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Estado de Minas

Busca por exames de rotina cai até 80% em BH e preocupa médicos

Queda no controle clínico pode levar ao aumento da mortalidade de pacientes crônicos após a pandemia, alerta Sociedade Mineira de Cardiologia


postado em 22/05/2020 09:26 / atualizado em 22/05/2020 18:20

Volume de exames de rotina despenca em laboratórios de BH na pandemia de coronavírus(foto: Felipe Abras/Divulgação)
Volume de exames de rotina despenca em laboratórios de BH na pandemia de coronavírus (foto: Felipe Abras/Divulgação)

Laboratórios de Belo Horizonte registram drástica redução da demanda por exames rotineiros como hemograma, colesterol e triglicérides desde o fim de março - início da vigência do decreto de quarentena, que visa conter o surto do novo coronavírus. A queda no volume das análises - necessárias sobretudo ao acompanhamento de doenças crônicas como diabetes e hipertensão - ultrapassa 40% em pelo menos quatro redes que atuam na capital. Uma delas relata diminuição de 80% na procura por esses serviços. 

Especialistas atribuem o cenário ao receio da população de contrair o vírus ao buscar atendimento, bem como às mudanças impostas pelo distanciamento social à relação médico-paciente. E alertam: a negligência ao controle clínico pode vulnerabilizar ainda mais os doentes crônicos aos efeitos da COVID-19, além de aumentar a mortalidade desse grupo após a pandemia

Fuga de pacientes

No laboratório Lustosa, com 20 unidades em BH, o gerente técnico Adriano Basques conta que a solicitação de exames de dosagem e concentração da glicohemoglobina, recomendados de 2 a 3 vezes por ano principalmente aos diabéticos - caiu 80%. A mesma variação negativa foi observada nos pedidos de testes hormonais (periodicamente prescritos a pessoas com doenças tireoidianas, por exemplo), anticoagulantes, entre outros que aferem funções renais e hepáticas. 

Médicos alertam para o risco da negligência ao acompanhamento clínico, sobretudo para pacientes crônicos(foto: Carlos Reis/Divulgação)
Médicos alertam para o risco da negligência ao acompanhamento clínico, sobretudo para pacientes crônicos (foto: Carlos Reis/Divulgação)


“São procedimentos muito utilizados não só para diagnósticos, como também  para o ajuste da dose de medicamentos. Acreditamos que os pacientes veem os laboratórios como um lugar com alto risco de contaminação pelo coronavírus, mas isso não procede. Todo o setor adaptou seus fluxos para evitar a propagação da COVID-19. A segurança oferecida nos ambientes, portanto, é alta”, afirma Adriano. 

CEO do grupo São Marcos, que mantém 57 pontos de coleta na cidade, Ricardo Dupin relata que, na primeira semana após decreto do prefeito Alexandre Kalil, houve desaparecimento de 70% da clientela. O movimento voltou a crescer, mas o déficit nas análises clínicas ainda é de 45%. “Antes da pandemia, atendíamos cerca de 3.500 pessoas por dia na região metropolitana de BH. Hoje, o volume diário tem sido de 1.900”, calcula o médico. Para evitar descolamento dos pacientes, ele diz que o laboratório reforçou os as equipes de assistência em domicílio e disponibilizou o agendamento pela internet, medidas avaliadas como de "efeito discreto". 

Estratégia semelhante foi adotada na rede Hermes Pardini, onde o agravamento da epidema também é citado como motivo de redução do atendimento em todas os 75 postos da empresa na capital. No laboratório São Paulo, com 15 unidades instaladas na cidade, até as grávidas vêm interrompendo o monitoramento pré-natal, segundo o hematologista e sócio-diretor do estabelecimento, Daniel Ribeiro. “É um quadro que preocupa, porque as consequências do descontrole são sérias. As complicações a médio prazo, principalmente para o portador de doença crônica, que depende de um cuidado rotineiro, podem ser graves. Sem acompanhamento, esses pacientes têm qualidade e até a expectativa de vida reduzidas”, pondera o profissional de saúde.

(foto: Redes laboratoriais relatam adaptações para atendimento na pandemia: distância de uma cadeira entre assentos na sala de esperea)
(foto: Redes laboratoriais relatam adaptações para atendimento na pandemia: distância de uma cadeira entre assentos na sala de esperea)


Fenômeno global

Na avaliação do presidente da Sociedade Mineira de Cardiologia, Henrique Patrus, o movimento registrado pelos laboratórios reflete o impacto da pandemia na relação entre médicos e pacientes. Ele acredita que o distanciamento social, medida que classifica como eficaz e necessária no combate ao surto, provocou uma espécie de enfraquecimento do vínculo entre profissionais e clientes, uma vez que alterou a rotina de ambos. 

O dirigente esclarece que o momento é de repactuar esse relacionamento sob as condições impostas pela epidemia . “A vantagem é que há recursos para isso. O Conselho Federal de Medicina regulamentou, recentemente, a teleconsulta, uma boa alternativa para acompanhamento, prescrição de exames e vários procedimentos - desde que médico e paciente já tenham uma relação presencial prévia estabelecida. O plano de cuidados a distância também pode contar com o auxílio do WhatsApp, do telefone. O importante é que o profissional e seus clientes se comuniquem, se procurem”, argumenta. 

"A pandemia de COVID-19 vai seguir seu curso e nós temos uma vida longa pela frente. Não podemos retroceder e deixar que complicações da diabetes, hipertensão ou cardiopatias matem a população precocemente", completa.



Patrus explica que doentes crônicos descompensados constituem um grupo especialmente vulnerável ao coronavírus. “É um paciente que já faz parte do grupo de risco. Agora, imagine esse mesmo paciente  - um diabético, por exemplo - com complicações decorrentes do descontrole da glicose, como má circulação e insuficiência renal. Se ele for infectado, fica mais difícil para o organismo vencer a batalha contra a virose”, pondera.

O cardiologista adverte ainda que o agravamento de doenças crônicas é um fenômeno típico das crises globais que, por si só, configuram fatores de risco. “Foi assim na Crise de 1929, é comum depois de guerras. São episódios que geram depressão, descontrole da obesidade, aumento do tabagismo, do alcoolismo, ruína financeira. Tudo isso contribui para o agravamento do quadro de doenças crônicas. Portanto, temos que tentar ao máximo persistir nos cuidados”, analisa. 

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