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Estado de Minas PODCAST

Perspectivas e realidades das mulheres no Brasil em 2022

Com aumento da violência contra mulher em alta em 2021, especialista analisa o que esperar da Justiça e da sociedade em 2022


28/01/2022 06:00 - atualizado 28/01/2022 01:50

Punho masculino fechado e mulher de costas ao fundo
9 em cada 10 mulheres consideram que o local que apresenta maior risco de feminicídio é dentro de casa (foto: Anete Lusina)
No ano em que a Lei Maria da Penha completou 15 anos também foi o ano em que 86% das mulheres perceberam aumento da violência contra elas no Brasil. Os dados são da pesquisa realizada pelo Instituto DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência. Devido à pandemia de COVID-19 e ao isolamento social que persistiu em 2021, as mulheres vítimas de violência doméstica foram forçadas a conviver por mais tempo com seus agressores, levando ao aumento da violência doméstica.
 
Pesquisa realizada pelos Institutos Locomotiva e Patrícia Galvão revelou que nove em cada 10 mulheres consideram que o local que apresenta maior risco de feminicídio é dentro de casa, por um parceiro ou ex-parceiro e que três em cada 10 mulheres adultas já foram ameaçadas de morte por um parceiro ou ex-parceiro. O debate sobre o que esperar da luta pelos direitos das mulheres em 2022 faz parte do episódio de estreia do podcast DiversEM, do Estado de Minas.



“A gente observou no úlltimo governo um desmanche nas estruturas de defesa dos direitos das mulheres e isso inclui a rede de aparelhos como delegacias especializadas e centros de acolhimento, e isso tem um impacto direto nesse crescimento da violência", afirma Livia Souza, advogada e feminista. Para 2022, deve ocorrer m corte de 33% no orçamento de políticas públicas voltadas para mulheres.+

Os dados demonstram que, apesar da Lei Maria da Penha ser considerada pela ONU como uma das mais avançadas legislações sobre violência contra a mulher do mundo e um marco na luta pelos direitos das mulheres, o texto ainda não é colocado em prática como deveria uma década e meia depois de entrar em vigor.

“A gente tem no Brasil a questão armamentista do atual governo e que as mulheres vítimas de violência doméstica, que sofrem homicídio. Elas morrem em decorrência de arma de fogo, então o acesso a arma faz isso também”, afirma Livia.

Onde o virtual e o real se encontram 

Um estudo inédito realizado pelo Instituto Avon em 2021 mostra os impactos do mundo online na vida das mulheres brasileiras. É mostrado que o assédio nas interações virtuais é a principal violência (38%) sofrida por mulheres e meninas em esferas digitais, seguido por ameaças de vazamento de imagens íntimas (24%).

Novamente os parceiros e ex-parceiros aparecem como principais fontes de ameaças. Ex-companheiros são relacionados a 84% dos relatos de stalking (perseguição praticada nos meios digitais). Entre outras ameaças mais frequentes contra meninas e mulheres na internet estão o assédio, o vazamento de nudes e o registro de imagens sem consentimento.



Houve também um crescimento de 44% nos relatos de assédios de professores, tutores e educadores, que durante a pandemia passaram a ter mais contato com os alunos através das plataformas digitais.

Entretanto, o que o estudo aponta é que a violência digital extrapola o ambiente virtual e tem consequências sérias nas vidas das vítimas. 35% das vítimas relatam terem desenvolvido medo de sair de casa e mais de 30% relatam efeitos psicológicos sérios, como adoecimento psíquico, isolamento social e pensamentos suicidas, enquanto 21% excluíram suas contas em redes sociais.

A cidade e as mulheres

Mulher andando em meio a bares à noite
Mulheres tem medo de andarem sozinhas pelas ruas, principalmente à noite (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)

Andar nas ruas de uma cidade sozinha, especialmente à noite, ainda é motivo de medo para a maioria das mulheres. No ano de 2021, segundo a pesquisa realizada pelos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, com apoio da ONU Mulheres, 68% das mulheres concordaram com a frase “Eu tenho muito medo de sair sozinha no meu bairro à noite” e 81% apontam que o principal motivo de insegurança é “Receber olhares insistentes, cantadas inconvenientes”. Oitenta porcento das mulheres têm medo de “sofrer agressão física” em ônibus.

