Vorcaro tinha grupo de WhatsApp para pedir orientação a chefes de supervisão do Banco Central, diz PF
Documentos da investigação sobre o Banco Master tornados públicos na quinta-feira, mostram, segundo PF, como dois funcionários do Banco Central defendiam interesses de banco de Daniel Vorcaro dentro da autarquia e recebiam vantagens em contrapartida.
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Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, mantinha um canal de aconselhamento com dois servidores que ocupavam postos de comando na supervisão bancária do Banco Central, segundo uma representação da Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal (STF).
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Os documentos da investigação foram tornados públicos na quinta-feira, 10/09, depois que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo de procedimentos relacionados ao Banco Master na corte.
Os investigadores afirmam que Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana defendiam interesses do Banco Master dentro da autarquia e recebiam vantagens em contrapartida.
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A atuação descrita incluía preparar o banqueiro para reuniões, revisar documentos e articular respostas a dificuldades enfrentadas pelo conglomerado.
A peça, assinada em 27 de fevereiro de 2026, reúne interpretações da PF sobre mensagens extraídas do celular de Vorcaro e documentos do próprio Banco Central.
Paulo Sérgio era chefe adjunto do Departamento de Supervisão Bancária, o Desup, e Belline ocupava a chefia do departamento.
A PF ressalta que a unidade estava vinculada à Diretoria de Fiscalização e tinha atuação direta em processos de interesse de Vorcaro.
Na avaliação dos investigadores, os servidores se comportavam, em diversas ocasiões, como "empregados" do banqueiro, embora devessem fiscalizar sua instituição.
Grupo de WhatsApp
Essa proximidade aparece em um grupo de WhatsApp chamado "Master", integrado por Vorcaro e pelos dois servidores, segundo o documento da PF.
Segundo a PF, Belline criou o grupo em 2 de outubro de 2025. "Boa tarde. Criei esse grupo, no intuito de facilitar nossa interlocução", escreveu, conforme imagem de conversa reproduzida no documento.
Logo depois, comentou a redação de um documento e sugeriu mudanças para evitar "ruídos desnecessários", segundo a PF.
Belline é descrito pelos investigadores como prestador de aconselhamento especializado.
Em abril de 2024, teria marcado um encontro com Vorcaro e Paulo Sérgio para discutir "visão prospectiva e estratégica", deixando ao banqueiro a escolha entre a sede do BC e a do Master.
A PF também registra uma reunião de Belline com Vorcaro na residência do banqueiro em 14 de março de 2024 e afirma que o servidor revisava documentos de interesse do banco, inclusive por iniciativa própria.
Em 27 de outubro de 2025, Vorcaro compartilhou no grupo um arquivo intitulado "Ofício Banco Master ao Desup — atualização das ações" e escreveu: "Segue minuta para avaliação".
Uma imagem mostra uma chamada de voz de Belline na sequência e, mais tarde, uma nova versão do arquivo, acompanhada de outro pedido do banqueiro: "Por favor, vejam se atende". O destinatário do ofício era o departamento dirigido pelos próprios interlocutores.
Em uma troca de 25 de abril de 2025, reproduzida na peça, Vorcaro pediu que Paulo olhasse uma minuta de resposta a um termo de comparecimento.
O servidor propôs alterações em parágrafos específicos, como trocar "captação de receitas" por "captação de recursos", mencionar o controle ou gestão pelo BRB e corrigir uma data. Ao final, escreveu: "Importante protocolar rapidamente".
O BRB, Banco de Brasília, é a instituição controlada pelo governo do Distrito Federal que se tornou uma peça central na busca de uma saída para as dificuldades que o Master enfrentava.
Em 28 de março de 2025, anunciou um acordo para adquirir 58% do capital total do banco de Vorcaro, reunindo 49% das ações ordinárias e todas as preferenciais.
A operação Compliance Zero apurou que o BRB aportou cerca de R$ 12 bilhões no Master a título de aquisição de carteiras de empréstimos consignados de origem "altamente duvidosa", conforme aponta o relatório, que se mostraram "inexistentes ou inadimplentes."
Paulo Sérgio também recomendou cautela com uma referência ao BRB: "entendo imprudente citar problema no canal BRB", escreveu, acrescentando que a supervisão não tinha aquela percepção e que restringiria a menção ao Master.
Preparação para encontros
Segundo a investigação, o auxílio também abrangia a preparação para encontros com a cúpula do Banco Central.
A representação afirma que Paulo Sérgio enviava espontaneamente tópicos que Vorcaro deveria destacar em reunião com o presidente da autarquia.
Antes de um encontro com o diretor de fiscalização, Ailton Aquino, em fevereiro de 2024, teria advertido o banqueiro de que poderia ser questionado sobre suas relações com a gestora de investimentos Reag e com seu fundador, João Carlos Mansur.
