
O que o espectador vê num filme não é o cinema, afirma diretor
Na Mostra de Tiradentes com o longa "Relâmpagos de críticas, murmúrios de metafísicas", Júlio Bressane disse que "Toda a trama do cinema é para ocultar"
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A programação do fim de semana da 28ª Mostra de Cinema de Tiradentes fez jus ao tema deste ano – "Que cinema é esse?" – especialmente em razão de dois filmes que oferecem respostas bem diversas à questão. "Malês", de Antônio Pitanga, exibido na noite de sábado (25/1), na Mostra Praça, e "Relâmpagos de críticas, murmúrios de metafísicas", de Júlio Bressane e Rodrigo Lima, exibido na tarde do domingo (26/1), demarcam dois tipos de cinema, ambos carregados de intenções.
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Antes da exibição de seu novo longa, Bressane participou, ao lado do codiretor, do debate "Que cinema é esse? Em busca das imagens inéditas e inauditas", no sábado à tarde. Ele falou da obra, que é, sobretudo, um trabalho de montagem, que compila e costura imagens de 48 filmes brasileiros realizados entre 1989 e 2022 e que são lampejos de inovação, de experimentação e, nas palavras do diretor, do cinema que não se dá a ver.
"O que o espectador vê são os atores, a trama, as imagens em movimento, mas o cinema, aquilo que organiza, você não vê; é invisível, está oculto no filme. Apenas em alguns momentos ele se desvela, ele aparece. Toda a trama do cinema é para ocultar", diz.
Ele considera que fazer filmes é algo que depende do "tipo de desgraça que a pessoa sente diante do mundo", de seu temperamento e do tipo de patologia de que ela padece. "O cinema foi inventado como uma forma de pensamento, então é uma coisa muito difícil de sentir", diz.
Experimental de berço
"Todo filme brasileiro é experimental. Por quê? Porque não tem tradição de coisa alguma, somos um país bárbaro, sem tecnologia, sem nada. Se você recebe uma câmera e vai filmar, é um experimento. Você vai fazer tudo pela primeira vez, sem saber direito o que é aquilo. E é por isso que os filmes são feitos", afirmou Bressane.
No debate de sábado, o diretor evocou a ideia de "transpassibilidade". "A coisa mais importante para nós é sentir, e para sentir você precisa de uma passibilidade total. Um grande escritor argentino, cego, foi levado para conhecer as pirâmides do Egito. Ele chegou, botou a mão na pedra da pirâmide e sentiu ali uma superfície rugosa, áspera, e disse ter sentido não a pirâmide, mas a riqueza do passado."
Rodrigo Lima, que trabalha como montador dos filmes de Bressane desde "Cleópatra" (2007) e mais recentemente tem atuado ao seu lado na direção, disse: "Somos presos em amarras desde que nascemos, tudo tem uma função. Trabalhar com Bressane ajudou a me libertar um pouco dessas amarras. Você começa a operar dentro da linguagem, e a linguagem é transformadora da realidade".
Em outro ponto do fazer cinematógrafico está "Malês". Alinhado ao cânone dos épicos hollywoodianos, o filme acompanha dois jovens muçulmanos que, durante seu casamento, são arrancados de sua terra natal, na África, e escravizados no Brasil. Separados pelo destino, eles lutam para sobreviver e se reencontrar, enquanto se veem envolvidos na maior insurreição de escravizados da história do Brasil, a Revolta dos Malês.
Além de dirigir, Antônio Pitanga atua no filme, ao lado dos filhos Rocco e Camila PItanga, e de um elenco formado majoritariamente por atrizes e atores negros.
"Esse é um projeto com que venho sonhando por 26 anos, sendo que, nos últimos 18, tenho caminhado junto e buscado entender, com Manuela Dias (roteirista) e Flávio Tambellini (produtor), como realizar, procurando os apoios financeiros necessários para fazer um filme de época", diz o diretor.
"Malês" custou R$ 17 milhões e quase teve sua estreia na Mostra de Tiradentes comprometida, por causa da chuva que caiu pouco antes do horário programado para a exibição, ao ar livre.
O filme acabou atraindo um público numeroso. "Se você se dispõe a fazer um trabalho de época, não pode ser pequeno. Não quero tapear, quero a câmera aberta, quero o mercado, quero gente, pessoas lutando, quero o veleiro, com uma equipe grande e qualificada", diz Pitanga.
Hilda Hilst na telona
A programação desta segunda-feira (27/1) reserva espaço para a exibição de um filme adaptado da obra de Hilda Hilst. O curta "Osmo", de Pablo Gonçalo (DF), é um dos títulos em competição na Mostra Foco.
No conto original de Hilst, o personagem narra sua história em primeira pessoa, num fluxo de linguagem que gera um monólogo ao mesmo tempo cativante e repulsivo. O curta traz à tona o debate sobre machismo e masculinidade tóxica. A exibição dos curtas da Mostra Foco está prevista para as 22h30, no Cine Tenda.