As falas ampliaram o rol de desgastes entre os poderes e fizeram o líder do Executivo no Parlamento, Gustavo Valadares (PSDB), pedir perdão aos colegas e recomendar “silêncio” a Zema.
O governador criticou os deputados em entrevista à Rádio Super, de Belo Horizonte. O tom utilizado para se referir aos parlamentares aumenta a lista de “choques” entre o Palácio Tiradentes e a Assembleia.
Na segunda-feira da última semana (28/6), por exemplo, o poder Executivo foi acusado, pelo presidente do Legislativo, Agostinho Patrus (PV), de descumprir combinados que viabilizariam a votação do destino dos bilhões da Vale. No mesmo dia, Zema afirmou ao Estado de Minas não ter dado “nenhuma palavra” aos deputados.
Houve, ainda, críticas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada para investigar atos da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). No fim de abril, Zema gerou mal-estar ao anunciar, antes da votação no Legislativo, o pagamento de auxílio em parcela única às famílias em extrema pobreza.
Nesta quarta, Zema se apoiou em índices de áreas como segurança, educação e transparência para dizer ser alvo de críticas que considera injustas. “O meu governo está indo muito bem e incomodando muita gente”, sustentou.
E, ao tratar da apuração em torno da Cemig, foi além: “Acho que esses deputados que criticam meu governo não levantam a bunda da cadeira. Eles estão totalmente alienados e desconectados do mundo real. O mundo real é de falta de energia, e nós estamos levando energia trifásica a todo produtor rural”.
A reação entre os deputados da Assembleia Legislativa, que se reuniram nesta manhã para sessão plenária, foi negativa. O furor foi tamanho que Gustavo Valadares, que lidera as articulações governistas, pediu a palavra para se desculpar com os colegas. O tucano lembrou que a democracia é feita de “elogios e críticas”.
“O silêncio, neste momento, é o nosso maior aliado, governador. Sigo acreditando no seu governo, sigo acreditando na sua equipe, sigo acreditando na sua boa fé, na sua vontade de mudar para melhor o estado, mas lhe peço, para que eu e o deputado Raul Belém (do PSC, líder do bloco governista) possamos cumprir nosso objetivo, que é de construir pontes no Legislativo, eu lhe peço: por vezes, o silêncio é o melhor caminho”, clamou.
“Perdão! Desculpas. É o que o líder do governo pede a cada um dos 77 deputados desta casa. Assim espero que o governo também o faça”, sentenciou Valadares.
Lideranças da ALMG lamentam postura
Na Assembleia, lideranças dos blocos parlamentares repudiaram a forma como Zema se referiu aos deputados. André Quintão (PT), que encabeça a oposição, associou o governador a uma “metralhadora giratória”.
“O governador falou que a gente fica fazendo fofoquinha, com aquilo colado aí na almofada aí, na cadeira, e ele não, ele conhece Minas Gerais. A gente está com inveja, ele falou que a Assembleia está com inveja, incomodada com o sucesso do governo. Não altera um milímetro a relação política, relação de respeito. O governador foi eleito pelo voto direto, tenho respeito pessoal por ele. Vou colocar essa entrevista dele hoje como um, ou vários, mais um dos pontos fora da curva que ele tem feito”, opinou.
Cássio Soares (PSD), líder dos deputados independentes, também teceu críticas. “Quando ele diz que os deputados pouco fazem para Minas Gerais, pouco fizeram, acho que ele está muito equivocado. Acho que estava muito envolvido nas práticas comerciais, econômicas e empresariais e não acompanhou a história desta Casa na construção de capítulos importantes”.
‘Nenhuma palavra para a Assembleia’
O imbróglio em torno da Vale, encerrado nesta terça-feira (6/7), poderia ter sido resolvido há 16 dias, segundo deputados afirmaram nas últimas semanas. A confusão estava em torno da forma de repasse de emenda de R$ 1,5 bilhão, divididos pelos 853 municípios do estado. Enquanto os parlamentares desejam transferências diretas — modelo que acabou prevalecendo —, o governo queria a assinatura de convênios para regular os repasses.
Na semana passada, Agostinho Patrus, afirmou que os depósitos diretos haviam sido aceitos pelo governo, que recuou horas após o combinado ser firmado. Ao EM, no entanto, Zema deu versão distinta.
“Eu e meu governo não demos nenhuma palavra para a Assembleia, e a Assembleia tem autonomia, tem soberania, para poder fazer o projeto, emendar o que nós enviamos, na hora que ela quiser. Então, está na mão da Assembleia, não está nas nossas mãos. Desde que a Assembleia faça isso dentro do acordo que foi feito em fevereiro e dentro dos limites da lei, vamos acatar tudo”, falou.
Contudo, documentos revelados pela reportagem à época mostram que o Palácio Tiradentes chegou a enviar, ao Legislativo, um novo texto sobre o destino da verba bilionária, contendo dispositivo sobre os repasses às cidades.
CPIs: ‘Cabelo em casca de ovo’
A gestão de Romeu Zema é alvo de duas CPIs no Legislativo estadual: além do exame sobre a Cemig, há o comitê dos “fura-filas”, que apura irregularidades na aplicação de vacinas antiCOVID-19, que deve apresentar seu relatório final nesta quinta (8/7).
Na mesma entrevista ao Estado de Minas, na segunda da última semana, Zema questionou os critérios para a abertura dos inquéritos.
“Me parece que estão procurando cabelo em casca de ovo, e não gordura em pele de porco gordo, como deveria ser. Acho muito estranho tudo isso. Qual é o critério para abrir uma CPI? Procurar migalhas ou deixar passar elefantes e baleias?”.
Anúncio antecipado de auxílio
Em abril, deputados se preparavam para aprovar o Recomeça Minas, projeto de renegociação de dívidas de empresas que viabilizaria o pagamento, em parcela única, de bolsa de R$ 500 às famílias vulneráveis. Um dia antes da votação sobre a ideia, porém, Romeu Zema foi às redes sociais anunciar o auxílio, dando a entender que a ajuda era iniciativa exclusiva do poder Executivo.
A postura do governador deixou deputados descontentes. No fim das contas, o valor da bolsa foi reajustado para R$ 600. Zema pediu desculpas aos parlamentares, mas ouviu queixas de pouco diálogo com o Legislativo.
Insinuação
Em junho, quando o acordo com a Vale passou a compor a pauta de projetos formalmente analisados pelos deputados, Zema insinuou que alguns dos integrantes da Assembleia demonstravam pouca simpatia ao trato.
“Ele (o projeto sobre o acordo da Vale) está há 90 dias na Assembleia de Minas para ser avaliado, e alguns deputados parecem que não são favoráveis ao acordo, não. Esse acordo só existe para concluir obras inacabadas no estado”, disparou, ao programa “Pânico”, da “Rádio Jovem Pan”, de São Paulo.