Veja também o especial multimídia Cidade Feminista


“O Brasil está em um momento muito delicado e triste em relação às mulheres e meninas, e se fala muito pouco sobre isso, tem um tabu em relação a violência que a gente não abre esse dialogo, e tem uma urgência sobre isso, e o desmanche das políticas públicas voltadas para a mulher colabora com isso”, afirma Livia.

Representatividade

Apesar da sociedade brasileira ainda se apresentar machista e patriarcal, uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos envolvendo 28 países constatou que o Brasil é país que mais acredita que o mundo seria mais pacifico e bem-sucedido se tivéssemos mais mulheres em posição de liderança na política. 

Questões como pobreza menstrual ganharam mais espaço e chegaram a ter um projeto nacional de distribuição gratuita de absorventes para população de baixa renda, que infelizmente foi vetado pelo presidente. Por outro lado, o Brasil termina o ano com a maioria dos estados brasileiros já realizando ou apresentando seus próprios projetos locais.

Absorventes sobre um fundo púrpura
A luta pela distribuição gratuita de absorventes para pessoas em situação de vulnerabilidade social ainda é um tema de debates (foto: Izabella Caixeta)


“Por mais que o governo federal não tenha aprovado a distribuição para mulheres em situação de vulnerabilidade social, há uma mobilização popular e de governantes estaduais e em alguns casos municipais que fizeram suas ações, então é sobre isso, de não deixar a pauta morrer, de ir para aruá exigir os direitos.”, declara Livia.

Mulheres de ouro


Atleta de judô brasileira olhando para letreiro onde está escrito 'Tokio 2020'
A participação das mulheres nas Olimpíadas e Paralímpiadas de Tóquio foi histórica (foto: Reprodução/Instagram)


O Brasil marcou sua participação nas Olimpíadas de Tóquio com 140 atletas, o equivalente a 46,5% da delegação brasileira, a maior participação de mulheres em olimpíadas. Das 21 medalhas brasileiras, um recorde para o país, 9 foram conquistas femininas.

Rebeca Andrade se tornou a primeira ginasta a conquistar uma medalha olímpica, e logo depois conquistou sua segunda medalha, sendo ouro no salto e prata no individual geral. Rayssa Leal se tornou a atleta brasileira mais nova a conquistar uma medalha, com apenas 13 anos levou a prata no ‘skate street’.

“É muito interessante que o lugar de destaque no skate foi uma menina. É adorável isso de romper com esse lugar dócil das mulheres. Ver ela pequenininha, de calça larga, detonando e ganhando medalha.”, afirma Livia.

Presença nas Paraolimpíadas

Ana Marcela Cunha é agora a primeira nadadora brasileira a ostentar uma medalha de ouro pela prova de maratona aquática. As duplas Martine Grael e Kahena Kunze se tornaram bicampeãs na vela, e Luisa Stefani e Laura Pigossi conquistaram a inédita medalha de prata no tênis. Para completar, Beatriz Ferreira levou um ouro inédito no boxe, o time feminino de vôlei trouxe a prata para o Brasil e Mayra Aguiar, ganhou bronze no judô.

Nas Paraolimpíadas, o Brasil também enviou um número recorde de mulheres, foram 96 atletas, que corresponde a 40% da delegação. Foi recorde também em número de medalhas, foram um total de 72 medalhas, sendo 23 conquistas femininas.

Os ouros foram conquistados por Beth Gomes no lançamento de disco, Silvânia Costa no salto em distância, Mariana D'Andrea no halterofilismo, Alana Maldonado no judô, e o maior destaque foi Maria Carolina Santiago, que conquistou três ouros na natação.

