O gesto de formar a letra “L” com os dedos, popularizado durante a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ultrapassou as fronteiras brasileiras e passou a ser adotado por lideranças e militantes de esquerda em outros países. Após a vitória do presidente sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, no domingo (25/10), a estratégia de mobilização popular e digital da campanha brasileira ganhou destaque internacional e começou a inspirar iniciativas na Europa e na América Latina.

Poucas horas antes da confirmação do resultado no Brasil, a catalã Ada Colau pediu aos participantes de um comício da coalizão Frente Ampla, em Madri, que reproduzissem o gesto. “Vamos todas levantar o braço com o ‘L’ de Lula”, convocou a ex-prefeita de Barcelona, que lidera a coalizão de esquerda na Espanha.

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Com o braço erguido, Colau associou o símbolo à esperança e às disputas políticas dos dois países. “Pela esperança. Pela Palestina livre. Por Lula no Brasil. Pela Frente Ampla no dia 29 de novembro. Vamos ganhar, companheiras”, afirmou.

A mobilização espanhola é um dos exemplos de como a reeleição de Lula passou a ser interpretada por setores da esquerda internacional como uma demonstração de que é possível enfrentar o avanço da direita e da ultradireita nas urnas. O presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), também celebrou o resultado e estabeleceu um paralelo com a disputa eleitoral em seu país.

“Se o Brasil conseguiu, a Espanha consegue”, afirmou Sánchez durante um comício em Gijón, no norte da Espanha. O país terá eleições gerais antecipadas em 29 de novembro, e o PSOE busca ampliar seu apoio diante de pesquisas que apontam vantagem dos partidos de direita.

Sánchez também teria convidado o deputado federal André Janones (Rede-MG), um dos articuladores da mobilização digital pró-Lula, para colaborar com a estratégia eleitoral socialista. Até o momento, não há confirmação de que o convite tenha sido aceito ou de que uma colaboração tenha sido formalizada.

México também adota o gesto

Na América Latina, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, também fez o “L” com os dedos ao celebrar a vitória do brasileiro. Durante uma coletiva de imprensa na segunda-feira (26/10), ela parabenizou Lula e classificou o resultado como uma demonstração de esperança para a região.

“Muitos, muitos parabéns ao presidente Lula, ao povo do Brasil. É uma lufada de ar fresco para a América Latina e o Caribe”, afirmou Sheinbaum.

A presidente mexicana também manifestou interesse em estreitar a cooperação entre os dois países e convidou Janones para uma visita de trabalho, com o objetivo de discutir ações de mobilização política. O interesse no trabalho do deputado reflete a repercussão internacional da estratégia digital utilizada durante a campanha brasileira.

Grupos de WhatsApp inspiram militantes na França

Além do gesto simbólico, a principal estratégia brasileira que despertou interesse no exterior foi a organização de redes de apoiadores em aplicativos de mensagens. O “Exército do Lula”, grupo de mobilização coordenado por Janones, reuniu mais de 10 milhões de pessoas às vésperas do segundo turno.

A iniciativa inspirou a criação de grupos semelhantes em outros países, com participantes convocados a compartilhar publicações, impulsionar hashtags e ampliar o alcance de conteúdos políticos. Na França, apoiadores de Jean-Luc Mélenchon, líder da esquerda radical, organizaram canais digitais voltados à campanha presidencial de 2027.

Um deles, chamado “L’équipe de Mélenchon officielle”, passou a reunir dezenas de milhares de participantes. O deputado francês Antoine Leaument mencionou diretamente a experiência brasileira ao convocar apoiadores em um vídeo publicado nas redes sociais.

“Nós vimos bem o que aconteceu no Brasil e não se preocupem, vamos aplicar um método que funcione”, afirmou.

A mobilização também ganhou uma versão visual. Em vídeos publicados no TikTok, apoiadores de Mélenchon fazem o “L” com os dedos e, em seguida, invertem as mãos para formar a letra “M”, em referência ao político francês.

Mélenchon declarou apoio à reeleição de Lula em uma publicação nas redes sociais no sábado (24/10). “Nós, que estamos na luta, precisamos da vitória de Lula. Sua vitória será a vitória do povo contra o império americano. Contamos com o Brasil como um país e uma nação irmã”, escreveu.

Após a confirmação do resultado brasileiro, outras lideranças francesas também comemoraram a vitória do petista. Fabien Roussel, candidato do Partido Comunista à Presidência, classificou o resultado como uma “extraordinária mensagem de esperança” e afirmou que “a extrema direita não é uma fatalidade”.

Mélenchon, por sua vez, publicou a mensagem “Viva Lula, viva o Brasil da dignidade”. Segundo ele, o resultado contrariou as previsões eleitorais e representou uma vitória contra a extrema direita e as interferências estrangeiras.

O coordenador da França Insubmissa, Manuel Bompard, também destacou a mobilização dos eleitores brasileiros entre os dois turnos. Em entrevista à emissora LCI, afirmou que a participação eleitoral foi decisiva para o resultado e defendeu que os franceses se inspirem na experiência brasileira.

A disputa francesa está prevista para abril de 2027. As pesquisas citadas pela imprensa internacional apontam a candidata do Reunião Nacional, Marine Le Pen, como uma das favoritas, em um cenário de polarização política. O atual presidente, Emmanuel Macron, não pode disputar um terceiro mandato consecutivo.

Apesar do interesse, a experiência brasileira não é vista como uma fórmula que possa ser reproduzida integralmente. Silvia Capanema, integrante da França Insubmissa e professora da Universidade Sorbonne Paris Nord, afirmou à RFI que as diferenças entre os países exigem estratégias próprias.

“Não dá para copiar esse modelo e aplicá-lo da mesma forma na França, porque as necessidades são diferentes”, explicou. Segundo ela, enquanto a esquerda brasileira enfrentava dificuldades para ampliar sua presença nas redes sociais, os partidos franceses já têm atuação expressiva nesses espaços e enfrentam outros desafios de comunicação.

Estratégia também chega à Argentina e aos Estados Unidos

A mobilização inspirada no “Exército do Lula” também chegou à Argentina. Apoiadores do peronismo criaram o “Exército do Peronismo”, grupo que faz referência direta à iniciativa brasileira e busca fortalecer a oposição ao presidente Javier Milei, que poderá disputar a reeleição em 2027. O canal no WhatsApp já reunia dezenas de milhares de inscritos.

Nos Estados Unidos, ativistas progressistas também passaram a discutir o modelo brasileiro como inspiração para ampliar o engajamento em torno do Partido Democrata. O país terá eleições de meio de mandato em novembro, consideradas importantes para definir a capacidade de oposição ao presidente republicano Donald Trump no Congresso.

A influenciadora política Jess Craven publicou um vídeo com o título “O que podemos aprender com o Brasil?”, posteriormente compartilhado por Janones. Na gravação, ela defende que ativistas pró-democracia aproveitem as lições da mobilização que contribuiu para a vitória de Lula.

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