Conceito de 'escrevivência' de Conceição Evaristo ganha livro
Dissertação de mestrado da autora, "Literatura negra: Uma poética de nossa afro-brasilidade" é publicada pela Pallas Editora
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Dissertação de mestrado de Conceição Evaristo que conceitua a ideia de ‘escrevivência’ disseminada pela autora, “Literatura negra: Uma poética de nossa afro-brasilidade” é publicada em livro
Em novembro de 2023, Conceição Evaristo desembarcou em Itabira (MG) como autora homenageada da terceira edição do Festival Literário Internacional da cidade, o Flitabira. Na ocasião, ela receberia o troféu Juca Pato de Intelectual do Ano, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE).
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“Não posso deixar de observar – e isso pode até parecer um pouco de ingratidão – que, num prêmio que ocorre desde 1962, é a primeira vez que uma mulher negra é laureada”, disse a escritora a este repórter na época. Era uma ressalva para que, no futuro, outros escritores e escritoras negros também fossem reconhecidos por seus trabalhos e contemplados pela premiação.
A observação ecoava uma reivindicação que ela vinha fazendo desde 1996, quando defendeu a dissertação de mestrado em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) “Literatura negra: Uma poética de nossa afro-brasilidade”, que rendeu a ela o troféu Juca Pato quase 30 anos depois.
A pesquisa de Conceição sai pela primeira vez em formato de livro pela Pallas Editora. Com apresentação de Denise Carrascosa, professora associada de literatura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a obra se divide em sete capítulos, sendo duas introduções.
Nela, a escritora mineira radicada no Rio de Janeiro afirma que existe uma forma de produção de conhecimento e de criação literária que nasce diretamente das vivências e experiência de sujeitos negros, especialmente de mulheres negras no Brasil. Em termos práticos, é a “escrevivência”, termo que ela sempre se refere em entrevistas e mesas-redondas.
“O corpo é o primeiro sinal visível do negro enquanto negro”, escreve ela. “Essa exteriorizaão inconfundível do corpo negro encontra delimitação no espaço devido a uma diferença étnica concreta. E o negro vazado pelo olhar do branco introjeta o julgamento/sentimento que o outro faz do corpo dele e se nega”, destaca.
Tendo sido o corpo negro violado em sua integridade física pelo sistema escravocrata do passado, contunua a escritora, coube aos descendentes dos povos africanos espalhados pelo mundo inventar formas de resistência. “Vemos, pois, a literatura negra buscar modos de enunciação positivos na descrição desse corpo negro”, afirma.
O conceito desenvolvido por Conceição é uma das chaves mais potentes para compreender não só sua obra, mas um modo específico de fazer literatura no Brasil. Resultado da fusão entre as palavras “escrever”e “viver”, o neologismo carrega ainda a ideia de “se ver” naquilo que se escreve. Não se trata apenas de um jogo de palavras engenhoso, e sim de uma tomada de posição, que parte de um histórico fundamentado na fala de mulheres negras escravizadas que tinham de contar suas histórias para ninar os filhos dos senhores da casa-grande.
Em pouco mais de 200 páginas, Conceição explica que a escrita não é exercício abstrato, tampouco mero virtuosismo formal. É parte da vida concreta, das experiências relacionadas à raça, gênero e classe social. É inscrever no texto as marcas do corpo e da memória.
A força representativa da escrevivência está no protagonismo das experiências de mulheres negras, historicamente afastadas dos espaços de poder e representação. São, principalmente, elas que transformam essas vivências em matéria literária, não como confissão individual, mas como expressão de uma experiência coletiva.
“Escrever o corpo com seus mistérios, potências e impotências, corpo esse que se tornou o lugar do invisível por meio da iniciação. É conservar a lembrança de uma ancestral cultura”, defende.