Além das conquistas esportivas, os jogos Olímpicos de Tóquio foram marcados pelo movimento das ginastas alemãs pela liberdade de escolha dos uniformes. Elas apareceram na competição usando malha de uma só peça cobrindo todo o corpo.

A ginasta Pauline Schaefer-Betz, da Alemanha, usando uniforme que cobre o corpo na Olimpíada de Tóquio
A ginasta Pauline Schaefer-Betz, da Alemanha, competiu usando uniforme que cobre o corpo na Olimpíada de Tóquio (foto: Lionel BONAVENTURE / AFP)

 
O movimento se posiciona contra a sexualização do corpo da mulher no esporte, uma vez que, para além da ginástica, as mulheres são muitas vezes obrigadas a usarem uniformes curtos e desconfortáveis, como no caso dos esportes de praia como handball e vôlei, por uma questão estética. 

Três meses após o debate levantado em Tóquio, a Federação Internacional de handebol mudou seu regulamento e passou a permitir que as atletas usassem shorts na modalidade de praia.

Eleições 2022

Tendo em vista que 2022 é um ano de eleições presidenciais, para governadores estaduais e também para senadores e deputados estaduais e federais, é necessário que a população se mantenha informada sobre as propostas e discursos dos candidatos.

“Eu acho que é de extrema importância que a gente esteja atenta, mais do que nunca, para as propostas dos candidatos e candidatas. Isso é primordial para que a gente consiga ter direcionamento em relação a isso e exigir que os candidatos se comprometam com a pauta (das mulheres)”, declara Livia.

Livia salienta que a representatividade não se resume a apenas a presença de minorias em cargos de poder, mas que essas pessoas se mobilizem para que conquistem avanços para os grupos que representam. No caso das mulheres, que tenham poder de fala e não sejam questionadas e atacadas pelo gênero, mas tratadas com o mesmo respeito que os homens no meio político. 

“Não vai ser fácil, independente de que governo ganhe, acho que vai enfrentar muita resistência porque não vai conseguir uma maioria de aprovação tranquilamente, não vai ser um governo fácil, não tem como ser”, pondera.

O que é relacionamento abusivo?

Os relacionamentos abusivos contra as mulheres ocorrem quando há discrepância no poder de um em relação ao outro. Eles não surgem do nada e, mesmo que as violências não se apresentem de forma clara, os abusos estão ali, presentes desde o início. É preciso esclarecer que a relação abusiva não começa com violências explícitas, como ameaças e agressões físicas.

A violência doméstica é um problema social e de saúde pública e, que quando se fala de comportamento, a raiz do problema está na socialização. Entenda o que é relacionamento abusivo e como sair dele.

Leia também:
 Cidade feminista: mulheres relatam violência imposta pelos espaços urbanos

Como denunciar violência contra mulheres?

  • Ligue 180 para ajudar vítimas de abusos.
  • Em casos de emergência, ligue 190.

O que é violência física?

  • Espancar
  • Atirar objetos, sacudir e apertar os braços
  • Estrangular ou sufocar
  • Provocar lesões

O que é violência psicológica?

  • Ameaçar
  • Constranger
  • Humilhar
  • Manipular
  • Proibir de estudar, viajar ou falar com amigos e parentes
  • Vigilância constante
  • Chantagear
  • Ridicularizar
  • Distorcer e omitir fatos para deixar a mulher em dúvida sobre sanidade (Gaslighting)

O que é violência sexual?

  • Estupro
  • Obrigar a mulher a fazer atos sexuais que causam desconforto 
  • Impedir o uso de métodos contraceptivos ou forçar a mulher a abortar
  • Limitar ou anular o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos da mulher

O que é violência patrimonial?

  • Controlar o dinheiro
  • Deixar de pagar pensão
  • Destruir documentos pessoais
  • Privar de bens, valores ou recursos econômicos
  • Causar danos propositais a objetos da mulher

O que é violência moral?

  • Acusar de traição
  • Emitir juízos morais sobre conduta
  • Fazer críticas mentirosas
  • Expor a vida íntima
  • Rebaixar por meio de xingamentos que incidem sobre a sua índole

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