Em 'Corsária', Marilene Felinto revisita memória e heranças apagadas
Com sentenças memoráveis, autora demonstra plena maturidade ficcional na aspereza do livro vencedor do prêmio APCA de melhor romance de 2025
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“Isso de provar quem se é, quem se foi, leva tempo e acarreta dores na coluna vertebral”. Certeira como sua autora, a frase é apenas uma entre muitas sentenças memoráveis de “Corsária”(Ubu e Fósforo), mais recente romance de Marilene Felinto e vencedor do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor romance publicado em 2025. Demorou mais de duas décadas desde “Obsceno abandono: amor e perda”(2002) para seu retorno ao gênero. Para quem a acompanha há bastante tempo, a prosa afiada da autora pernambucana mostra plena maturidade ficcional.
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Não é pouco para quem estreou com o vigoroso “As mulheres de Tijucopapo” vencedor do Jabuti em 1982. Felinto tinha pouco mais de vinte anos quando escreveu a história de Rísia, jovem negra, pobre e nordestina que migra de Recife para São Paulo quando menina. Ali vive sucessivas transformações até retornar para conhecer o lugar de nascimento da mãe, a mítica Tijucopapo. Enquanto viaja, a personagem narra por meio de cartas o rompimento com o namorado e a experiência paulistana, as lembranças traumáticas da infância e o percurso rumo às origens no Capibaribe. Um livro como poucos, descrito pelo crítico José Maria Cançado como “uma espécie de arte dos que nada têm nada contra os que têm tudo”.
O segundo romance, “O lago encantado de Grongonzo”(1987) apresenta a pernambucana Deisi, que migra para uma cidade grande quando criança e retorna ao local de origem – a pequena região de Grongonzo – já adulta. Também deslocada, mas restabelecida no Nordeste, a protagonista rememora o passado migrante e os sofrimentos ao longo da caminhada. A escritora publicou, entre outros, o volume de contos “Postcard”(1991), o livro de crônicas “Jornalisticamente incorreto”(2000) e, mais recentemente, a coletânea de narrativas breves “Mulher feita e outras histórias” (2022). Apesar da trajetória consistente, laureada com prêmios e traduzida em outros idiomas, a relevância de sua obra deveria render mais estudos e, sobretudo, muito mais leitores e leitoras.
Recuperar essa genealogia ajuda igualmente a identificar a presença de personagens movidas pela raiva e cobrando o que o mundo lhes deve. “Sou uma pessoa com ódio”, sustenta Rísia. As narradoras se afastam daquele tom choroso apontado por Clarice Lispector em “A hora da estrela” (1977), na célebre provocação relativa à autoria feminina. Nada de lacrimejar piegas para contar a história dos oprimidos. O registro é outro; a hora é de confronto.
É o caso de Lena, que em “Corsária”deixa a cidade de Houston, onde vivia a trabalho, e parte em direção a Três Estradas, lugarejo do sertão paraibano. Após relação amorosa com Alvaro, companheiro nos Estados Unidos, e Betina, holandesa de origem mestiça, ela volta ao Brasil e narra seu acerto de contas. Ao descobrir uma certidão de nascimento que coloca em dúvida se a mãe poderia ser herdeira dos Lichthart, família de ricos negociantes de origem luterana que a adotaram sem qualquer registro, Lena decide se afundar em papeladas e documentos comprobatórios com o objetivo de recuperar essa “árvore genealógica de tronco ressequido”. Em meio a heranças usurpadas e sobrenomes omitidos, ela questiona uma série de violências históricas e desmandos familiares.
A infância na absoluta penúria com a mãe Laiane, que tivera seis filhos com Cristiano, em nada lembra o fausto de alguns dos prováveis antepassados. Tanto de um lado quanto de outro, a opulência corre no sangue das famílias, mas essas artérias são bloqueadas quando se trata do ramo torto, não reconhecido, de gente marcada por uma “ascendência caeté, preta, contaminada”, que constrói a riqueza para os outros e sente na pele a dor da exclusão.