É aí que o conceito ganha densidade política. O “eu”que narra nunca está sozinho, ele carrega vozes, silêncios, ancestrais, traumas e resistências compartilhadas. Em vez de falar sobre o outro, fala a partir de si. E, ao fazer isso, rompe com a tradição que relegou sujeitos negros à condição de objeto da narrativa.
Ao reivindicar o corpo negro como lugar de produção de saber e de literatura, Conceição transforma a escrita em ato de resistência. A palavra passa a funcionar como forma de “reexistir”. Escrever passa a ser sobreviver, e registrar se torna afirmar humanidade diante de um histórico de apagamentos. Com o tempo, a escrevivência extrapolou a obra da autora e se consolidou como conceito crítico amplamente mobilizado nos estudos literários e culturais. Ainda assim, sua força permanece naquele gesto inaugural de transformar a própria vivência, e a de tantas outras mulheres negras, em narrativa. Mais do que uma categoria teórica, a escrevivência é um posicionamento no mundo.
PARA LER CONCEIÇÃO EVARISTO
Trechos de “Literatura negra: Uma poética de nossa afro-brasilidade” (Pallas Editora)
“Reconhecer a existência de uma literatura negra passa pelo reconhecimento valorativo de outras formas de expressão, e também por assumir um olhar crítico, sem paternalismo ou paixão, que nos possa deixar à vontade para contemplar um objeto que, como qualquer um outro, tanto pode oferecer a possibilidade de se inscrever no campo da arte, da criação, do novo, do invento, da descoberta, como pode também ser pertencente ao campo da repetição, da saturação, da monotonia.”
“Acreditamos na literatura como um fenômeno específico, mas não atemporal e nem a-histórico. O que não nos permite deixar de considerar as circunstâncias históricas em que a literatura negra vem construindo o seu discurso.”
“A par de todas as indagações e de qualquer afirmação sobre a inexistência do discurso literário negro, sabemos que ‘poesia de negro é axé’, conforme o verso do canto inicial com que o grupo Quilobhoje abre as suas ‘Rodas de Poemas’.”
“A literatura negra não é feita só de banzo, para isso o samba existe. O corpo esteve escravo, mas houve a esperança do quilombo. A capoeira hoje é apenas um jogo que se guardou na memória do corpo.”
“Antes os nomes eram marias, josés, bastiões, beneditos. Hoje nomes melodiosos atravessam o tempo-espaço do novo: Ainá, Tulane, Dandara, Nzinga Litule, Quisi, Aiba… As letras capinam as páginas dos livros, poemas muitos. As narrativas: romances, contos, textos teatrais também pedem passagem. Quem sabe um dia serão tantos como os poemas?”
“Atualmente, vários setores do campo literário, como a historiografia e a crítica, assim como a literatura comparada, podem servir-se de um novo objeto de pesquisa. Tratase da literatura produzida pelas culturas representativas que se convencionou a chamar de ‘minorias’: as mulheres, os negros, os índios, os homossexuais.”
“Sabemos que buscar a leitura de uma dessas formas narrativas à margem, através da literatura negra do Brasil, é transitar em um campo novo onde se ensaiam os primeiros debates suscitados por estudiosos… Sabemos também que, apesar do interesse de alguns, há uma deficiência de fontes teóricas sobre o assunto, o que torna, ao nosso ver, a temática ainda mais instigante…”
“Pretendemos, assim, uma abordagem da literatura negra como um possível espaço construtor, mantenedor e difusor de uma memória étnica, assim como um espaço revelador de uma poética de nossa afro-brasilidade”.”
“A literatura negra começa a surgir no seio da literatura brasileira desde Cruz e Sousa, Machado de Assis e Lima Barreto, segundo Octavio Ianni (‘Estudos afro-asiáticos’, 1988) – para ele, esses três escritores ‘criaram famílias literárias fundamentais da literatura negra’.”
