NA AVENIDA

Confira os detalhes do desfile que homenageou Lula na Sapucaí

Desfile em homenagem ao presidente teve críticas ao bolsonarismo, ala de opositores e desistência de Janja de última hora

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A Acadêmicos de Niterói abriu o Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro com um desfile dedicado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em sua estreia na elite da folia carioca, a escola levou para a Marquês de Sapucaí uma narrativa que misturou a trajetória pessoal do petista a episódios marcantes da política recente, com alegorias e alas que provocaram reações de apoiadores e críticos.

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A agremiação entrou na avenida às 22h13 e encerrou a apresentação às 23h32, dentro do tempo regulamentar. Antes mesmo de o abre-alas avançar, o Setor 1 da arquibancada, tradicionalmente popular, puxou um coro de “olê, olê, olá… Lula, Lula”, em recepção ao homenageado.

O desfile foi estruturado como uma narrativa biográfica, que partiu da infância pobre no Nordeste, passou pela migração para o Sudeste, a atuação sindical e a ascensão política até chegar ao Palácio do Planalto. Ao longo da apresentação, no entanto, a escola também levou para a avenida representações diretas de conflitos políticos recentes, o que gerou controvérsias.

Entre os pontos mais comentados esteve a encenação do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. Uma das primeiras alas mostrava um boneco representando o ex-presidente Michel Temer assumindo a faixa presidencial, numa leitura alinhada à interpretação do PT de que o processo foi um golpe.

Comissão de frente do desfile que homenageia o presidente Lula na Sapucaí mostra Michel Temer tirando a faixa presidencial de Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro como o palhaço "Bozo"
Comissão de frente do desfile que homenageia o presidente Lula na Sapucaí mostra Michel Temer tirando a faixa presidencial de Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro como o palhaço "Bozo" TV GLOBO/REPRODUÇÃO

Temer no Abre Alas da Unidos de Nitéroi
Temer no Abre Alas da Unidos de Nitéroi RIOTOUR/REPRODUÇÃO

Outro destaque foi a representação do ex-presidente Jair Bolsonaro como um palhaço. Em um dos carros alegóricos, ele aparecia de terno azul caracterizado como “Bozo”. Em outra alegoria, surgia com uniforme de presidiário e tornozeleira eletrônica danificada, em referência a um episódio político recente.

A escola também levou para a avenida a ala chamada “neoconservadores em conserva”, que representava opositores de Lula com fantasias que faziam alusão a setores como agronegócio, elite econômica, defensores da ditadura e evangélicos. A caracterização gerou críticas de parlamentares ligados à direita e alimentou debates nas redes sociais.

Bolsonaro foi representado pelo palhaço 'Bozo'
Bolsonaro foi representado pelo palhaço 'Bozo' RIOTOUR/REPRODUÇÃO

Durante o desfile, integrantes da escola fizeram o gesto do “L”, símbolo associado ao presidente. A manifestação foi interpretada por adversários como ato de campanha política dentro da avenida, embora a escola não tenha se pronunciado oficialmente sobre o episódio.

Outro momento que repercutiu foi a desistência da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, de participar do desfile. Ela havia sido anunciada como destaque do último carro alegórico, chamado “Amigos de Lula”, mas decidiu não desfilar pouco antes da apresentação, sob o argumento de evitar interpretações de campanha antecipada ou uso político do Carnaval. Janja ficou no camarote ao lado do presidente e de aliados.

Em determinado momento, Lula deixou o camarote e foi até a pista cumprimentar o casal de mestre-sala e porta-bandeira, acompanhado do prefeito do Rio, Eduardo Paes. O gesto também gerou comentários nas redes, com críticas de opositores que viram a cena como espetáculo político.

Presidente Lula aplaude desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a ele, na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, em 15/02/26
Presidente Lula aplaude desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a ele, na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, em 15/02/26 Eduardo Anizelli/Folhapress

Apesar do tom político de algumas alegorias, a escola apostou em uma narrativa popular e épica sobre a trajetória do presidente. Com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, o desfile trouxe referências à fome, à migração nordestina, às lutas trabalhistas e a personagens históricos como Betinho, Zuzu Angel e Rubens Paiva.

O samba-enredo acompanhou essa linha narrativa, exaltando a origem humilde do personagem central, a força do movimento sindical e a ideia de ascensão social. A composição apostou em um tom de celebração popular e esperança, conectando episódios pessoais à história recente do país.

A apresentação teve assinatura do carnavalesco Tiago Martins, com interpretação de Emerson Dias e bateria comandada pelo mestre Branco. 

Polêmicas

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) recebeu na última segunda-feira (10) uma representação do Partido Novo contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a Acadêmicos de Niterói por suposta propaganda eleitoral antecipada no Carnaval de 2026.

