Quatro anos depois de deixar o “Late Night”, um dos programas de maior audiência da TV dos Estados Unidos, Conan O'Brien diz estar mais realizado do que nunca.
Longe da rotina diária do talk show, passou a investir em projetos autorais, como o podcast em que entrevista artistas que vão de Charli XCX a Jodie Foster, além do programa de viagens que apresenta na HBO Max.
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Em menos de um mês, ele volta ao palco do Dolby Theatre, em Los Angeles, onde comandará a cerimônia do Oscar pela segunda vez. A preparação já começou. Em entrevista a David Remnick, editor da revista “New Yorker”, no podcast “Radio Hour”, Conan contou que iniciou o trabalho com o roteiro há algum tempo, ao lado de sua equipe de comediantes.
Ele define a função de apresentar o Oscar como um exercício de “alto risco e talvez baixa recompensa”. Disse que, no ano passado, se divertiu e que uma cerimônia com quase cem anos de história permite certa liberdade para brincar com o próprio formato. O processo, segundo diz, consiste em produzir muitas ideias, aceitar que a maioria ficará pelo caminho e lapidar as poucas que realmente funcionam.
O humorista vem testando o material em clubes de comédia, diante de plateias reais, ajustando o texto a partir da reação do público. Ainda assim, reconhece que há limites. “Existem regras sobre o que pode ser dito e o que não pode ser dito. A Academia tem regras sobre o que você pode ou não fazer com a imagem de um Oscar; quero dizer, todo mundo tem regras”, afirmou na conversa com Remnick.
Desvio do script
Para ele, porém, o que realmente faz diferença é o inesperado. Diz até torcer para que existam momentos fora do script – nada tão extremo quanto o tapa de Will Smith em Chris Rock na cerimônia de 2022 –, mas pequenas quebras capazes de tornar a noite mais memorável.
“Você precisa estar aberto para que as coisas deem um pouco errado. As pessoas sabem instintivamente quando algo é real e momentâneo… Quando veem você reagir em tempo real como um ser humano e transformar aquilo em algo engraçado, isso tem 10 vezes o valor de qualquer coisa que você pudesse ter escrito”, afirmou.
Conan começou a carreira nos bastidores, escrevendo para programas de TV, antes de assumir o próprio talk show. A descoberta da comédia, segundo ele, foi um processo de eliminação ainda na infância – não era atleta, nem galã ou gênio da matemática.
Mesmo sendo uma criança quieta, percebeu que conseguia fazer os amigos rirem. Formado pela universidade de Harvard, onde integrou uma tradicional revista de humor estudantil, construiu carreira premiada, com diversos Emmys. No ano passado, atuou no filme “Se eu tivesse pernas te chutaria”, de Mary Bronstein, que rendeu indicação ao Oscar de Melhor Atriz para Rose Byrne. Ele interpreta o terapeuta da personagem de Byrne.
Críticas
A estreia como apresentador, na edição 2025 do Oscar, dividiu opiniões na imprensa norte-americana. O “Hollywood Reporter” avaliou que ele foi um anfitrião competente, com momentos de texto afiado, mas apontou algumas escolhas fora de tom.
O “Deadline” destacou o esforço para se provar no posto, citando o monólogo de abertura inspirado no longa “A substância”, com ele surgindo de dentro da imagem do corpo da atriz Demi Moore. Já a “Variety” afirmou que ele se saiu muito bem, elogiando o número musical apresentado por ele, intitulado “Não vou desperdiçar tempo”.
No Brasil, uma piada gerou reação negativa nas redes sociais. Ao mencionar o filme “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, que saiu da premiação com o Oscar de Melhor Filme Internacional, disse que era a história de uma mulher que fica sozinha após o marido desaparecer e comentou que sua esposa viu o filme e afirmou que gostaria que aquilo acontecesse com ela.
A plateia reagiu com aplausos, mas o comentário aplicado à história de Eunice Paiva, cujo marido foi sequestrado e morto pela ditadura, foi duramente criticado on-line.
Na entrevista a Remnick, O'brien comentou a tragédia do assassinato do cineasta Rob Reiner e de sua esposa, Michele. Os dois foram mortos em dezembro passado, a golpes de faca. Nick Reiner, filho do casal, foi preso como principal suspeito. As mortes ocorreram poucas horas depois de uma festa na casa do comediante que teve o casal Reiner e seu filho como convidados. “Fiquei em choque por bastante tempo depois que isso aconteceu. É terrível”, disse.
O comediante disse que tem dificuldade em lidar com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, como tema para humor. “Isso não está me inspirando muitas risadas agora. Quando faço comédia política, ela precisa realmente ressoar comigo, parecer verdadeira para a minha voz cômica, ou soará vazia”, afirmou.
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Resta saber como temas como a ofensiva anti-imigração dos EUA, muito abordada no Grammy; a Palestina, central no mais recente Festival de Berlim; e o filme brasileiro da vez, “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, irão aparecer na cerimônia do dia 15 de março.
