O brasileiro Wagner Moura, indicado ao Oscar de Melhor Ator por “O Agente Secreto”, criticou a radicalização política dos Estados Unidos, falando que vive um momento de tensão e revelou ter receio de um eventual encontro com agentes do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos). A declaração foi dada em entrevista ao jornal espanhol El País.
“Estamos passando por um momento muito feio, até eu tenho medo de dar de cara com a imigração”, disse o ator, que mora há anos em Los Angeles com a esposa, a fotógrafa Sandra Delgado, e os três filhos.
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Na entrevista ao El País, Moura afirmou que o clima político nos Estados Unidos o preocupa, especialmente diante da atuação das autoridades migratórias. “Reajo de forma explosiva quando vejo injustiça ou autoritarismo. E agora não sei se conseguiria, porque aqueles desgraçados podem matar, como vimos”, declarou.
Em outro momento, ele citou a realidade de alguns latinos no país norte-americano. “Conheço muitos latinos que estão se escondendo em casa, com medo até de levar os filhos para a escola”, apontou.
O ator também traçou paralelos entre o Brasil e os EUA nos últimos anos. “É óbvio como as histórias recentes dos dois países são semelhantes. Impressiona como são os mesmos tipos de pessoas escolhidas para o poder, com o mesmo padrão ideológico”, criticou, citando os ex-presidente Jair Bolsonaro e o atual líder dos Estados Unidos, Donald Trump.
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Crítico do ex-presidente Jair Bolsonaro, Moura relembrou que enfrentou dificuldades para lançar seu filme Marighella, que chegou aos cinemas apenas em 2021 após impasses no período do governo anterior. Ele também mencionou o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump ao comentar a polarização política.
Na entrevista ao El País, Wagner Moura elogiou a postura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diante de pressões políticas recentes. Ele afirmou ter “muito orgulho” da forma como Lula agiu quando foi pressionado por Donald Trump a libertar Jair Bolsonaro. Segundo Moura, Lula foi “politicamente astuto” na condução do episódio.
O ator também destacou que a reação institucional do Brasil aos ataques às suas instituições tem relação com a memória da ditadura militar. Para ele, diferentemente dos Estados Unidos, o Brasil carrega o trauma de um regime autoritário recente, o que influenciaria a forma como o país lida com ameaças à democracia.
Para Moura, a radicalização política está ligada ao impacto das redes sociais. “Os fatos não importam mais. As pessoas lidam com versões da realidade. O que você vê é diferente do que um apoiador de Bolsonaro vê. Talvez essa pessoa não seja má, mas viva em um mundo paralelo”, afirmou.
Segundo ele, setores progressistas perderam espaço nesse ambiente digital. “Há dez anos, éramos ingênuos. Achávamos que as redes seriam ferramentas de democratização. Hoje é evidente a aliança entre oligarcas da tecnologia e a extrema direita. Nós, progressistas, perdemos a batalha das redes sociais”, decretou.
Arte política e memória
Mesmo com críticas a Bolsonaro, Moura tirou algo positivo do período: a parceria com Kleber Mendonça Filho se fortaleceu. “Nós dois criamos arte política”, disse Moura, ao comentar o contexto de produção de “O Agente Secreto”, que aborda a ditadura militar brasileira e a importância da memória histórica.
“O golpe do passado não pode mais ser apagado. É por isso que acho tão importante que esse filme esteja sendo lançado agora”, afirmou.
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Em meio à campanha intensa pelo Oscar, o ator disse tentar manter o equilíbrio. “É lindo, mas a realidade me alcança quando chego em casa e meus filhos estão me esperando", confessou.
