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Estado de Minas CHECAMOS

O vídeo de leitos vazios é de um hospital que tinha internados por covid-19 em outras UTIs no dia

Imagens são enganosas e não retratam a situação da pandemia no Brasil; internados no hospital mostrado estavam em outra ala de UTI para COVID-19


27/04/2021 21:34 - atualizado 28/04/2021 08:08

Um vídeo em que uma profissional de saúde percorre uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) exibindo leitos vazios e cantando em comemoração foi compartilhado centenas de milhares de vezes em múltiplos idiomas desde o final do último mês de março, como se retratasse a “realidade” da pandemia de covid-19 no Brasil.

Isso é enganoso. As imagens mostram uma ala de um hospital da Unimed em João Pessoa (PB), que no dia da gravação possuía mais de 70 internados por covid-19 em outras UTIs. Já na Grande João Pessoa, a ocupação dos leitos de UTI adulto era de 93% quando a sequência foi feita. 

“A FARSA DA COV-19- Enfermeiras mostram a realidade dos hospitais no Brasil. Segundo a MÍDIA DOS INFERNOS, as UTIs estão lotadas e os MALDITOS GOVERNADORES mantendo o povo preso em casa para evitar o colapso no sistema. TUDO UMA FARSA PARA ATERRORIZAR OS TROUXAS”, diz uma das legendas que acompanha o vídeo no Twitter.

Na gravação, uma profissional de Saúde abre as cortinas que separam os leitos em uma UTI e comemora que todos estão “livres”. Enquanto isso, outros membros da equipe cantam a música religiosa “Porque Ele vive”.

O vídeo também foi compartilhado mais de 320 mil vezes no Facebook (1, 2, 3) e em versões em inglês, espanhol, polonês e romeno afirmando que as imagens mostram “enfermeiras honestas” que decidiram revelar como “as alas de covid-19 estão vazias, em contradição com o que a mídia brasileira mostra ao mundo”.

Ala vazia, hospital não

As publicações viralizadas não indicam onde o vídeo foi gravado, mas uma análise das imagens permite chegar a essa informação. 

Aos 15 segundos da sequência é possível identificar, em um cartaz afixado a uma tela de computador, um símbolo verde, semelhante ao logo da Unimed, operadora de planos de saúde que tem hospitais próprios espalhados pelo Brasil. 

Captura de tela feita em 27 de abril de 2021 de uma publicação no Facebook
Captura de tela feita em 27 de abril de 2021 de uma publicação no Facebook

Procurada pelo AFP Checamos no último dia 26 de abril, a Unimed confirmou que as imagens foram gravadas em um de seus centros médicos, o hospital Alberto Urquiza Wanderley, em João Pessoa, capital da Paraíba. 

Segundo a companhia, o vídeo foi feito em uma das Unidades de Terapia Intensiva do hospital no plantão de 30 para 31 de março de 2021 em um “cenário momentaneamente favorável”.

“Após o crescimento de casos de covid-19, houve uma redução nos atendimentos, o que, naquele momento, possibilitou que [essa] UTI estivesse sem pacientes”, disse ao AFP Checamos. “O uso do vídeo em qualquer outro contexto que procure distorcer o fato em si é tendencioso e não verdadeiro”, acrescentou. 

A liberação dos leitos vista no vídeo foi possível, explicou a Unimed, porque o hospital Alberto Urquiza segue um “plano de contingência que possibilita que os leitos de enfermaria ou de UTI sejam expandidos ou retraídos de acordo com a demanda de pacientes”

No mesmo dia da gravação das imagens havia 77 pacientes com covid-19 internados em outras UTIs do hospital, informou a Unimed ao Checamos. No dia seguinte, eram 75. 

Em 27 de abril, havia 39 pacientes com covid-19 em leitos de UTI no Alberto Urquiza Wanderley. 

Situação do estado

Em 30 de março, além deste hospital, havia diversos internados por covid-19 em outras localidades da Paraíba, incluindo a Grande João Pessoa, ao contrário do sugerido nas publicações viralizadas.

De acordo com dados publicados na página da Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba (SES), 93% dos leitos de UTI adulto destinados a pacientes com covid-19 estavam ocupados na capital, enquanto o estado atingia 88%. No dia seguinte, esses números apresentaram uma queda, mas a ocupação se manteve em 86% e 85%, respectivamente. 

Os dados mais recentes fornecidos pela SES, do último dia 26 de abril, mostram uma melhora no panorama da capital: na Grande João Pessoa a ocupação de leitos de UTI adulto está em 55%. 

No estado da Paraíba, a ocupação desse mesmo tipo de leito estava em 53%, segundo as informações de 27 de abril, disponibilizadas na seção dedicada ao coronavírus no site do governo estadual.