No dia 15 de janeiro, a Reag, que agora se chama CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, foi liquidada pelo Banco Central em meio a investigações conduzidas pela Polícia Federal que apuram as suspeitas de que a empresa teria cometido fraudes financeiras junto com o Banco Master.
Segundo as investigações, a gestora é suspeita de usar seus fundos para praticar fraudes financeiras em benefício do grupo Master, como movimentar recursos de forma atípica, inflar resultados e minimizar riscos com indícios de lavagem de dinheiro.
A PF também descreve outros tipos de auxílio. Um exemplo apontado é o de que Paulo Sérgio teria buscado a revisão de uma posição negativa de órgãos controladores relativa à aquisição do Willbank pelo Master.
Já em 2025, de acordo com a representação, parte importante das conversas passou a tratar da compra do Master pelo BRB e da cessão de créditos ao Banco de Brasília, no contexto da crise de liquidez do Master.
Pagamento de R$ 500 mil e contrato fictício
Para a PF, a relação com os servidores teria uma contrapartida financeira dissimulada por empresas e contratos.
No caso de Belline, a representação descreve uma proposta de trabalho articulada por Vorcaro e por seu cunhado Fabiano Zettel, mas assinada por Leonardo Augusto Furtado Palhares, por meio de uma empresa de consultoria.
A PF diz que um controle de "despesas fixas mensais" compartilhado entre Zettel e Vorcaro incluía o pagamento de R$ 500 mil semestrais para Belline. O servidor negou saber que o Master pudesse ser responsável pelos pagamentos.
A proposta foi encaminhada ao e-mail pessoal do servidor, segundo o documento.
O serviço formalmente proposto era um estudo técnico, econômico e social sobre a inserção de jovens no mercado financeiro.
Os investigadores sustentam que a contratação era fictícia e servia para remunerar Belline por sua atuação em favor do Master.
A imagem da carta reproduzida na representação da PF convida o servidor a integrar um grupo de desenvolvimento do projeto e traz a assinatura de Palhares, em nome da consultoria.
As vantagens suspeitas não se resumiam ao contrato, segundo a PF. A representação menciona ordens de Vorcaro para custear almoço, jantar e guia para Belline em Paris.
No caso de Paulo Sérgio, um dos negócios analisados pelas autoridades é a venda de um imóvel rural que pertencia a ele e ao irmão.
Segundo a PF, Zettel enviou a Vorcaro, em 15 de janeiro de 2020, uma minuta de compra e venda por R$ 4,8 milhões. A propriedade foi transferida em 6 de outubro de 2021 à Pipe Participações, empresa cujo sócio era Zettel.
Os investigadores consideram suspeito que a negociação fosse coordenada por Vorcaro, embora a compradora fosse a empresa de seu cunhado.
Para a PF, a Pipe pode ter sido usada como intermediária em uma transação relacionada ao vínculo entre Vorcaro e o servidor.
Paulo Sérgio deu outra explicação ao Banco Central. Disse que recebeu, em 2019, uma proposta de R$ 4,5 milhões pelo terreno, onde o comprador pretendia fazer um loteamento, e que só soube do parentesco com Vorcaro na escrituração, em 2021.
Uma viagem de Paulo Sérgio à região da Disney, prevista para fevereiro de 2024, também entrou na apuração. A imagem de conversa mostra o servidor enviando seu roteiro a Vorcaro, que o repassou a um prestador de serviços com a instrução: "Preciso arrumar guia". Ao ser perguntado sobre ingressos, Paulo Sérgio respondeu que já tinha todos. A PF interpreta o auxílio como vantagem indevida.
Vorcaro elogiou a ajuda recebida de Paulo Sérgio diante de Zettel: "tá sendo um anjo na vida".
Procuradas pela BBC News Brasil, as defesas de Daniel Vorcaro, Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza não se manifestaram sobre os elementos mais recentes trazidos pela representação da PF. A BBC News Brasil também procurou o Banco Central, o BRB e a Reag para comentar, mas ainda não obteve resposta.
Em nota à imprensa, divulgada em abril de 2026, a defesa de Belline Santana, representada pelo advogado Leonardo Palazzi, afirmou que não houve favorecimento a nenhuma instituição financeira por parte de seu cliente, ressaltando que se espera o resguardo do contraditório nas instâncias competentes.
À época, a defesa afirmou que o exercício das funções de Belline no Banco Central não se confunde com outras atividades lícitas, "não havendo desvio de finalidade ou obtenção de vantagem indevida".
Em agosto de 2026, a defesa de Paulo Sérgio Neves de Souza, representada pelo advogado Odel Antun, também em nota à imprensa disse, sobre outro aspecto do caso, que seu cliente esteve "ativamente envolvido na identificação, apuração e formalização das duas principais irregularidades apontadas no Banco Master".
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Segundo a defesa, ele ajudou a preparar as representações encaminhadas ao Ministério Público Federal que resultaram nas duas primeiras fases da Operação Compliance Zero.