A ação solicita multa de R$ 9,65 milhões e a proibição do uso do samba-enredo da escola, que vai estrear no Grupo Especial do Rio de Janeiro com homenagem à trajetória política do presidente.

De acordo com o processo, autuado em Brasília e distribuído à ministra auxiliar Estela Aranha, o Novo sustenta que o enredo "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil" extrapola uma homenagem artística e configura peça de pré-campanha para as eleições de 2026. A relatora já recebeu os autos, mas ainda não há decisão.

A ação lista trechos do samba que, segundo o partido, fariam referência à polarização política de 2022, ao número do PT e a slogans associados a campanhas petistas.

O Novo também menciona que o presidente de honra da escola é vereador pelo PT em Niterói, o que, na avaliação da legenda, afastaria a tese de neutralidade artística.

A Lei das Eleições proíbe propaganda eleitoral antes do período oficial de campanha, inclusive por meio de divulgação que caracterize pedido explícito de voto ou promoção pessoal com finalidade eleitoral.

Além disso, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) negou um pedido apresentado por uma ex-assessora do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para tentar impedir o desfile da escola.

O pedido foi realizado por Valdenice de Oliveira Meliga, ela trabalhou diretamente com Flávio quando o mesmo foi deputado estadual na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). A decisão foi assinada pelo desembargador Ricardo Perlingeiro, durante o regime de plantão.

Confira o Samba-enredo

"Quanto custa a fome? Quanto importa a vida
Nosso sobrenome é Brasil da Silva
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo

Olê, olê, olê, olá
Vai passar nessa avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá
Lula, Lula

Eu vi brilhar a estrela de um país
No choro de Luiz, a luz de Garanhuns
Lugar onde a pobreza e o pranto
Se dividem para tantos
E a riqueza multiplica para alguns

Me via nos olhares dos meus filhos
Assombrados e vazios
Com o peito em pedaços
Parti atrás do amor e dos meus sonhos
Peguei os meus meninos pelos braços
Brilhou um Sol da pátria incessante
Pro destino retirante
Te levei, Luiz Inácio

Por ironia, treze noites, treze dias
Me guiou Santa Luzia, São José alumiou
Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical
À liderança mundial

Vi a esperança crescer
E o povo seguir sua voz
Revolucionário é saber
Escolher os seus heróis
Zuzu Angel, Henfil, Vladimir
Que pagaram o preço da raiva
Nós ainda estamos aqui
No Brasil de Rubens Paiva

Lute pra vencer
Aceite se perder
Se o ideal valer
Nunca desista
Não é digno fugir
Nem tão pouco permitir
Leiloarem isso aqui
A prazo, à vista

É, tem filho de pobre virando doutor
Comida na mesa do trabalhador
A fome tem pressa, Betinho dizia
É, teu legado é o espelho das minhas lições
Sem temer tarifas e sanções
Assim que se firma a soberania
Sem mitos falsos, sem anistia

Quanto custa a fome? Quanto importa a vida
Nosso sobrenome é Brasil da Silva
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo

Olê, olê, olê, olá
Vai passar nessa avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá
Lula, Lula

Eu vi brilhar a estrela de um país
No choro de Luiz, a luz de Garanhuns
Lugar onde a pobreza e o pranto
Se dividem para tantos
E a riqueza multiplica para alguns

Me via nos olhares dos meus filhos
Assombrados e vazios
Com o peito em pedaços
Parti atrás do amor e dos meus sonhos
Peguei os meus meninos pelos braços
Brilhou um Sol da pátria incessante
Pro destino retirante
Te levei, Luiz Inácio

Por ironia, treze noites, treze dias
Me guiou Santa Luzia, São José alumiou
Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical
À liderança mundial

Vi a esperança crescer
E o povo seguir sua voz
Revolucionário é saber
Escolher os seus heróis
Zuzu Angel, Henfil, Vladimir
Que pagaram o preço da raiva
Nós ainda estamos aqui
No Brasil de Rubens Paiva

Lute pra vencer
Aceite se perder
Se o ideal valer
Nunca desista
Não é digno fugir
Nem tampouco permitir
Leiloarem isso aqui
A prazo, à vista

É, tem filho de pobre virando doutor
Comida na mesa do trabalhador
A fome tem pressa, Betinho dizia
É, teu legado é o espelho das minhas lições
Sem temer tarifas e sanções
Assim que se firma a soberania
Sem mitos falsos, sem anistia

Quanto custa a fome? Quanto importa a vida
Nosso sobrenome é Brasil da Silva
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo

Olê, olê, olê, olá
Vai passar nessa avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá
Lula, Lula
Olê, olê, olê, olá
Vai passar nessa avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá
Lula, Lula

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Olê, olê, olê, olá
Lula, Lula
Olê, olê, olê, olá
Lula, Lula"

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