FLACIDEZ

Face derretida: entenda o efeito colateral da caneta emagrecedora

A pele nem sempre retrai proporcionalmente à perda de gordura; cirurgião plástico explica a alteração anatômica cita diferentes técnicas de reposicionamento

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As chamadas canetas emagrecedoras tornaram-se um dos fenômenos médicos e culturais mais marcantes dos últimos anos. Inicialmente desenvolvidas para o tratamento do diabetes tipo 2 e, posteriormente, incorporadas ao arsenal terapêutico da obesidade, drogas como Ozempic, Wegovy e Mounjaro rapidamente ultrapassaram os limites do consultório endocrinológico e passaram a ocupar espaço no imaginário coletivo.

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Somam-se a esse cenário os pacientes submetidos à cirurgia bariátrica que há anos já vivenciam um fenômeno semelhante: a perda de peso significativa melhora marcadores metabólicos e reduz riscos clínicos importantes, mas frequentemente deixa marcas visíveis sobre a aparência corporal e facial.

Os benefícios médicos comprovados incluem melhor controle glicêmico, redução de peso e impacto positivo sobre fatores de risco cardiovasculares. O problema surge quando uma conquista legítima da medicina passa a ser interpretada como atalho estético, e quando o emagrecimento acontece em uma velocidade que a biologia facial nem sempre consegue acompanhar.

O corpo emagrece; o rosto, nem sempre

Nos consultórios de cirurgia plástica e dermatologia, tornou-se cada vez mais frequente o relato de pacientes que, após uma perda ponderal expressiva, sentem-se desconfortáveis com a própria imagem. Emagreceram, mas passaram a perceber no espelho um rosto mais cansado, esvaziado e envelhecido. O fenômeno ganhou, nas redes sociais, um nome informal e brutalmente descritivo: a “face derretida”.

“O termo é exagerado, mas descreve uma alteração anatômica real. A gordura facial não representa apenas volume estético supérfluo. Ela compõe estruturas fundamentais de sustentação e harmonia facial”, diz o cirurgião plástico Eduardo Sucupira, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.

Segundo o médico, quando ocorre uma perda abrupta desse tecido, sulcos tornam-se mais profundos, a região malar perde projeção, a linha mandibular se torna menos definida e a região periocular pode adquirir aspecto encovado. “O resultado é uma aparência que frequentemente não corresponde à vitalidade física recém-adquirida”, comenta.

Existe ainda um fator pouco discutido: a pele nem sempre possui capacidade de retração proporcional à velocidade do emagrecimento. “Em pacientes acima de determinada faixa etária, ou naqueles com envelhecimento facial já em curso, a perda de volume frequentemente vem acompanhada de flacidez cutânea, frouxidão ligamentar e deslocamento de tecidos profundos”, diz o médico.

Eduardo ressalta que, durante anos, tentou-se responder a essas mudanças quase exclusivamente com preenchedores, bioestimuladores de colágeno e tecnologias de superfície. “Essas ferramentas mantêm papel importante, sobretudo nos casos iniciais. Mas há limites anatômicos claros”, pondera.

“Não se corrige flacidez estrutural apenas adicionando volume. Em alguns casos, o uso excessivo de preenchedores criou um segundo problema contemporâneo: rostos artificialmente inflados, numa tentativa equivocada de compensar tecidos que, na verdade, precisavam ser reposicionados”, explica o especialista.

O retorno do lifting?

Nesse contexto, o lifting facial retorna ao centro da discussão estética de muito diferente daquela caricatura que marcou décadas anteriores. Persistiu por anos a imagem de que o lifting facial produzia rostos excessivamente tracionados, artificiais e sem expressão. “Essa percepção frequentemente está associada a técnicas antigas ou indicações inadequadas.”

“A cirurgia da face evoluiu porque passou a respeitar aquilo que a anatomia sempre demonstrou: o envelhecimento não ocorre apenas na pele. Ele envolve ligamentos faciais, compartimentos profundos e superficiais de gordura, estruturas cervicais e o chamado sistema musculoaponeurótico superficial, uma das principais estruturas de sustentação da face”, ressalta o médico.

A partir dessa compreensão anatômica, surgiram abordagens cirúrgicas mais sofisticadas e individualizadas. “Em alguns pacientes, técnicas de manipulação do sistema musculoaponeurótico superficial oferecem excelente reposicionamento. Em outros, procedimentos como o deep plane facelift podem atuar em estruturas mais profundas da face média. Há, ainda, abordagens com vetores verticais, tratamento cervical refinado e associação com enxertia de gordura quando a perda volumétrica é particularmente relevante” cita.

Eduardo alerta que não existe uma técnica universalmente superior. “Existe a técnica adequada para cada anatomia, para cada padrão de envelhecimento e para cada consequência específica do emagrecimento”, ressalta.

E aqui surge outro problema contemporâneo: a simplificação promovida pelas redes sociais. Procedimentos complexos passaram a ser vendidos como fórmulas prontas, enquanto determinadas técnicas são proclamadas como “superiores” sem respaldo científico robusto. Anatomia, experiência cirúrgica e individualização continuam sendo muito mais relevantes do que slogans técnicos.

Para o médico, maior desafio da medicina estética contemporânea talvez seja incorporar avanços sem produzir novas distorções. O emagrecimento medicamentoso e cirúrgico representa uma conquista importante da medicina moderna. Mas reduzir saúde a um número na balança é um erro conceitual.

O rosto participa da identidade, da autoestima e da forma como cada indivíduo se reconhece no espelho. Em muitos casos, perder peso foi apenas o primeiro capítulo. O desafio seguinte passou a ser preservar coerência estética entre corpo, rosto e identidade.

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“Como costumava dizer Ivo Pitanguy, 'a autoestima é um sentimento silencioso de paz consigo mesmo'. Num tempo obcecado por resultados rápidos, talvez o verdadeiro desafio seja exatamente este: emagrecer sem perder saúde, e transformar-se sem deixar de reconhecer o próprio rosto”, comenta o cirurgião.

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