Lavrar registros nessa marcha corsária significa ir contra os herdeiros desinteressados na revisão do patrimônio. Adotada ainda criança, como se fosse “da família”, a mãe servira como doméstica e agregada, dormindo em uma cama de capim. Ao contrário de Abel, o outro filho adotado, Laiane acaba não figurando na sucessão e, apesar das recorrentes humilhações, não endossa o projeto da filha. Nesse inventário de perdas e danos, por vezes alguns preferem apagar as memórias da dor. Outros bradam: “Não sou humilde!”, recusando a pobreza imposta, nunca congênita.
Na linhagem paterna, o bisavô escravizado e um pai cujos sonhos foram tolhidos por ser o rebento de uma relação ilegítima entre uma filha de holandeses e Malaquias, simples tocador de gado. Verdureiro, depois fuzileiro naval e operário, Cristiano foi perdendo na fábrica a saúde dos pulmões e dois dedos da mão, sem jamais obter assistência ou reparação.
Ao pensar a figuração de amputações e ausências, é curioso lembrar que Rísia, de “As mulheres de Tijucopapo”, se apresentava como figura gaga, debatendo-se contra uma herança de mutismo. Lena retoma o fio da gagueira, já que em “Corsária”o nó na garganta ainda se faz presente, bloqueando a fala, interrompendo o fluxo da comunicação, causando desconforto e lembrando a cada tanto como é difícil dizer aquilo que dói. Surge um relato reiterativo, que insiste, retoma, repete. No entanto, ele nunca soa cansativo, diante de frases talhadas com grande apuro, em um texto que não abdica da emoção, nem perde de vista a ferocidade - transmutada em fera, a criança marcada pela mudez agora deixa para trás um “rastro de espuma e sangue”na caça beligerante àqueles que a hostilizaram.
E para refazer uma trilha cheia de buracos, omissões e crimes, a personagem questiona “verdades”documentadas, motivo de tantos traumas e sofrimentos à população negra e indígena no Brasil. Uma história marcada pelo “mal de arquivo”, de acordo com a formulação de Jacques Derrida, que pensa o arquivo como local de autoridade, de tomada de poder e organização social.
No romance, interpelar o arquivo, pensado como “objeto de catástrofe”, nas palavras do filósofo de origem argelina, é refletir sobre a memória dos acontecimentos. Fuçar garranchos indecifráveis e fragmentos empoeirados equivale a lutar pelo direito de colocar - mesmo que na marra - o nome da mãe em cartórios, incluindo sua presença em espaços institucionais, reparando o que foi tolhido. Por isso tão bela a analogia do texto com o mata-borrão, papel de alta absorção usado para secar o excesso de líquido das canetas-tinteiro no passado, evitando as manchas em documentos oficiais.
O relato felinteano surge na contramão, como questionamento da ordem, borrando o que parecia verdadeiro, e, portanto, definitivo. O gesto de desarquivar e reescrever resulta em nova nódoa no papel, espaço que se queria livre de impureza: “No caso de minha mãe, procuro a memória de um sobrenome, uma identidade que tiraram dela, num percurso sem história, numa história nunca registrada, a narrativa da nossa inexistência, de nossa invisibilidade”.
Identificando-se com as baleias das histórias contadas pelo pai, a personagem reivindica o direito ao grito, encenando um feminino vigoroso e vingativo. O tom áspero da linguagem se relaciona com a releitura desses registros catastróficos, em que proliferam os nadaconsta e os a-quem-interessar-possa. “Sua insurreição sou eu, pai”, anuncia Lena. Ao confrontar o impacto das sucessivas calamidades, ela rasura esse texto antigo e autoritário e faz valer o urro do cachalote ferido.
STEFANIA CHIARELLI é professora e pesquisadora de literatura brasileira na Universidade Federal Fluminense (UFF). “Epigramas críticos” é uma de suas publicações mais recentes.
TRECHO
De “Corsária”, de Marilene Felinto
Rastreei casamentos de gerações anteriores e arrolei e classifiquei os homens, os patriarcas, os herdeiros, conforme suas profissões, ocupações, os cargos públicos ou políticos, busquei a correlação entre parentesco e poder, que o poder sempre esteve mesmo com eles, o dinheiro e a riqueza, com exceção dos sem origem, como meu pai e meu avô Malaquias. Montei composições genealógicas das famílias, catalogando descendentes diretos ou não, separando as mulheres em arquivos menores, dada a discplicência e a inexatidão das informações acerca delas.
“CORSÁRIA”
De Marilene Felinto
Ubu e Fósforo
176 páginas
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