Taxas de ocupação críticas no país

No Brasil como um todo, no entanto, a situação permanecia crítica. Um boletim publicado pela Fiocruz em 23 de abril de 2021 mostrava que as taxas de ocupação de leitos de UTI específicos de covid-19 para adultos no Sistema Único de Saúde (SUS) “se mantêm, em geral, em níveis muito elevados”

Embora a Paraíba seja mencionada como um dos locais com tendência de queda, 14 estados e o Distrito Federal apresentavam taxas de ocupação superiores a 90%, alguns deles também da região nordeste, como Piauí (94%), Ceará (98%), Rio Grande do Norte (93%), Pernambuco (97%), Sergipe (97%).

O número de mortes por covid-19 no país refletia essa realidade. A seis dias do fim, o mês de abril já era o mais letal da pandemia no país, com quase 68.000 óbitos. Somente nos quatro primeiros meses, 2021 já superou o número de mortes pela doença registrados de março a dezembro de 2020 no Brasil. 

A Secretaria da Saúde estimou, no último dia 22 de abril, que a melhora na taxa de ocupação hospitalar da Paraíba nos últimos dias podia ser resultado da campanha de vacinação contra a covid-19 e do cumprimento de medidas de prevenção decretadas pelo governo local .

De fato, em 26 de março, o governo da Paraíba decretou uma série de ações para controlar “o crescimento abrupto e sustentado da demanda por leitos de internação hospitalar para COVID-19” registrado na época. 

Entre as medidas, foi determinada a antecipação de três feriados, a limitação do horário de funcionamento de bares e restaurantes, o fechamento de estádios, ginásios, centros esportivos e parques, assim como o estabelecimento de um toque de recolher entre as 22h e 5h. 

Em relação à vacinação, a Paraíba apresenta um índice superior à média nacional. Enquanto o Brasil vacinou com as duas doses cerca de 5,5% de sua população, segundo dados do projeto Our World in Data, da Universidade de Oxford, o estado imunizou 6,33% de seus habitantes.

Considerando apenas a primeira dose, o Brasil vacinou 12,9% da população, e a Paraíba, 15,3%.

O AFP Checamos já verificou outras publicações que colocam em dúvida a taxa de ocupação de leitos no Brasil durante a pandemia de covid-19, assim como o número de mortes pela doença. 

O que é um lockdown?

Saiba como funciona essa medida extrema, as diferenças entre quarentena, distanciamento social e lockdown, e porque as medidas de restrição de circulação de pessoas adotadas no Brasil não podem ser chamadas de lockdown.


Vacinas contra COVID-19 usadas no Brasil

  • Oxford/Astrazeneca

Produzida pelo grupo britânico AstraZeneca, em parceria com a Universidade de Oxford, a vacina recebeu registro definitivo para uso no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No país ela é produzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

  • CoronaVac/Butantan

Em 17 de janeiro, a vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan no Brasil, recebeu a liberação de uso emergencial pela Anvisa.

  • Janssen

A Anvisa aprovou por unanimidade o uso emergencial no Brasil da vacina da Janssen, subsidiária da Johnson & Johnson, contra a COVID-19. Trata-se do único no mercado que garante a proteção em uma só dose, o que pode acelerar a imunização. A Santa Casa de Belo Horizonte participou dos testes na fase 3 da vacina da Janssen.

  • Pfizer

A vacina da Pfizer foi rejeitada pelo Ministério da Saúde em 2020 e ironizada pelo presidente Jair Bolsonaro, mas foi a primeira a receber autorização para uso amplo pela Anvisa, em 23/02.

Minas Gerais tem 10 vacinas em pesquisa nas universidades

Como funciona o 'passaporte de vacinação'?

Os chamados passaportes de vacinação contra COVID-19 já estão em funcionamento em algumas regiões do mundo e em estudo em vários países. Sistema de controel tem como objetivo garantir trânsito de pessoas imunizadas e fomentar turismo e economia. Especialistas dizem que os passaportes de vacinação impõem desafios éticos e científicos.


Quais os sintomas do coronavírus?

Confira os principais sintomas das pessoas infectadas pela COVID-19:

  • Febre
  • Tosse
  • Falta de ar e dificuldade para respirar
  • Problemas gástricos
  • Diarreia

Em casos graves, as vítimas apresentam

  • Pneumonia
  • Síndrome respiratória aguda severa
  • Insuficiência renal

Os tipos de sintomas para COVID-19 aumentam a cada semana conforme os pesquisadores avançam na identificação do comportamento do vírus.

 

 

Entenda as regras de proteção contra as novas cepas



 

Mitos e verdades sobre o vírus

Nas redes sociais, a propagação da COVID-19 espalhou também boatos sobre como o vírus Sars-CoV-2 é transmitido. E outras dúvidas foram surgindo: O álcool em gel é capaz de matar o vírus? O coronavírus é letal em um nível preocupante? Uma pessoa infectada pode contaminar várias outras? A epidemia vai matar milhares de brasileiros, pois o SUS não teria condições de atender a todos? Fizemos uma reportagem com um médico especialista em infectologia e ele explica todos os mitos e verdades sobre o coronavírus.


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