“O exercício primeiro da literatura negra é a tentativa de criação de um discurso onde o negro surja como sujeito da história, que se desenrola em consonância ao modo negro de ser e de estar no mundo, isto é, orientada por uma cosmogonia negra, própria.”
“Ao falarmos de literatura negra, não nos baseamos somente em uma referência racial, mas pensamos, antes de tudo, na maneira como o escritor vai tratar, vai lidar com esse dado étnico que ele traz em si. Falamos de uma literatura cujos criadores buscam consciente e politicamente a construção de um discurso que dê voz e vez ao negro como sujeito que se autoapresenta em sua escritura…”
“Várias são as circunstâncias que colocam a literatura afro-brasileira como uma produção à margem da ‘grande literatura’. Se partirmos de uma análise sociológica da literatura, um dos aspectos que poderíamos ressaltar é o fato de ser uma literatura representativa de um grupo étnico e social apontado como ‘minoria’ e vítima de um ‘gueto invisível’ que se disfarça no discurso da ‘democracia racial’ brasileira.”
“É uma literatura que, sem dúvida alguma, tem um forte teor ideológico, ao lidar com a história do negro e sua inserção na sociedade, ao tomar como pano de fundo, ao eleger como uma de suas temáticas as relações étnicas brasileiras”.
“Os escritores negros também podem escrever-se através dos estereótipos que lhes são imputados pelo branco, A arte do dominado tem de travar duras batalhas consigo para desvencilhar-se do modelo exposto do dominador. É uma relação de atração e repulsão contínua, até que a arte do dominado encontre o seu próprio caminho.”
“Em se tratando de literatura, pautar esses caminhos com os pés negros é um exercício que exige redobrado esforço. (Luiz Silva) Cuti (“Encontro de poetas e ficcionistas negros brasileiros”, 1986) diz que um ‘escritor negro brasileiro pode se considerar órfão de raiz’, pois toda literatura que ele conhece ‘provém do extrato social dominante’, enquanto a música não, já que os antepassados negros legaram várias formas de expressão que o artista de hoje pode ter como referência. Entretanto, exorta para que ‘se deixe de lado a nostalgia da origem africana’, porque nos escritores negros pode-se encontrar ‘elementos que vão se tornar raiz na medida do crescimento de nossa literatura’. Cabe, pois, à literatura negra contemporânea fecundar o que se insinuou, o que brotou no passado, dar continuidade a essa voz, porque ‘além do tema está em jogo a expressão literária de um elemento social’...”
“A literatura negra tem um negro como protagonista do discurso e protagonista no discurso… Ao se falar de sujeito na literatura negra, não estamos falando de um sujeito construído segundo a visão romântico-burguesa, mas de um sujeito que está abraçando o coletivo. O sujeito contido na literatura negra tem a sua existência marcada por sua relação, por sua cumplicidade com outros sujeitos”.
“O corpo, na cultura negra, guardião na força vital, que para os nagôs é o axé e para os bantus é o muntun, tem uma relação direta com tudo que o cerca: pessoas vivas e mortas, natureza, bichos, elementos, também possuidores dessa força. E, a cada movimento produzido por esse corpo – o som, a palavra, o canto, a dança de lazer ou religiosa –, se atualiza aí um modo vital e discursivo desse corpo negro.”
“Se sobre o corpo negro imperava ou impera uma interdição, se ao corpo negro distâncias, hierarquias, questões políticas e sociais são impostas por causa de uma aparência física, a palavra literária negra procura afirmar essa alteridade como direito, buscando uma identidade perdida, esfacelada, que vai ser constantemente reinventada pela memória.”
“Ao se inscrever em sua própria escritura, apresentando o corpo como marca, como signo de uma dada cultura, o escritor afro-brasileiro produz uma literatura que se revela como uma escritura do corpo”.
“LITERATURA NEGRA: UMA POÉTICA DE NOSSA AFRO-BRASILIDADE”
De Conceição Evaristo
Pallas Editora
208 páginas
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