Como o cérebro humano percebe a guerra: uma visão da neurociência
Conflito mundial gera grandes impactos na vida humana uma vez que, em situações de perigo, as estruturas da amígdala cerebral entram em ação
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
A guerra é analisada pela história, pela política e pela geopolítica. Entretanto, existe outra perspectiva, igualmente importante para compreender tais impactos: a visão da neurociência. Antes de ser um evento político, a guerra é uma experiência profundamente humana — e, portanto, cerebral.
Ao longo da evolução, o cérebro humano foi moldado para responder rapidamente a ameaças. Em situações de perigo, as estruturas como a amígdala cerebral entram em ação, identificando sinais de risco e ativando o sistema de defesa do organismo. O processo desencadeia a conhecida resposta de luta, fuga ou congelamento, preparando o corpo para reagir.
Em contextos de guerra, esse sistema permanece ativado por períodos prolongados. Bombardeios, sirenes, deslocamentos forçados, perdas familiares e incerteza constante mantêm o cérebro em estado contínuo de alerta. A liberação persistente de hormônios do estresse, como o cortisol e a adrenalina, altera o funcionamento de regiões cerebrais importantes para a memória, a tomada de decisões e a regulação emocional. Por isso, não é raro que populações expostas a conflitos apresentem altos índices de transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade e depressão.
A guerra não afeta apenas quem está diretamente no campo de batalha.
Leia Mais
Em um mundo hiperconectado, imagens e notícias de conflitos circulam globalmente em tempo real. O cérebro humano, ao processar essas informações, reage emocionalmente como se estivesse diante de uma ameaça próxima. O fenômeno é conhecido na psicologia como estresse vicário ou trauma indireto. Em outras palavras, mesmo à distância, o cérebro experimenta medo, tensão e sensação de insegurança.
Outro aspecto importante é o impacto da guerra na percepção de identidade e pertencimento. A neurociência social mostra que o cérebro humano organiza o mundo a partir de categorias de grupo — “nós” e “eles”. Em contextos de conflito, esse mecanismo pode ser intensificado, favorecendo polarizações e desumanização do outro.
A ampliação desse processo com discursos ideológicos e propaganda, pode reduzir a empatia e facilitar comportamentos agressivos. Entretanto, o cérebro humano também possui outra característica extraordinária: a capacidade de empatia e cooperação.
As mesmas estruturas neurais que permitem reconhecer ameaças também possibilitam compreender o sofrimento do outro e mobilizar solidariedade. É por isso que, mesmo em cenários de guerra, surgem redes de ajuda humanitária, acolhimento a refugiados e movimentos de reconstrução social.
Segundo a neurociência, o cérebro humano carrega duas possibilidades fundamentais: a da defesa e a da compaixão. A guerra revela o quanto as pessoas são vulneráveis ao medo, mas também o quanto são capazes de reconstruir laços. Talvez, compreender o funcionamento do cérebro diante da violência seja um passo importante para lembrar que a paz não é apenas um acordo político — é também uma conquista neurobiológica e cultural que precisa ser constantemente cultivada.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
*** Leia mais no site e redes sociais draangelamathylde
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
