Seu filho não quer comer? Por que o verão interfere no apetite infantil
Altas marcas nos termômetros alteram o comportamento alimentar das crianças; pediatra explica quando a redução da fome é esperada e quando exige atenção
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Com as marcas elevadas registradas nos termômetros que, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, vêm batendo recordes em diversas capitais, como em Belo Horizonte, muitos pais passam a notar mudanças no comportamento alimentar dos filhos.
A recusa de refeições mais encorpadas e a preferência por opções leves ou líquidas se tornam mais frequentes nesta época do ano e estão entre as principais queixas em consultórios pediátricos. Na maioria dos casos, a redução do apetite é uma resposta fisiológica do organismo, mas merece atenção quando se prolonga ou surge acompanhada de outros sinais.
Segundo a pediatra Aline Magnino, diretora médica da Clínica Pediátrica da Barra, as condições climáticas típicas do verão interferem diretamente nos mecanismos que regulam a fome. “Quando os termômetros sobem, o organismo passa a priorizar processos para dissipar o excesso de aquecimento corporal, como o suor e a vasodilatação. A digestão consome energia e aumenta a produção interna de calor, além disso a criança tende a ingerir mais líquidos, o que provoca sensação de estômago cheio e diminui o interesse pela comida”, explica.
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A intensidade dessa mudança varia conforme a faixa etária. Bebês, especialmente os que estão em aleitamento materno, costumam manter melhor o padrão alimentar. “O leite materno se ajusta às necessidades do bebê, que passa a mamar com mais frequência e por menos tempo, garantindo hidratação e nutrição adequadas”, afirma a médica.
Já entre crianças de um a três anos, a queda do apetite tende a ser mais evidente. “Nessa fase, o crescimento já é mais lento e a fome naturalmente variável. As condições do verão intensificam essa oscilação, que na maioria das vezes é fisiológica e temporária”, explica, ao destacar que, em crianças maiores, a redução costuma ser mais discreta, pois elas já conseguem diferenciar melhor fome e sede.
A pediatra ressalta que a falta de apetite pode ser considerada dentro da normalidade quando dura poucos dias, não interfere no crescimento nem no nível de atividade da criança. “Se ela continua ativa, brincando, bem hidratada e consegue compensar a alimentação em horários mais amenos, geralmente não há motivo para preocupação”, orienta.
O alerta surge quando há perda de peso, queda nas curvas de crescimento, prostração, irritabilidade intensa, sinais de desidratação ou recusa alimentar persistente por mais de duas a três semanas. “Em bebês, a inapetência nunca deve ser ignorada. Redução importante das mamadas, diminuição do número de fraldas molhadas, choro fraco ou sonolência excessiva exigem avaliação médica imediata”, alerta.
A diminuição da ingestão alimentar também pode aumentar o risco de desidratação, muitas vezes de forma silenciosa. “Urina escura ou em pequena quantidade, boca seca, choro sem lágrimas e cansaço excessivo são sinais importantes que os pais precisam observar”, afirma Aline Magnino.
Crianças pequenas, segundo ela, são especialmente vulneráveis, pois brincam mais, suam muito e frequentemente se esquecem de beber água, o que torna essencial a oferta ativa e frequente de líquidos.
Outro comportamento comum nesta época é a maior rejeição das refeições principais, como almoço e jantar. “São refeições mais volumosas, servidas quentes e de digestão mais lenta. Carnes gordurosas, feijão, frituras e massas pesadas tendem a ser menos aceitas”, explica.
Em contrapartida, os lanches costumam ter melhor aceitação. “Frutas, iogurtes e preparações frias ou mornas exigem menos esforço digestivo e são mais bem toleradas”.
Forçar a criança a comer, segundo a especialista, pode trazer prejuízos físicos e emocionais. “Isso pode provocar náuseas, vômitos e criar uma associação negativa com a alimentação, aumentando a seletividade e os conflitos à mesa. O ideal é manter uma postura flexível, continuar oferecendo alimentos saudáveis e respeitar os sinais de fome e saciedade”, orienta.
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A Sociedade Brasileira de Pediatria reforça que, durante o verão, a hidratação adequada e a observação do estado geral da criança são mais relevantes do que a quantidade ingerida em uma refeição isolada. Ela também destaca que a preferência por alimentos mais leves e frios é fisiológica e pode fazer parte de uma alimentação equilibrada, desde que haja variedade ao longo do dia e da semana.