Como se muda de voz? Saiba como funciona a cirurgia
Procedimentos podem ser indicados para pessoas que não se reconhecem na própria voz; mulheres trans estão entre os públicos que podem se beneficiar das técnicas
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A comunicação é um pilar essencial na forma como cada pessoa se expressa e a voz tem um papel fundamental, sendo uma importante ferramenta para uma parcela considerável da população. Segundo a Academia Brasileira de Laringologia e Voz (ABLV), cerca de 70% da população utiliza a voz como principal ferramenta de trabalho. Além disso, ela também é essencial para a construção da identidade pessoal. Quando não está alinhada às expectativas individuais, a voz de uma pessoa pode gerar desconforto e impactar a comunicação, as relações pessoais, a autoestima e, até mesmo, o desempenho profissional.
Entre as possibilidades de tratamento para esses casos estão as cirurgias de mudança vocal, técnicas que vêm ganhando destaque como alternativas para pacientes que não alcançam os resultados esperados apenas com a fonoaudiologia ou outros tratamentos clínicos. Segundo o otorrinolaringologista Guilherme Catani, do Hospital IPO, em Curitiba (PR), a indicação está relacionada principalmente ao sofrimento causado pela insatisfação com a própria voz.
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“A cirurgia de mudança vocal é indicada em pacientes que não se sentem bem com a própria voz, o que pode causar uma disforia, ou seja, uma sensação de não reconhecimento daquela voz como sua. Em alguns casos, podemos fazer terapia fonoaudiológica antes, enquanto outros pacientes optam diretamente pela cirurgia. Mas o pós-operatório com fonoterapia é fundamental”, explica.
Por que temos vozes diferentes?
A voz é resultado de uma combinação de diferentes fatores, como comprimento e tensão das pregas vocais, força do fluxo de ar produzido pelos pulmões, tamanho do trato vocal (distância entre a laringe e a boca) e características das áreas de ressonância, como língua e seios da face. Por isso, a escolha da técnica cirúrgica depende de uma avaliação específica para cada paciente.
O especialista esclarece que existem diferentes procedimentos para mudança vocal, entre eles as tiroplastias e a glotoplastia. “As tiroplastias são cirurgias da estrutura da laringe, nas quais podemos modificar a tensão ou a posição da prega vocal. Já a glotoplastia, que é a cirurgia de feminização vocal, atua diretamente no comprimento das pregas vocais”, explica.
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Independentemente da técnica escolhida, o resultado passa por um período de adaptação e reabilitação. “Tanto na cirurgia para deixar a voz mais grave quanto na cirurgia para deixá-la mais aguda, inicialmente esperamos uma voz mais rouca e mais fraca. Com a terapia fonoaudiológica, ela vai ganhando qualidade ao longo do tempo”, afirma Guilherme. Além da escolha da técnica, o período de recuperação e a reabilitação fonoaudiológica são fundamentais para a qualidade do resultado final.
Entre os principais desafios está alinhar as expectativas do paciente ao que é possível alcançar com o procedimento. “Às vezes, a pessoa deseja uma voz extremamente aguda, que não vamos conseguir entregar com a cirurgia”, completa.
Como funciona a avaliação?
Antes da cirurgia, o paciente passa por uma avaliação detalhada, que pode ser realizada presencialmente ou de forma online. Segundo o médico, essa etapa é fundamental para compreender as expectativas, identificar quais mudanças são possíveis e alinhar os resultados esperados. “A gente entende o sofrimento, o que está incomodando e quais alterações podemos promover na voz. Às vezes, a pessoa tem um desejo que é irreal e que não vamos conseguir mudar com a cirurgia”, explica.
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Um dos principais mitos relacionados ao procedimento é que o paciente pode escolher exatamente como será sua nova voz. “Não é como trocar um chip e colocar a voz de um cantor, por exemplo. É a própria voz da pessoa, mas vibrando em outra frequência”, pondera.
Outro equívoco é acreditar que mulheres trans precisam realizar a cirurgia de redesignação sexual antes da cirurgia de voz. Segundo o especialista, os procedimentos são independentes. “A cirurgia de voz pode ser feita independentemente de a mulher trans ter feito ou não a cirurgia de redesignação sexual”, afirma.
Quando a consulta inicial é feita online, a avaliação presencial é realizada antes do procedimento, com exames como laringoscopia, gravação da voz e análise das medidas acústicas.
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Além de alterar o tom da voz, as cirurgias de mudança vocal também promovem o alinhamento entre a comunicação e a identidade de cada paciente. Quando bem indicados e associados à reabilitação fonoaudiológica, os procedimentos podem resultar em uma voz que favoreça a confiança para se comunicar e impacte positivamente diferentes aspectos da vida pessoal, social e profissional.