vividas ou testemunhadas.

Qual foi o ponto de partida para a história de “Ilhas suspensas”?

Nunca parei de escrever, mas este livro, em especial, nasceu do desejo de investigar a sensação de deslocamento que a protagonista tem. O livro começa com ela imigrando, mas rememorações mostram que, mesmo antes, ela já era estrangeira na própria vida. Sondar o desejo de pertencimento e a sensação de deslocamento era algo que me interessava, bem como outras questões queridas para mim, como a relação com os animais e a amizade. O casamento da Mariana é pano de fundo. O marido é um personagem, ele está lá, mas não é protagonista. Ela é protagonista, o cachorro é, a amiga Florence é, assim como toda a comunidade que se forma em torno dela. Tudo isso eu tinha vontade de explorar literariamente.

No livro, você cita diversos autores. Quais foram os escritores que te formaram e despertaram o seu gosto pela literatura?

É uma pergunta difícil. Tudo o que lemos, mesmo o que não gostamos, nos forma como leitores ou escritores. Nesta fase da minha vida, tanto no cinema quanto na literatura, estou interessada nas histórias mais singelas, histórias que não têm grandes acontecimentos, mas têm profundidade psíquica.

Como a escrita ensaística e a crítica literária entraram na sua vida?

Comecei a escrever crítica de cinema em 2002, quando tinha 22 anos. Sempre gostei muito de cinema, tanto quanto gosto de literatura. Depois, durante o curso de psicanálise, com os trabalhos que tinha de entregar a cada semestre, percebi que todos estavam ligados à literatura. Senti vontade de fazer mestrado em literatura e aí virou a chave de vez. Já escrevia crítica literária, mas resolvi me aprofundar. Estou na fase final de um doutorado no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP.

Qual foi o maior desafio durante a escrita de “Ilhas suspensas”?

Estou, como disse, interessada nessas histórias em que muita coisa acontece, mas não são coisas grandiosas. Isso é novo. Os livros que escrevi quando mais nova eram de grandes acontecimentos. O primeiro romance acompanhava a vida toda de um homem, da infância à velhice, era escrito em primeira pessoa. Depois passei a escrever em terceira pessoa e adotei protagonistas femininas, então teve um percurso até chegar em “Ilhas suspensas”. Para este livro, eu estava contagiada pelo universo da singeleza, da mistura e da coexistência da dor e da beleza.

A literatura e a psicanálise caminharam juntas em sua trajetória?

Sim, caminharam juntas. A psicanálise deve muito à literatura. Freud era um grande leitor, a literatura sempre sondou o mundo interior dos personagens, que é o que a psicanálise faz, de outra forma. O mergulho no mundo interior é comum às duas áreas.

Você tem planos de tirar outros livros de ficção da gaveta?

Não penso. Foram experimentações. Não são livros que acredito que tenham valor literário. Escrevia porque gostava de escrever. A aula de redação, para mim, era recreio. Penso, sim, em escrever outros romances, não sei se publicar. Com essa primeira experiência, isso pode vir a acontecer no futuro. Estou na fase final do doutorado, então não estou trabalhando em nenhum projeto literário no momento, mas a vontade de continuar escrevendo existe.

Você integrou júris de importantes premiações literárias. O que essas experiências  significaram?

Foram muito desafiadoras, porque os materiais são muito diversos. Há muitos livros de principiantes que já são maduros. Tem, por outro lado, autores que você percebe que precisam percorrer um caminho para amadurecer. Mas foram experiências muito ricas. É muito difícil avaliar um livro – não como crítica, mas como alguém que está julgando para um prêmio. É diferente. Claro que o exercício da crítica ajuda, dá experiência. Mas são coisas distintas.

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“ILHAS SUSPENSAS”

• De Fabiane Secches
• Companhia das Letras
• 160 págs.
• R$ 75

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